''Estamos na direção certa, mas a passos lentos''

Entrevista - Ilan Goldfajn: ex-diretor do Banco Central; Economista-chefe do Itaú-Unibanco diz que baixo crescimento mundial limita velocidade da recuperação brasileira

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 00h00

O economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, acredita que o Brasil já está saindo da recessão. Mas avisa que o processo será lento. "O mundo vai crescer mais devagar agora, o que colocará algum limite à nossa capacidade de crescer", diz ele, que já foi diretor do Banco Central.Estamos em recessão. O que esperar daqui para frente?A realidade é que agora estamos saindo dela. Apesar desse número negativo no 1º trimestre, os números mês a mês têm melhorado e são positivos. A queda foi tão grande no ano passado que, mesmo recuperando mês a mês, ainda deu uma média negativa. Desde janeiro, fevereiro, março, estamos com números positivos. O que se pode dizer é: estamos na direção certa, mas a passos lentos ainda. Tem como acelerar?Há uma dificuldade em acelerar muito porque nossa capacidade de crescer está associada ao resto do mundo. Não é coincidência que, nos últimos anos, crescemos muito quando o mundo estava no auge. O mundo crescerá mais devagar agora, o que colocará algum limite à nossa capacidade de crescer. Mesmo assim, vamos crescer mais que os outros. Há medidas de curto prazo que o País poderia adotar para crescer mais? Ou isso só ocorreria com mudanças estruturais?Para ter crescimento sustentado, seria preciso fazer reformas estruturais. Entre elas, reformas que flexibilizem os gastos públicos, que diminuam a burocracia, a reforma da previdência, a trabalhista. Enfim, estamos parados nisso. Só elas vão fazer um crescimento de longo prazo sustentado. Aliás, são reformas mais educação. O boom das economias asiáticas deve-se à educação.Dá para esperar que Brasil voltará a crescer no segundo trimestre?Nossa expectativa é de que crescerá 1,5% em relação ao primeiro trimestre. No ano, nosso número era -2%, mas estamos revendo. Para 2010, é 3,7%. Ou seja, bem melhor. Como vê o Brasil comparado com o resto do mundo?No último trimestre do ano passado e no primeiro deste ano, caímos como todo mundo. Mas a recuperação, como vamos ter mais financiamento, será mais rápida aqui. O desempenho recente do mercado financeiro corresponde à expectativa de melhora da economia brasileira ou há exagero?O mercado no mundo é sempre cheio de exageros e depois quedas muito rápidas. A recuperação estará cheia delas. Temos de nos acostumar a não nos influenciarmos pelo ambiente às vezes muito positivo ou negativo dos mercados. Alguns analistas dizem que a economia global corre o risco de ter um desempenho em ?W?: queda, recuperação, queda de novo, e só aí uma recuperação definitiva. Esse negócio de ?W? é uma sofisticação dentro de um mar de incerteza. Haverá vários ?Ws? colados. A grande pergunta é se haverá tendência de subida e qual a velocidade. Eu acho que é para cima, mas em uma velocidade menor do que o produto potencial do mundo. Quais ão os maiores riscos na economia global hoje?A maior economia do mundo tem de se ajustar: subir a poupança, reduzir o consumo e o déficit em conta corrente. Com isso, o dólar vai se desvalorizar. É um ajuste relativamente severo, e isso não está sendo combinado com o adversário. Quem ajustará do outro lado? Há grande expectativa de que seja a China. Para isso, a China precisa expandir o mercado interno, mas, para conseguir, precisará passar por muitas mudanças. O PIB influenciará o Copom?Tudo influencia, mas acho que o Copom olhará o futuro. Inflação é um problema?Não vejo demanda. O crescimento está abaixo do potencial.

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