'Este ano, o PIB já começou correndo atrás'

Sem fazer previsões, economista diz que 'por questões aritméticas, ritmo da economia do País está comprometido'

Entrevista com

VINICIUS NEDER / RIO , O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 03h08

O cenário do presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, de que a economia chegará ao fim do ano crescendo 4% em termos anualizados, é possível, na avaliação do sócio da Gávea Investimentos, Arminio Fraga. A desvalorização do real frente ao dólar contribuirá para o aquecimento da atividade.

O ex-presidente da autoridade monetária preferiu não fazer previsões para crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, mas destacou ontem que, "por uma questão aritmética", o ritmo da economia já está comprometido. Nesse quadro, há espaço para a taxa básica de juros (Selic) continuar sendo reduzida.

Arminio tampouco fez previsões de até quanto o corte na taxa pode chegar, mas defendeu uma redução da meta de inflação, de forma gradual. "Em algum momento, para ter juros mais baixos, teremos de ter uma inflação mais baixa também", afirmou o economista, após moderar na Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

Já há previsões de crescimento do PIB este ano abaixo de 2%. Qual o seu cenário?

Este ano, o PIB já começou correndo atrás. É uma questão aritmética. A minha expectativa, apesar do pano de fundo global ser difícil, é de que, no segundo semestre, a economia cresça mais do que no primeiro. Obviamente, dependendo até certo ponto do que está acontecendo, especialmente na Europa e na China. Um pouco disso é cíclico, (problema) nosso, interno. O crédito cresceu um pouco rápido demais, as famílias já estão mais endividadas e não vão continuar a se endividar no mesmo ritmo. Agora, para se endividar mais, elas vão ter de esperar a renda crescer. Isso vai acontecer num ritmo ainda razoável, mas (o crescimento da renda) está desacelerando. Além disso, tem sido difícil mobilizar mais investimentos. Mas isso é uma coisa permanente para nós? Não. O Brasil vai conseguir mobilizar mais investimentos, mas não se consegue fazer isso da noite para o dia. O governo já tomou algumas providências importantes, particularmente o Banco Central, reduzindo bastante a taxa de juros. O câmbio também vai ajudar porque ele se depreciou e é fator de estímulo. Fora um cenário catastrófico global, que não é o mais provável, vejo o Brasil crescendo mais no segundo semestre. O Tombini, no discurso de anteontem, disse que acredita que a economia, na ponta, vai crescer 4%. É possível, sem dúvida.

Quais os fatores internos da desaceleração?

O mais importante é acompanhar três fatores: externo, conjuntural e estrutural. O externo está fora do nosso controle. O conjuntural está sendo objeto de resposta do Banco Central, que também é uma resposta ao externo ao mesmo tempo. Essa parte deve melhorar com o tempo. E o estrutural dá muito trabalho, mas é um desafio que hoje é consenso. Todo mundo fala sobre isso constantemente. Dessa discussão, vai sair uma resposta. Já está saindo. O governo está começando a oferecer mais concessões para o setor privado, está pensando nos temas gerais da infraestrutura do Brasil. Essa campanha para reduzir o custo do capital também pode ter algum impacto.

A Selic pode ir abaixo de 8%?

O Banco Central vai seguir perseguindo sua missão. Se for necessário reduzir mais o juro, não tenho dúvida de que isso será feito. No médio prazo, a tendência da taxa de juro no Brasil é de queda. Primeiro, porque a taxa de juro real vem caindo, e os fundamentos têm permitido isso. Seria bom se houvesse também um limite ao gasto público e não apenas ao déficit. Significaria não colocar tanta pressão na carga tributária. Em algum momento, para ter juros mais baixos, teremos de ter uma inflação mais baixa também, talvez reduzindo a meta. Não teria pressa para fazer isso e tampouco faria de uma maneira muito abrupta, mas uma redução gradual, 0,25 ponto porcentual aqui, 0,25 ali.

O sr. concorda com a análise de que o modelo de crescimento baseado no consumo está esgotado?

Parcialmente. Não discordo quando o governo diz que o consumo vai sempre ser um fator importante. Nesse sentido, a crítica não pode ser vista como voltada simplesmente para reduzir o consumo e não fazer mais nada. Pelo contrário. Mas o consumo não deve ser movido demais pela alavancagem, pelo endividamento. É preciso cuidado e o governo está atento a isso. Em segundo lugar, aí sim se trata de mudança de modelo, é preciso também enfatizar o investimento. É uma questão mais de somar do que de substituir.

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