finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Imagem José Roberto Mendonça de Barros
Colunista
José Roberto Mendonça de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Estamos ganhando a batalha agrícola

Bobagens ideológicas não podem complicar o comércio com chineses e árabes

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2019 | 05h00

A agricultura americana está sofrendo dois grandes golpes. 

O setor tem sido a maior vítima da guerra comercial com a China, iniciada no ano passado pelo presidente Donald Trump. Em consequência, os chineses reduziram suas compras, especialmente de soja, a níveis muito baixos.

Isso obrigou os fazendeiros americanos a armazenar uma quantidade extraordinária do produto, tendo de incorrer no custo de construção de novos silos e armazéns. Como resultado, o preço da soja em Chicago caiu algo como 15% no primeiro semestre de 2018.

Os chineses puderam fazer isso porque se abasteceram em larga escala na América do Sul, especialmente devido às boas safras do Brasil e da Argentina. Na realidade, o resultado para nós foi ainda melhor, porque a queda do preço em Chicago se converteu num prêmio pago às exportações brasileiras, de aproximadamente o mesmo valor.

É por isso que nossas vendas estão batendo recordes. Toda a renda perdida pelo agricultor americano se transformou em ganhos extraordinários para o Brasil.

Essa situação, já bastante ruim, foi agravada por uma quantidade anormal de chuvas no meio-oeste americano, o que vem provocando um volume de enchentes sem precedentes.

Os jornais têm todos os dias notícias sobre o rompimento de dezenas de represas e a inundação de estradas e propriedades. Muitos silos com soja acabam ruindo porque os grãos úmidos estufam e implodem o equipamento, perdendo-se completamente. O prejuízo de capital, ainda não contabilizado, é enorme.

Essa situação ocorre num momento de piora drástica da posição financeira do setor rural. A renda real líquida caiu de US$ 123 bilhões, em 2013, para US$ 63 bilhões no ano passado. Uma queda de 50%! Ao mesmo tempo, as dívidas cresceram 20%, para US$ 417 bilhões.

Embora o valor dos ativos dos agricultores tenha se mantido estável no mesmo período, é muito provável que a situação atual acabe por levar a uma redução. O preço da terra deverá cair, não só pela diminuição da geração de renda agrícola, como também pela destruição de parte do capital social e privado das regiões afetadas.

Finalmente, a previsão é ainda de muita chuva na primavera do hemisfério norte. Em consequência, ainda veremos perdas adicionais, agravando o cenário. O plantio da nova safra de verão será prejudicado em alguma medida, mas só o futuro dirá quanto. É quase certo que a situação vai piorar.

Além da questão climática, o quadro para a próxima safra não pode ser construído sem adicionarmos um eventual acordo comercial entre Estados Unidos e China. A previsão quase unânime dos analistas é que, no máximo em maio, teremos algo assinado e, a partir daí, haverá um retorno das importações agrícolas por parte da China. Entretanto, a questão-chave é qual será a dimensão do movimento comercial. 

Não tenho dúvida de que a embocadura do comércio agrícola vai mudar, dado que o presidente americano, com a delicadeza que caracteriza seus movimentos, rompeu de forma unilateral as normas do comércio internacional.

Qual a mudança que antevemos? 

Há muito tempo Brasil e Estados Unidos disputam o mercado chinês. Em 2013, nós passamos a exportar mais, porém, as vendas americanas sempre foram relevantes. Entretanto, no ano passado ocorreu algo nunca visto: vendemos 70 milhões de toneladas e os Estados Unidos apenas 8 milhões, já que os chineses pararam de comprar depois da imposição das tarifas determinadas por Trump, levando à estocagem que mencionamos no início deste artigo.

O Brasil mostrou-se um fornecedor muito confiável.

Ora, em qualquer país do mundo a importação de alimentos é tão relevante quanto delicada politicamente. Isso é ainda mais verdadeiro na China, país que só pensa estrategicamente e, a despeito da pressão dos negociadores, não vai correr o risco de comprometer seu abastecimento dependendo do mau humor do presidente de plantão. 

Isso será o novo normal: a importância do suprimento não americano vai se consolidar cada vez mais no mercado chinês, e não falamos apenas de soja, mas de carnes e outros produtos também. 

Estamos ganhando a batalha pelo mercado oceânico de grãos e outros produtos agrícolas. É por isso que bobagens ideológicas não podem complicar nosso comércio com chineses, árabes e outros clientes. É muito sério o que está em jogo. 

 

(*) Agradeço ao pessoal da MBAgro as discussões que tivemos enquanto escrevia este artigo.

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

Tudo o que sabemos sobre:
agricultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.