Andre Duzek/Estadão
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'Estamos em um novo patamar do câmbio', afirma ministro do Desenvolvimento

Para Mauro Borges, dólar em torno de R$ 2,20 vai empurrar a recuperação das exportações para 2015 em diante

Entrevista com

Renata Veríssimo e Irany Tereza, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h06

BRASÍLIA - A atual cotação do dólar, ao redor de R$ 2,20, já é tratada pelo governo como um novo patamar cambial, que vai empurrar a recuperação mais forte das exportações para 2015 em diante. Apesar disso, o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges, considera que a desvalorização do real trouxe pelo menos uma vantagem: a estabilidade. "Se pegar qualquer grande exportador brasileiro e perguntar se ele prefere (o câmbio a) R$ 2,40 volátil ou R$ 2,25 estável, ele vai preferir R$ 2,25. Essa estabilidade é fundamental", disse o ministro em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. Há dois meses no cargo, o ministro, que acumula também a presidência da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), diz que o governo pretende manter a política de incentivo à indústria. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como fica a situação da indústria com câmbio a R$ 2,20?

O efeito nos custos da produção e na competitividade brasileira não é imediato. Tem um hiato temporal significativo. Há duas fases: primeiro o efeito negativo do aumento dos custos industriais, porque um câmbio muito apreciado torna as importações de insumos intermediários mais baratas e substitui o insumo nacional pelo estrangeiro, e depois o ganho de competitividade. Quando se tem mudança no patamar de câmbio, e os contratos (da indústria) com o fornecedor estrangeiro já estão estabelecidos, isso não muda repentinamente. A literatura trabalha num período de um a dois anos de maturação. Estamos vivendo esse momento. Possivelmente o efeito da substituição de importações favorecendo os produtores nacionais está começando a aparecer. A competitividade do ponto de vista das exportações brasileiras seria um segundo momento, quando esse novo patamar estiver maturado, num prazo de dois ou três anos.

O novo patamar de câmbio já está configurado?

Estamos num novo patamar de câmbio. Mas qual vai ser esse patamar está em processo de construção, porque ainda há muita incerteza sobre a política monetária americana. Evidentemente, pelo nível de estabilidade macroeconômica do Brasil, o real tem sido a moeda mais apreciada com a mudança do tapering (a redução gradual do programa de compra de títulos de longo prazo pelo Federal Reserve, o BC dos Estados unidos), com o ritmo de redução do processo de ativos. (Os EUA) falaram primeiro em redução de US$ 10 bilhões na compra de ativos, depois caiu para US$ 5 bi. Essa calibragem no tapering aumentou o fluxo de capital ao Brasil. O que não é à toa. O fato de ter grande solidez dos fundamentos econômicos garante a apreciação mais rápida do real. O importante agora é reduzir cada vez mais a volatilidade do câmbio.

A visão do governo mudou em relação à calibragem cambial e seu efeito na indústria?

Acredito que não. A política macroeconômica tem um tripé de política monetária, mantendo controle inflacionário. Hoje é extremamente relevante, dado o choque da seca, a questão dos preços agrícolas. Esse é um fenômeno fora da curva. Então a política monetária teve de ser mais apertada. O que aconteceu foi uma resposta mais firme para manter de fato o controle dos preços. Assim como agiu rapidamente na questão do câmbio no ano passado, quando o Brasil foi o primeiro país emergente a dar liquidez ao mercado de câmbio, que teve resultados concretos do ponto de vista da redução da volatilidade cambial. Estamos num momento de choque de preços.

Como compatibilizar todos os aspectos de um câmbio de R$ 2,20/R$ 2,25 para a economia, com impacto nas contas externas e na indústria?

Temos o entendimento que o patamar (de câmbio) é esse mesmo. Mas, se estabilizar em R$ 2,25, do ponto de vista de informação relevante para o exportador, é muito importante. Se pegar qualquer grande exportador brasileiro e perguntar se ele prefere (o câmbio a) R$ 2,40 volátil ou R$ 2,25 estável, que permite programar contratos de longo prazo com previsibilidade, ele vai preferir R$ 2,25. Essa estabilidade é fundamental. A balança comercial brasileira é estruturalmente superavitária. Se tirar um fenômeno temporário que foi a conta-petróleo, com déficit de US$ 20 bilhões no ano passado, somos um país estruturalmente superavitário.

