TV Estadão | 31.10.2015
TV Estadão | 31.10.2015

'Estamos falando aqui de recessão sobre recessão'

Para economistas que convivem com o dia a dia dos investidores, a crise será longa; pode levar as contas públicas ao colapso e desestruturar o setor produtivo

Alexa Salomão e Ricardo Grinbaum, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2015 | 16h00

Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, e Cláudio Adilson Gonçalez, diretor-presidente da MCM Consultores, têm uma visão privilegiada do Brasil. Para orientar decisões de investimento, parte do trabalho deles é fazer a ponte entre os números frios dos indicadores e o desempenho da economia real. O trio hoje é categórico: dias piores virão. A raiz do problema não é apenas o desarranjo econômico, mas o impasse político, que impede o andamento de uma agenda de reformas vitais para destravar os negócios e devolver a confiança ao País. Enquanto o nó não for desatado, eles preveem que a recessão de 2015 tende a se estender por 2016 – e talvez ir mais adiante. A seguir trechos da entrevista que concederam à TV Estado, que pode ser vista na íntegra pela internet.

Qual é o cenário que vocês traçam para a economia?

Cláudio Adilson Gonçalez. Há quase um consenso hoje: o Brasil está vivendo uma recessão acompanhada de um impasse político. Quando vou aos meus clientes, eu gosto de colocar a questão assim: imagine que o ministro Levy (Joaquim Levy, ministro da Fazenda) tivesse levado a cabo o seu ajuste fiscal. Teríamos uma recessão da mesma maneira. Recessão que chamo de corretiva. Uma série de setores foram inflados pelo governo e ficaram absurdamente superdimensionados. Pegue o setor automotivo. Pelas minhas contas, tem capacidade instalada para produzir quase o dobro da demanda interna. A questão se agravou porque juntamos a isso o impasse político. O Executivo perdeu completamente o trâmite administrativo. Não se aprova nada. Enquanto isso, cresce uma enorme erosão na confiança de consumidores e de empresários, com queda de investimento e de consumo. 

Zeina Latif. Quando a gente começou o ano, todo mundo sabia que havia uma recessão contratada. O ajuste fiscal seria a forma de a gente, o mais rapidamente, sair da armadilha. Em princípio, eu não acho que algum analista esperava o cumprimento da meta fiscal inicial de 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto). Mas havia a expectativa de que conseguiria fazer alguma coisa, ao menos a metade. Eventualmente, no ano que vem, a gente teria corte de juros e alguma recuperação. Ganharíamos tempo com investidores e agências de rating. Mas o que acontece? Nem essa arrumação de curto prazo a gente conseguiu. Respondendo à pergunta: estamos falando de uma recessão em cima de recessão.

Assista à discussão na íntegra:

José Márcio Camargo. Nos últimos oito anos, o governo aumentou os gastos obrigatórios de maneira muito forte. Quais são esses gastos? Fundamentalmente, salários de funcionários públicos – aumentaram o número de funcionários e o valor dos salários. Aposentadorias que, dada a regra do salário mínimo, geraram um enorme aumento. Pensões. Programas sociais. Enquanto a economia crescia e a receita também, tudo bem. Foi possível gerar superávit primário (economia para pagar o juro da dívida) e evitar que a relação dívida/PIB aumentasse. À medida que a economia desacelerou, o aumento dos gastos obrigatórios apareceu sob a forma de redução do superávit primário. Em 2014, essa redução se transformou em déficit primário (gasto do governo que excede a arrecadação). É complicado, porque só há duas formas de resolver isso. A primeira é reduzindo os gastos governamentais: reajustar os salários do funcionalismo abaixo da inflação, diminuir gastos com programas sociais. Bom, este governo, aparentemente, não está em condições de fazer isso. Durante a campanha, disse que não iria mexer em benefícios sociais – e foi a primeira coisa que fez ao assumir. Perdeu a credibilidade – e acho que o governo percebeu isso. Ao mesmo tempo, a sociedade parece que vai se recusar a aumentar a carga tributária, a ter CPMF. Neste cenário, não significa que vamos ter déficit primário neste ano: vamos ter déficits sistemáticos nos próximos anos. Isso fica ainda mais grave diante da paralisia do Congresso. Finalmente, tem a questão da Lava Jato: ninguém sabe quem vai ser o próximo a ser pego. Minha avaliação é que o déficit só vai ser resolvido via aceleração da taxa de inflação. Estamos chegando no ponto em que ou você faz um ajuste fiscal, de verdade, ou o ajuste vem via inflação: se a inflação acelerar, todos os anos, as receitas crescem mais rápido que as despesas e se elimina o déficit. Porém, é fundamental deixar claro: isso exigiria uma aceleração permanente da taxa de inflação.

