''Estamos diante de um descalabro de administração pública''

''Estamos diante de um descalabro de administração pública''

Carlos Cavalcante, Diretor de Infraestrutura da Fiesp

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) defende o afastamento imediato da diretoria de Furnas, por negligência. "É inconcebível que uma autoridade pública na gestão de uma empresa pública se comporte dessa forma", diz o diretor de Infraestrutura na área de energia da entidade, Carlos Cavalcante.

Como o sr. vê a multa?

Acho que estamos diante de uma constatação de enorme gravidade feita pela Aneel. Fica constatada a ausência de investimento em manutenção daquela que é uma das principais linhas de transmissão que o Brasil tem. Descobrimos que nossa linha não dá conta de transmitir a energia gerada por Itaipu em plena carga. Não se trata de um problema eventual, causado por questões da natureza, como acreditávamos inicialmente. O relatório da Aneel constata negligência clara da diretoria de Furnas. Me parece que seria oportuno por parte das autoridades do governo federal, até que se conclua essa investigação, afastar a diretoria de Furnas. É absurdo constatar que estamos expostos a uma situação de negligência de administração, de falta de investimentos combinados, propostos e analisados pela agência - que inclusive estão dentro da tarifas -, colocando em risco todo o sistema elétrico brasileiro. Estamos diante de um descalabro de administração pública que, na minha opinião, é matéria de competência de análise do Ministério Público Federal.

Que mais pode ser feito?

Aplicar o termo de ajuste de conduta. A Aneel deve determinar à direção de Furnas, com prazo para realizar, quais são os reparos a serem feitos na linha de transmissão de Itaipu.

Quais foram os prejuízos da indústria com o apagão?

Setores perderam matéria-prima, linhas de operação de companhias que funcionam 24 horas sofreram paralisação etc. A maior gravidade depois disso tudo é que, apesar de estar sobrando água em Itaipu, desde novembro estamos acionando térmicas para não sobrecarregar as linhas de transmissão. Essa é uma energia poluente, emissora de CO2 e custa mais que o dobro da energia de Itaipu. O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) dá conta de R$ 200 milhões até fevereiro e vem sem a menor cerimônia dizer que o consumidor tem de pagar pela segurança. Já pagamos por isso na tarifa.

Há risco de novo apagão?

Não está afastado, pois, se a linha tem problemas, é possível novos acidentes. Não sabemos a extensão da falta de manutenção. Estamos estupefatos com a irresponsabilidade em termos de gestão da coisa pública.

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