Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

‘Estamos saindo do mundo da fantasia’, diz Pedro Passos

Empresário defende o ajuste fiscal, mas lamenta que não haja também medidas ‘estruturantes’

Entrevista com

Alexa Salomão, Ricardo Grinbaum, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2015 | 19h33

O empresário Pedro Passos é pragmático. Como sócio-fundador da Natura, uma das maiores empresas de cosméticos do País, se prepara para um cenário de desalento: “O desajuste é grande o suficiente para a gente não ser otimista”, explica. Como presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), organização que reúne alguns dos maiores industriais do País, defende o ajuste fiscal, por mais penoso que possa ser. “Uma correção de rumo emergencial sempre é feita dentro do limite do possível e nem sempre do desejável”, define. Mas ele critica que o ajuste não seja acompanhado de mudanças “estruturantes”, que preparem o País para crescer. “O Brasil precisa retomar a discussão sobre que indústria quer: a gente fica olhando para o século 20, querendo reviver aquela indústria, mas talvez seja muito caro ou até impossível.” A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Numa entrevista ao ‘Estado’, antes das eleições, o sr. disse que a economia estava sem rumo e os empresários tinham perdido a confiança para investir. O cenário mudou?

A retomada da confiança talvez seja um dos temas mais relevantes para o Brasil hoje. Nós perdemos a credibilidade por conta de erros que se acumularam. Talvez o processo de reconquista dessa confiança seja um pouco mais lento. A boa notícia – nesse cenário de más notícias – é que o País começa a lidar com os limites da realidade. A gente está saindo do mundo da fantasia para um mundo onde as contas públicas precisam ser bem administradas, onde os preços precisam estar no lugar correto, onde as metas de inflação devem ser perseguidas. Sem qualificar o que está sendo feito, o fato de a gente lidar com essa agenda já é importante. Eu estava muito mais preocupado com o rumo há um ano, porque falar em meta de inflação ou políticas responsáveis na área fiscal era uma conversa conservadora – vamos dizer assim. Me parece que esse dado de lidar com a realidade é um primeiro passo para a gente poder colocar as coisas no rumo. 

Muitos empresários cobraram o ajuste das contas públicas e a organização da economia. Agora, o governo sobe imposto, revê desonerações e eleva juros por causa da inflação, medidas que afetam diretamente os empresários. Qual a sua avaliação das medidas? 

Não sou especialista em contas públicas, mas nitidamente havia excessos que beneficiavam uma parte, mas prejudicavam o todo da economia. Precisam ser revertidos. Dados recentes da própria Receita sobre o Orçamento de 2015 mostraram que os chamados gastos tributários – basicamente as isenções – representam mais ou menos 5% do PIB. Mas o ajuste pelo ajuste não vai resolver. Temos de fazer mais. O governo tem de enfrentar essa agenda para que a gente possa sair dessa fase com uma nova perspectiva. Fase dura, de recessão. Falo isso com muita pena. A população brasileira pode perder benefícios: inflação correndo a 6%, a 8%, com desemprego, é problema para o trabalhador, para as famílias. O quanto antes a gente sair dessa situação, melhor. Seria muito triste a gente reverter o quadro de ascensão social visto nos últimos anos. Talvez ele tenha vindo com excessos de transferências, com salários subindo acima da produtividade, com uma série de problemas, mas o fato é que a sociedade melhorou e acho que a gente deve evitar um processo de ajuste longo para não termos um dano social muito grande. 

A revisão das desonerações é, então, um mal necessário?

Sim. Um mal necessário. A gente falou dentro do Iedi, quando as medidas saíram: a desoneração da folha de pagamentos foi estendida para tantos setores que não fazia sentido para a lógica da competitividade. 

E a questão da alta dos juros, já que a inflação está subindo?

Minha perspectiva é que a inflação vai se reverter por uma questão simples: estamos diante de um quadro recessivo. Eu não sei dizer se vamos precisar de mais ou de menos juros. As condições econômicas já induzem para uma queda de preço, apesar da indexação, dos repasses do câmbio e dos preços administrados que subiram. Mas acho importante não termos dúvida: um ano atrás, a gente falava que estava tudo bem com inflação a 6,5%. Não, não é tudo bem. É ruim. Ruim para a sociedade, para o poder aquisitivo, para os negócios. Precisamos mirar nos 4,5% e entender que podemos ter até menos, como ocorre nos países estabilizados. Meta de inflação mira em 3%, 2% – 4,5% é licença poética. Com certeza vamos falar bastante sobre o que está sendo feito agora e o que poderia ter sido feito. Como ocorre na seleção brasileira, há várias opiniões de como se organiza o time e suas prioridades. Uma correção de rumo emergencial sempre é feita dentro do limite do possível e nem sempre do desejável. Mas temos algumas críticas: talvez seja o ajuste necessário, o ajuste possível, mas é de má qualidade, ainda tem poucos elementos estruturantes para uma saída que leve a um País mais moderno, com um crescimento de qualidade.

O que seria um ajuste de boa qualidade com medidas estruturantes?

Podemos falar de vários temas para definir um ajuste de boa qualidade. Ao que parece, o ajuste possível reduz ainda mais os investimentos. É o que vemos, apesar da sinalização positiva feita com o anúncio do pacote (de investimentos em infraestrutura). A efetividade do pacote, a testar, mas a sinalização foi positiva. Alguns paradigmas de modelo de concessão estão sendo quebrados. Mas o fato é que existe restrição ao investimento no País e que o investimento é baixo. O segundo fator negativo é que vemos aumento de impostos. Não estou falando de reversão de desonerações. Estou falando de mais impostos, o que é problemático para um País que já tem uma carga elevadíssima. Faz tempo que as lideranças empresariais não falam mais em redução de carga, mas há uma indignação com o aumento. O terceiro ponto é a dificuldade de se fazer a reengenharia do Estado brasileiro. Não avançamos, apesar de algumas medidas provisórias que reviram excessos – como o seguro desemprego, o abono salarial e as pensões. Reformas são sempre difíceis, mas o País precisa de mudanças estruturantes, com visão de futuro. 

