Estamos, sim, com um surto inflacionário

Um processo inflacionário está para o corpo da economia, assim como uma gripe está para o corpo de uma pessoa física. A gripe pode ser mais forte ou mais amena, prolongada ou de curta duração, muito grave ou extinguir-se em pouco tempo. Só uma coisa é certa: uma vez instalada, não há como deter o processo - tem de ir até o fim e completar seu ciclo. O que também acontece com um surto inflacionário.Isso deveria ser ensinado não apenas nos cursos de Economia, mas também nos cursos médios, para que as pessoas tenham na cabeça uma correta percepção do que é a inflação e uma melhor aceitação das medidas necessárias para domar os seus surtos. Mergulhar uma criancinha de poucos meses numa bacia com gelo pode parecer um disparate e uma crueldade inaceitável para a maioria das mães, mas é a maneira com que muitos médicos atacam uma súbita elevação da temperatura de qualquer paciente, não apenas das crianças.Outro paralelo interessante que se pode traçar entre inflação e gripe é que nenhuma das duas doenças pode ser inteiramente evitada. Elas surgirão, inevitavelmente, sejam quais forem as precauções que se tomem. O ponto importante, e válido, é que serão sempre muito piores quando não se toma nenhuma precaução. Mas são vírus mutantes que se originam de muitas espécies de cepas, contra os quais não há vacina plenamente eficiente - no caso da inflação, são desequilíbrios que têm inúmeras causas, algumas delas ainda pouco conhecidas dos economistas.O resultado do baixo nível de conhecimento sobre o fenômeno e da baixa eficácia das terapêuticas até hoje desenvolvidas é que o processo se apresenta de repente, quase que de surpresa - como uma epidemia -, preocupando muita gente.A receita mais usada hoje em dia para prevenir a inflação é a que o governo brasileiro vem usando - a do chamado "regime de metas", com a administração precavida da política monetária, particularmente, da taxa de juros. Esse regime, em resumo, consiste em estabelecer uma meta, isto é, uma taxa de inflação que se quer manter num período determinado ou alcançar num futuro fixado e, depois, perseguir essa meta por meio de um ajuste periódico da taxa de juros, para que ela se cumpra. A meta é revista de tempos em tempos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e a taxa de juros vai sendo ajustada pelo Conselho de Política Monetária (Copom) a cada 45 dias.O pressuposto dessa receita é que o consumo, a demanda de bens e serviços pela população, precisa ficar mais ou menos no mesmo nível da capacidade de oferta de bens e serviços da economia, fabricados internamente ou importados. Quando a demanda supera muito essa oferta geral, surgem pressões sobre os preços. Estes aumentam não só porque os bens e serviços estão em falta, mas também porque essa situação abre espaço para que os fornecedores de bens e serviços reajustem seus preços mais do que o necessário para cobrir seus custos. Então se elevam os juros para que o consumo arrefeça.Ora, o que estamos tendo no momento é, fora de dúvida, um surto de inflação. E, a julgar pelos indicadores adversos divulgados na semana passada, a coisa se apresenta com virulência um pouco assustadora. Quanto tempo vai durar e quanto o índice de inflação vai subir não dá para adivinhar. Podem-se fazer algumas estimativas, mas há tantas variáveis em jogo que qualquer uma delas é precária. O que é certo é aquilo que já foi dito acima a respeito da gripe: uma vez instalado o surto, não há remédio para extirpá-lo de uma hora para outra - é preciso que ele complete o seu ciclo e comece a se esgotar; enfim, é preciso paciência. O famoso ypom que o ex-presidente Collor de Mello pensou que daria na inflação, na sua época, não existe na farmácia da Economia. O único paliativo é aplicar mais do mesmo - ou seja, apertar a política monetária (crédito e juros). Não derruba a inflação já. Mas pode derrubar as expectativas do mercado de que ela continuará subindo fora de controle - o que também contribui para mais inflação.Poderia haver uma ajuda a mais. A da política fiscal.O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse, na semana passada, que a inflação será combatida com o aumento da oferta: "Estamos preparando uma grande safra." Mas isso já vem sendo feito. O surto de inflação só não é maior porque já houve uma grande safra recente. E é um remédio de efeito demorado - os preços podem subir em tempo muito menor do que o que se exige para uma nova safra.O bom mesmo seria um radical corte de gastos do governo. Ajudaria muito o trabalho do Banco Central de segurar o consumo. O ministro sabe disso e insinuou dizendo que a meta de superávit primário já foi aumentada de 3,8% para 4,3% do PIB: "É difícil fazer mais que isso", comentou. Não é, não. Pode ser feito rapidamente. E também se pode congelar o excesso de arrecadação que o governo vem auferindo, em vez de despejá-lo na campanha eleitoral.Como nada pode evitar uma inflação, e é muito difícil matá-la quando surge, convém nunca facilitar. Você pode tomar banho num riacho gelado, de madrugada, no inverno. Pode ser que não tenha gripe. Mas por que facilitar?Este governo implementou, desde o seu início, uma política de aumento do consumo, aliás, bem-sucedida. Mais crédito, mais salário, mais distributivismo ajudaram a dinamizar a economia e a criar mais empregos. Muito bom. Mas nesta página mesmo advertimos várias vezes que a dose era exagerada e poderia desencadear um surto inflacionário. Portanto, ele não chegou sem aviso. E não chegou antes porque o aumento de produtos importados ajudava a refreá-lo. Assim, quando a inflação externa começou a subir, a interna correu atrás e o governo está de calças curtas. Não tem muito o que fazer, senão esperar e torcer para que ela não dispare de uma vez. *Marco Antonio Rocha é jornalista.E-mail: marcoantonio.rocha @grupoestado.com.br

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