Mas conjunturalmente estamos deficitários.

Em economia se olha para o horizonte, não para o próprio pé. Economia funciona com previsibilidade. Qualquer analista na área de petróleo e gás, sabe que o Brasil vai ser superavitário. Há dois jeitos de discutir o petróleo na balança: ou somos dependentes estruturais ou residuais do petróleo. Nosso caso é residual. Para um volume de comércio de US$ 500 bilhões, US$ 20 bilhões (da conta-petróleo) é residual.

Em momentos ruins para a indústria, o governo sempre deu algum tipo de ajuda. Acabou essa mamata?

Acabou de forma nenhuma. Vamos dar o apoio à indústria como todos os países avançados industrialmente. Temos um parque fabril que poucos países têm. O governo vai estar o tempo inteiro do lado da indústria dando todos os apoios. A política industrial é efetiva no Brasil, como é nos Estados Unidos, na Alemanha, na China, no Japão. Os países desenvolvidos sempre fizeram política de desenvolvimento regional. No dia em que o País que veio de um mundo subdesenvolvido se propõe a fazer uma política de conteúdo nacional até a nossa imprensa vem contra a gente.

O sr. está se referindo aos questionamentos na OMC, como o do Japão?

Do questionamento geral. Os economistas liberais brasileiros são contra a política de conteúdo nacional. Qualquer política industrial no mundo tem uma natureza de defesa da sua indústria. Eu queria desafiar qualquer economista liberal brasileiro para dizer que não tem política industrial nos países desenvolvidos. Tem uma capa ideológica escamoteando a discussão. O governo brasileiro vai continuar fazendo política industrial, sim, em defesa da sua indústria, como todos os países fazem.

Qual será defesa do Brasil na OMC?

A defesa é que temos o direito de ter política industrial como eles têm. Política industrial é política de desenvolvimento tecnológico. Isso eles têm abertamente. Por que o Brasil não tem o direito de ter sua política de desenvolvimento industrial se os países desenvolvidos praticam essa política há mais de 200 anos? É uma defesa do direito da soberania brasileira de ter uma política de desenvolvimento tecnológico.

O Reintegra pode voltar?

Desde que tenhamos espaço fiscal, que não tenha nenhum risco à solidez fiscal, o Reintegra é uma política legítima que o governo vai defender.

Há alguma medida em estudo para ajudar a indústria?

A política industrial é parecida com a política de saneamento: não se vê. A política industrial só aparece quando é lançada uma medida. Depois, o seu efeito e seu processo de maturação não são vistos. As agendas do Plano Brasil Maior continuam sendo desenvolvidas plenamente. Tem muitas coisas de política microeconômica e regulatória que está sendo feita dentro de cada segmento.

O governo não será mais tão atuante como foi com as medidas anticíclicas em 2009?

Estamos entrando numa nova fase. O pior já passamos. A indústria resistiu no pior momento. O período mais duro da recessão mundial passou e a política industrial está se adequando aos novos desafios, que é a retomada do ciclo de expansão da economia mundial.

O sr. acredita que o Brasil pode inverter este ano o sinal negativo da balança comercial?

Sou otimista. A projeção tanto no Focus do Banco Central quanto a própria projeção do BC, a que a Fazenda faz e as nossas próprias projeções são de superávit da balança comercial. O tamanho desse superávit depende do ritmo de recuperação da economia mundial este ano e do resultado da conta-petróleo. A Petrobrás está acelerando o ritmo de produção e nós vamos substituindo petróleo importado por produção doméstica. Vai ter superávit na balança comercial.

O acordo com a Argentina pode ajudar?

O acordo é fundamental para dar normalidade ao fluxo de comércio bilateral. Mas nós estamos mal acostumados. A Argentina cresceu a taxas muito elevadas na última década. Este ano está desacelerando. Independentemente da normalidade do fluxo, o menor nível da atividade doméstica vai diminuir as exportações para a Argentina. Este ano não podemos contar que teremos um acréscimo das nossas exportações para a Argentina. O que a gente quer é uma normalidade do comércio bilateral.

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