Exemplos?

A carga tributária do Brasil incide mais sobre impostos indiretos e menos sobre o imposto de renda, que é o imposto mais justo e menos regressivo. Precisamos começar a sinalizar como vamos desamarrar esta teia em que estamos metidos. Nem estou falando em redução de carga tributária agora, mas em uma simplificação, como por exemplo um ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) evoluindo efetivamente para um IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Isso já foi até sinalizado, mas as conversas são sempre duras com os governadores. É preciso que a discussão seja liderada pelo governo federal, se não, não sai. Não podemos esquecer o tema da educação, que acaba sendo um elemento importante para a nossa produtividade. Estamos nitidamente perdendo espaço para os nossos competidores. Como pano de fundo, o Brasil também não pode deixar de lado a agenda de inserção internacional: é ela que vai nos trazer ganhos de produtividade. O crescimento, fundamentalmente, virá de ganhos de produtividade, já que a demografia daqui para a frente tende a não ser tão positiva. Estamos ficando velhos. 

Mas há clima no Congresso, no governo, para se iniciar discussões como a reforma tributária?

Há 19 anos dizemos que não temos clima para essa agenda. Talvez este momento seja o mais propício. De fato, temos um governo fragilizado do ponto de vista político e dividido. Mas sempre me lembro que, lá atrás, quando fizemos grandes reformas, como o Plano Real, não foi num momento de tranquilidade no Legislativo e tínhamos um governo de transição, do Itamar Franco para o Fernando Henrique.

Mas o sr. sente disposição política da parte do governo? 

Um pedaço do governo, especialmente representado pela área econômica, tem disposição de conduzir algumas reformas. Mas outro lado, do governo anterior por assim dizer, não sinaliza disposição. A própria presidente demorou, mas agora tem dado sinais – espero e torço que sejam consistentes e permanentes. Não é uma coisa estabelecida que o governo mudou de orientação e está unificado em torno de uma proposta. Ao menos é a percepção. Quem está do lado de cá, querendo investir e identificar oportunidades, ainda tem muitas dúvidas se as coisas vão ser efetivas. É uma construção. Mas não estou querendo olhar o copo muito vazio ou muito cheio. Para não ficar só na área econômica: quando vejo o próprio ministro, o Monteiro (Armando Monteiro Neto, Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) falando sobre a revisão do Mercosul, percebo que o discurso mudou. Há dois anos, ousei falar em aproximação de blocos e numa agenda de maior inserção internacional. Era difícil ser ouvido no governo e até no meio empresarial. Agora essa agenda se amplia. Acho que foi o dado da realidade: acabou o dinheiro. Como é que faz? Isso nos coloca outra questão: definir qual será o vetor de crescimento do País. É o mercado interno? Acho que essa agenda ficou para trás. Vamos ter de buscar exportação, investimentos. 

O sr. consegue estimar quando o Brasil voltará a crescer?

Não consigo. Precisamos nos preparar para uma fase ruim longa. Não acredito em reversão em 2015. Qualquer coisa melhor virá só lá no final de 2016 ou início de 2017. Esse é o meu jeito de pensar como empresário. Posso desejar notícias melhores, desejar ter de rever meus planos. Mas o desajuste é grande o suficiente para a gente não ser otimista. Ser otimista hoje é saber que estamos fazendo o ajuste necessário. Contar com o vento de popa é difícil.

O sr. defende uma agenda de longo prazo. Mas há alguma medida de curto prazo para aliviar a situação da indústria que bate recordes negativos? 

Tem um aspecto que vai possibilitar uma reversão no desempenho da indústria: o câmbio. Sem ser usado como instrumento de combate à inflação, o câmbio, já reposicionado, pode ser um vetor de crescimento para a indústria. O movimento ainda é tímido, mas alguns setores já estão buscando o comércio exterior. Em segundo lugar, é preciso uma agenda de simplificação tributária para fazer as coisas fluírem e uma sinalização sobre qual será a agenda internacional. Mas o Brasil também precisa retomar a discussão sobre que indústria quer ter. A gente fica olhando para o século 20, querendo reviver aquela indústria, mas talvez seja muito caro ou até impossível, dadas as condições geográficas e de mercado.

Alguns setores vão morrer?

Sim. E isso acontece no mundo inteiro. Setores mudam de posição, mudam de país, alguns desaparecem, mas novos surgem. Por isso a sinalização é importante. Nós vamos nos integrar? Vamos ter acesso a bens de capital mais baratos e a matérias-primas de padrão internacional para poder estabelecer novas cadeias produtivas? É sobre isso que precisamos falar. Só consigo imaginar uma indústria no futuro se ela for nova, com uma boa base tecnológica e com um bom suporte – e, aí sim, com apoio do governo na área de inovação. Não vamos fazer uma indústria nova sem uma política de ciência, tecnologia e inovação. As políticas que hoje existem estão desintegradas: as políticas de comércio exterior, a industrial e a de ciência, tecnologia e de inovação. Aqui a gente tem uma oportunidade para dar uma direção mais clara.

Quem são os interlocutores da indústria no governo e no Congresso hoje?

O Executivo continua tendo um papel relevante. Falamos na Fazenda, na Indústria e Comércio. Mas agora a gente também começa a lidar com um Legislativo mais forte.

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