Estaleiros voltam à tona e abrem vagas

O projetista César Luiz Cellura, do estaleiro BrasFels, em Angra dos Reis, engole em seco e pigarreia quando fala de algum dos biscates que pegou quando estava desempregado: "Era o que aparecia. Eu montava um ventilador para alguém, capinava o quintal. A gente chega a se emocionar, mas foi isso". Hoje, César Luiz ganha R$ 2,3 mil, e comprou recentemente um Fiesta 1998, por R$ 10 mil, à prestação. A sua esposa trabalha no setor administrativo de uma das empresas subcontratadas pela BrasFels. Em torno do estaleiro reaberto em setembro de 2000, a comunidade de Jacuacanga, com cerca de 10 mil habitantes, começa a despertar da estagnação. Antes de voltar ao estaleiro, César Luiz chegou a abrir uma videolocadora em Monsuaba, outra comunidade à beira-mar, no município de Angra: "Não tirava mais do que R$ 300 por mês, a região toda estava desaquecida", ele diz. Histórias como a de César Luiz são abundantes em cerca de 15 dos estaleiros reabertos ou criados no Rio de Janeiro nos últimos anos, depois que a indústria naval fluminense saiu do estado de virtual aniquilação, em meados dos anos 90. Os estaleiros no Rio respondem por mais de 70% da indústria nacional, mas a recuperação não ficou restrita ao Estado. Em Santa Catarina, por exemplo, o estaleiro Itajaí também se beneficiou da retomada, e está fazendo barcos de apoio para a Petrobrás. Em 1998, praticamente todos os estaleiros fluminenses tinham fechado as portas ou reduzido a um mínimo a sua atividade, e o número de empregos diretos era de apenas 500, segundo o secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio, Wagner Victer. Hoje, são 16 mil empregados no Rio de Janeiro, pelos dados de Victer, e provavelmente uns 20 mil no Brasil. Estudos mencionados por representantes do setor estimam 4 empregos indiretos para cada direto, cálculo que credita 100 mil postos de trabalho à ressurreição da construção naval no Brasil. Não é a volta aos anos dourados dos anos 70 e início dos 80, quando o País chegou a ser o segundo maior produtor mundial de navios (depois do Japão), e a indústria empregava 40 mil pessoas. Mas é, sem dúvida, um renascimento. Essa recuperação, porém, tem pouco a ver com a construção de navios (com exceção dos barcos de apoio às plataformas de petróleo). Foi a exploração de petróleo em águas profundas - basicamente pela Petrobrás - que recolocou os estaleiros em atividade. De um dos andares mais altos da torre da plataforma P-43, em construção no BrasFels, com a paisagem de cartão-postal da Baía de Angra dos Reis ao fundo, pode-se ver as cabeças e braços diminutos de centenas de operários agitando-se em meio à intrincada teia de tubos coloridos das instalações de processo, que cobrem quase toda a superfície do imenso casco - mais de 300 metros de comprimento, 85 de largura e 28 de altura (quase tão alto quanto um prédio de 10 andares).Augusto Mendonça, vice-presidente e um dos controladores da empresa brasileira de engenharia Pem Setal, que formou uma joint-venture com o grupo de Cingapura Kepper Fels e arrendou por 60 anos o antigo estaleiro Verolme em setembro de 2000, criando o BrasFels, a Petrobrás tem um plano de investimentos de US$ 32 bilhões, envolvendo entrega de plataformas até 2009. "É um programa robusto, em condições de abastecer o mercado."

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