Esteves já pode fazer seu vinho em paz

Vinícola comprada pelo banqueiro, na Itália, foi absolvida de acusações de fraude e adulteração

Cíntia Bertolino, Especial para o Estado - O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h13

Em meio ao incessante turbilhão de más notícias advindas do conglomerado do empresário Eike Batista, o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, finalmente tem o que comemorar. Sua vinícola Argiano, na Toscana, Itália, foi absolvida em um longo processo que ficou conhecido como Brunellopoli ou Brunellogate.

Esteves arrematou a Tenuta Argiano, da Condessa Noemi Marone Cinzano, em fevereiro deste ano, por um valor estimado em 50 milhões. Na época da compra, ainda pesava sobre a propriedade acusações de fraude e adulteração de vinho. Em maio, a Argiano foi absolvida de todas as acusações por falta de provas, mas só há algumas semanas o resultado do processo foi divulgado.

Na Itália, a notícia de que mais uma vinícola tradicional na mais tradicional região produtora de vinho do país havia sido vendida para investidores estrangeiros causou estranhamento, mas não surpresa. No fim do ano passado, o bilionário argentino Alejandro Bulgheroni uniu a seu extenso portfólio a vinícola Poggio Landi, que até então fazia parte da histórica Fattoria dei Barbi. "Com a crise econômica, muitas propriedades estão à venda em Montalcino e este é o melhor momento para comprar. Quem adquiriu a Argiano fez bem, porque é uma propriedade belíssima", disse ao Estado o crítico de vinhos Franco Ziliani, autor do artigo no jornal La Repubblica que deflagrou o Brunellopoli, em 2008.

Próxima ao Monte Amiata e a 40 quilômetros de Siena, a Tenuta Argiano é uma das propriedades mais bonitas da região. Circundada pelos típicos pinheiros toscanos, foi fundada em 1581. O vinho envelhece nas caves da Villa Renascentista, quase tão antiga quanto o Brasil. Ao todo são 100 hectares, dos quais 48 são tomados pelos vinhedos.

Por enquanto, o perfil dos vinhos da Argiano (importados no Brasil pela Vinci) não deve mudar. Os novos donos mantiveram toda a equipe e o enólogo de origem dinamarquesa Hans Vinding-Diers - que também segue como enólogo das propriedades da Condessa Cinzano na Patagônia Argentina, onde o casal produz vinhos orgânicos e biodinâmicos.

Procurado pelo Estado, Esteves não quis comentar o assunto por se tratar de "investimento pessoal". À revista americana Decanter, no entanto, o administrador da propriedade Giorgio Gabelli expressou satisfação com a absolvição e "entusiasmo renovado para desenvolver projetos que os novos donos pretendem implantar para manter e melhorar os vinhedos de uma propriedade histórica e singular".

BRUNELLOPOLI

Há anos críticos e degustadores de vinho desconfiavam que nem tudo que se chamava Brunello era Brunello em Montalcino. O Brunello di Montalcino é a joia da coroa do mercado italiano de vinhos. Em 2008, com a crescente demanda do mercado americano (o maior importador, 25% de toda a produção cruza o Atlântico rumo ao norte), a Promotoria de Siena apreendeu milhares de garrafas para análise.

Cinco grandes vinícolas, entre elas a Argiano, passaram a ser investigadas por fraude. Segundo a legislação italiana, só pode ser chamado de Brunello di Montalcino o vinho feito com uma única uva, a Sangiovese, e que passou ao menos 5 anos envelhecendo. Todas essas particularidades fazem deste um dos vinhos mais cobiçados do mundo e, consequentemente, um dos mais caros.

A desconfiança dos degustadores profissionais e da Promotoria de Siena era que outras uvas, como Cabernet Sauvignon e Syrah, andaram entrando em garrafas que não deviam. Durante as investigações foram apreendidas mais de 67 mil hectolitros e a própria Argiano acabou rebaixando seus Brunellos de 2003 e vendendo-os como vinhos mais simples.

O escândalo teve efeito imediato na reputação e nas exportações. Os Estados Unidos ameaçaram bloquear importações e o governo passou a exigir análises laboratoriais que comprovassem a autenticidade dos vinhos feitos apenas com Sangiovese. Segundo o Consorzio del Vino Brunello di Montalcino, entidade criada para fiscalizar e promover o vinho, só no ano passado foram exportadas 2,2 milhões de garrafas para os Estados Unidos.

Passada a crise interna, e apesar da crise econômica, o presidente do Consorzio Fabrizio Bindocci está bastante satisfeito com os negócios. "As vinícolas da região fecharam 2012, com 167 milhões, faturamento superior ao ano anterior", diz. Mas não é tão simples assim. Cinco anos depois, o Consorzio ainda tenta restabelecer a confiança dos consumidores. Anunciou, no mês passado, um novo método para rastrear a origem dos vinhos, estudando os perfis de pigmentação da antocianina em garrafas submetidas a longos períodos de envelhecimento. O novo método pode ser encarado como uma reação ao escândalo de 2008? "Pode ser visto como forma de controlar o produto e dar uma garantia ao consumidor", respondeu Bindocci.

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