Gonçalez. Concordo e quero enfatizar alguns números. Entre Previdência e benefícios sociais, o governo gasta o equivalente a 16% do PIB. Cerca de 12% com Previdência, quando se leva em conta União, Estados e municípios, mais INSS, mais a previdência dos funcionários federais estatutários. Não existe país no mundo, com renda per capita e curva etária semelhantes à brasileira, que faça transferência de 16%. É uma situação estrutural gravíssima, que se soma a um problema conjuntural, que foi o governo ter chutado o balde em 2014. Vamos fechar o ano com um déficit perto de R$ 50 bilhões. Se o governo tiver de pagar as pedaladas à vista, que parece ser o entendimento do TCU (Tribunal de Contas da União), vamos para R$ 90 bilhões. É um número absurdo. Dantesco. Ao meu ver, vai levar as agências de risco a rever a nota brasileira mais rapidamente do que se espera. Isso parece a Grécia. Um belo dia, a Grécia descobriu que os números dela não eram nada do que ela divulgava. Hoje, estão vindo à tona números que nem eu, nem a Zeina, nem você, que acompanhamos a economia de perto profissionalmente, tínhamos ideia. Quanto à inflação, é a saída mesmo. A saída para a plena dominância fiscal. Discordo de quem diz que não estamos: estamos, sim. Na dominância fiscal, a política monetária (via elevação da taxa de juros) morre. É ineficaz. Porque o que vale é o risco da dívida pública. O Brasil voltou a viver os problemas que eu vi quando estive no governo nos anos 80. Nós voltamos mais de 20 anos na história.

Vocês descreveram uma situação em que o ajuste de curto prazo fracassou.

Gonçalez. A Zeina colocou que todos nós sabíamos que não vinha um superávit de 1,1% do PIB. Ela tem razão. Só que vai vir um déficit de R$ 100 bilhões. Claro que fracassou.

Zeina. A questão do equilíbrio de curto prazo não elimina o estrutural. O estrutural é a grande questão. Mas a gente precisava ao menos chegar lá. A gente está num mundo de dominância fiscal. Se bobear, vamos entrar numa espiral de preços-câmbio-juros (círculo vicioso em que uma alta alimenta a outra). Por isso, dei ênfase a essa arrumação da macroeconomia. A gente sabe o caminho das pedras. Era seguir um manual. Aí, tivemos um governo que falou: ‘acho que não é tão sério assim.’ Mas é sério. Foi um erro de política econômica, numa hora em que jamais poderia ter acontecido. Por exemplo, as pessoas falam em bolsa empresário – termo cunhado, ao que eu saiba, pelo Gustavo Franco (economista, ex-presidente do Banco Central). As renúncias tributária (medidas em que o governo abre mão de receber tributos) cresceram enormemente. Era uma coisa perto de 1% do PIB em 2000. Em 2010 foi para uns 3,5%. Hoje está em 5%. Tudo bem fazer renúncia tributária, mas não está esquisito? No mundo todo, o esforço dos governos é reduzir a renúncia tributária, porque é um gasto de difícil controle, meio escondido. Portanto, como mostrar para a sociedade a necessidade de ajuste fiscal, se esta mesma sociedade fala assim: ‘este Estado não me serve’.

Diante da dificuldade de fazer o ajuste fiscal, a Fundação Perseu Abramo, apoiada pelo PT, diz que não há ajuste possível sem medidas de incentivo ao crescimento. O que vocês acham disso?

