Estatal chinesa desiste do trem-bala por temer prejuízo

Em seminário sobre investimento chinês na América Latina, dirigente diz que projeto deveria ser realizado pelo Estado

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

A estatal China Communications Construction foi convidada a integrar o consórcio chinês que vai disputar a licitação do Trem de Alta Velocidade (TAV) entre Rio e São Paulo, mas decidiu ficar fora da operação por ter dúvidas quanto à viabilidade econômica do projeto, afirmou ontem em Pequim o vice-gerente-geral da empresa, Chang Yunbo.

"Até agora, não vimos no mundo um único operador de trem de alta velocidade que tenha bons lucros. Não estamos prontos para assumir esse risco", afirmou Chang durante seminário sobre investimentos chineses na América Latina realizado nos dois últimos dias em Pequim.

Na opinião de Chang, o TAV é o tipo de projeto de infraestrutura que deveria ser realizado pelo Estado, por ter risco e custo altos demais para serem suportados pelas empresas.

A China Communications Construction é um dos imensos conglomerados estatais do país e está em 341.º lugar no ranking das 500 maiores companhias globais da revista Fortune. Cerca de 30% de sua receita vem de operações internacionais e o objetivo é elevar o porcentual a 50% nos próximos anos, diz Chang.

A América Latina seria um dos destinos naturais dessa expansão, mas o executivo disse que a estatal não está acostumada com o modelo de negócio na região, no qual o Estado concede à iniciativa privada o direito de construir e explorar obras de infraestrutura, o que implica certo risco para o empreendedor.

O modelo ao qual os chineses estão adaptados é o da África, onde a negociação é feita entre os governos. A China entra com financiamento e exige que suas empresas realizem as obras e forneçam máquinas, materiais e muitos dos trabalhadores necessários para sua execução.

Esse modelo é inviável em países como o Brasil, que possui fortes companhias nacionais, mão de obra e regras que permitem à iniciativa privada calcular o risco das obras de infraestrutura que realizam, avaliaram os latino-americanos que participaram do seminário.

"Não dá para os chineses investirem no Brasil e exigirem que o governo brasileiro corra o risco do negócio. Eles precisam se associar a parceiros locais que saibam correr o risco Brasil", afirmou Paulo Oliveira, CEO da Brasil Investimentos & Negócios (Brain), associação que tem a missão de promover o mercado de capitais do País no exterior.

O potencial para choques culturais entre as duas regiões ficou evidente na intervenção de Chen Weidong, chefe de pesquisa em energia da CNOOC, uma das grandes estatais do petróleo do país. Segundo ele, entre as dificuldades para investir na América Latina está o fato de a região ser vista como "quintal" dos Estados Unidos. "Nós sempre estamos preocupados com a reação americana" a eventuais investimentos na região, disse Chen.

Warren Weissman, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, observou que "há muito tempo" a América Latina deixou de ser vista como "quintal" dos EUA. "A região mudou muito e países como o Brasil estão longe de ser quintal dos americanos."

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