Camargo. Primeiro, em 2011, o Banco Central reduziu as taxas de juros a níveis extremamente baixos para os padrões brasileiros, no momento em que a taxa da inflação começava a subir. O governo aumentou os gastos e diminuiu o superávit ao longo desse período. A economia não cresceu. Ou seja: já foi feito e não deu certo. Na verdade, isso foi feito de 2007 em diante. Segundo, esse tipo de discurso nunca responde à seguinte pergunta: quem vai pagar o aumento de gasto público? Se não tiver quem pague, vamos gerar mais recessão e mais inflação. As pessoas precisam entender: de 2011 para cá, a gente teve taxa de inflação de 6,5% porque o governo controlou câmbio, preço de energia, preço de transporte, preço de combustível. Se não tivesse controle de preço, teríamos inflação de 12%, 15%. Fácil. Não gosto da ideia de dominância fiscal. Me lembro da discussão surgindo lá em 1998, com a recessão causada pela crise da Rússia. Lá teve a discussão da dominância fiscal. Por que não gosto dessa discussão? Quando você coloca desta forma, parece que não tem solução.

Gonçalez. Mas tem. É o fiscal...

Camargo. É o ajuste! Mas é duro. Doloroso. Este é o problema. Nós vamos ter neste ano uma inflação de 10%.

Em um cenário como este, quanto tempo dura a recessão, então?

Camargo. Eu acho que vamos ter uma queda de PIB de 3,5% neste ano, 2% no ano que vem e, na melhor das hipóteses, podemos ter uma estabilização da economia em 2017. Vamos ter um aumento de taxa de desemprego, sistematicamente, o resto de 2015, 2016 e provavelmente 2017. Nossa estimativa é de uma taxa de desemprego de 8,9% no começo do ano que vem – e crescendo. Assim, até onde este governo aguenta? 

Zeina. É um cenário bastante provável. É a primeira vez que temos isso no período democrático: essa destruição de riqueza, esse retrocesso na agenda econômica. Esta nova classe média está vendo o seu status quo (estado atual das coisas) ameaçado. E nada vai acontecer? Este é um teste para as nossas instituições democráticas. Vai ficar assim? Ninguém reage? Até onde o País aguenta?

Camargo. É isso mesmo. Esta é a minha pergunta.

Para muita gente, a situação ficou insolúvel. Mas vamos supor que o impasse político permaneça. O que vai acontecer com o País nos próximos anos?

Gonçalez. Acho que a Zeina colocou a questão fundamental. Me refiro a um artigo de José Roberto de Toledo, que achei uma das melhores leituras recentes. No Estadão, ele fez uma metáfora com o impasse mexicano, aquele duelo entre três pessoas, em que ninguém pode atirar, porque o primeiro que atirar vai levar o segundo tiro. Este impasse é o que está ocorrendo hoje entre Cunha (Eduardo Cunha, presidente da Câmara), a oposição e o governo. Como romper este impasse? Tem de ser um agente externo. Este agente pode ser a intolerância da sociedade ou o rebaixamento pelas agências de risco, se o déficit for a R$ 100 bilhões. Não sei se é uma situação tolerável por mais três anos. Estou há 40 anos fazendo análise política. Não me recordo de um governo chegar a um ponto desse em menos de um ano de mandato. Não temos precedente histórico para prever o futuro. Por isso temos de usar um pouco da imaginação.

Os três mencionaram a fragilidade do Levy. O PT pediu a saída dele. Qual seria o cenário com a eventual saída do Levy?

Zeina. Vou falar a visão de uma pessoa que está olhando o mercado financeiro. A saída dele vai ser um golpe. Bem ou mal, ele é visto como um fiador que tenta segurar algumas coisas. Há uma percepção de que não haveria ninguém à altura para substituí-lo. Acho que tem uma coisa concreta: ele não vai conseguir segurar um cenário como este que o Zé Márcio falou. Um ministro da Fazenda não consegue, nessas condições menos ainda. Estamos numa ‘escolha de Sofia’.

Camargo. Vai depender muito também de quem vai ser colocado no lugar. Eu não concordo com a Zeina de que vai ser difícil colocar alguém no lugar. A experiência mostra que sempre tem alguém que aceita. Eu não estou nem um pouco preocupado com o personagem. Eu estou preocupado com a capacidade de este personagem fazer o que precisa ser feito. Esse é o ponto. Da mesma forma, as pessoas estão preocupadas com a perda de grau de investimento por outra agência, mas eu não estou preocupado. Já é dado na minha cabeça.

Zeina. Mas tem sempre como piorar...

Camargo. Tem. Esse é o ponto. Me preocupa, efetivamente, é um novo rebaixamento pela S&P (agência de risco Standard & Poor’s, que tirou o grau de investimento do Brasil).

Zeina. Rebaixamento em sequência!

Gonçalez. A perspectiva é negativa.

Camargo. É! Já está com perspectiva negativa. Se a S&P der outro rebaixamento, isto significa que vamos estar dois degraus abaixo (do grau de investimento). Aí a situação fica muito mais complicada. O mercado vai reagir muito pior. A saída do Joaquim pode induzir a S&P a fazer isso – como aconteceu quando mandaram para o Congresso o orçamento de 2016 com déficit. Acho que foi por isso que a S&P falou “ahhhh não, chega. Não aguento mais”. Quem vai ser o substituto, só me preocupa se for uma pessoa que é o oposto. Se colocar o Mantega (Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda) ou o Belluzzo (economista Luiz Gonzaga Belluzzo), o mercado vai desandar.

Zeina. Para completar: essa visão do PT e de algumas pessoas de que a culpa da recessão é do ministro é um equívoco tremendo. A recessão é resultado de coisas que estavam construídas e da falta de ajuste fiscal. A recessão começou antes e se aprofunda porque você não consegue fazer o ajuste. O ajuste fiscal era a forma de tirar a gente da recessão. De certa forma, ironicamente, poderia até ser didático se o ministro chegar e falar, ‘olha, cansei e estou saindo porque eu não consegui a agenda que esperava’. A outra coisa, nessa questão de rebaixamento, é que tem um contágio financeiro sobre o setor privado a cada mudança de rating, a cada patamar de câmbio. Antes do rebaixamento, já estávamos vendo os indicadores de inadimplência. Gente do setor real fala assim: ‘hoje ninguém paga ninguém’. Você pode ter uma desestruturação no setor produtivo que não é brincadeira.

Diante deste quadro tão complicado é possível ter uma ideia de quando o Brasil sai da recessão?

Gonçalez. Não é possível. Dependemos de algo completamente fora das projeções que nós economistas conhecemos: o quadro político. 

Zeina. Se a gente tiver uma mínima arrumação na política, qualquer que seja, pode ter uma volta cíclica em 2017, 2018. O cenário alternativo pode ser um colapso. Mas mesmo que a gente tenha uma arrumação, não dá para ter ingenuidade em relação ao potencial de crescimento do Brasil. O Zé Márcio colocou, de início, todas as questões estruturais que nos assombram e precisam de muito consenso político. 

Camargo. Eu vou discordar um pouco dos dois...

Zeina. Justo no final?

Camargo. Sou um pouco mais otimista no cenário de médio prazo.

Gonçalez. Puxa!

Camargo. Concordo com eles que tem aí uma questão política que precisa ser resolvida. Ponto. Não há dúvida. Mas tem uma característica desse processo atual, em relação ao que ocorreu nos anos 80, que me deixa otimista: as pessoas sabem o que tem de ser feito.

Zeina. Concordo.

Camargo. As pessoas sabem o que tem de ser feito. Sabem! Não tem surpresa. É uma questão de tomar a decisão política e ter espaço político para fazer. Qualquer economista minimamente bem informado, não precisa ser gênio, sabe exatamente o que precisa ser feito para sair desse buraco. Não são coisas espetaculares. É o contrário do que foi resolver o problema da hiperinflação. A gente não sabia como resolver. Fizemos vários erros até acertar. Agora existe consenso. Isto é positivo. O que falta é um mínimo de consenso político. E uma vez que você começar a implementar o que deve ser feito, a saída será rápida porque mudam completamente as expectativas.

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