Esticar o corte dos juros dependerá do fôlego da retomada

Análise: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2012 | 03h04

Nunca desde a sua instituição, em 1996, uma decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu menos do que a de ontem à noite. Mas o teor do comunicado emitido ao final da reunião comportou alguma surpresa, na medida em que deixou mais claras do que muitos esperavam indicações de que o ciclo de cortes nos juros básicos está mais perto do fim.

Em tradução livre do original em "coponês", o enigmático idioma do Copom, o colegiado informa que já vislumbra um movimento de recuperação do nível de atividades e, se não descarta de vez a possibilidade de mais cortes, considera terem se estreitado os espaços para prosseguir com o ciclo de cortes - que já dura um ano e acumula uma redução da taxa básica de 5 pontos porcentuais.

A economia brasileira, de fato, atravessa uma fase de transição, em que já deixou o fundo do poço, mas ainda não retomou o fôlego para uma expansão que a aproxime do que os economistas chamam de "produto potencial" - mesmo considerando as estimativas mais pessimistas para o indicador. A prorrogação dos incentivos fiscais para diversos setores, anunciada ontem, só comprova que essa é a situação de momento.

Embora alguns fatores imprevisíveis, como a forte seca nos Estados Unidos, possam pressionar os índices de inflação, o ambiente econômico internacional permanece, basicamente, deflacionário.. Assim, o ritmo futuro de recuperação da economia brasileira é o elemento-chave para a decisão de esticar ou não o ciclo de redução dos juros, conforme as apostas correntes no mercado, até 7,25% ou mesmo 7%. Não se trata, como alguns costumam criticar, de atender, com o instrumento único do manejo dos juros básicos, a dois objetivos distintos.

O mandato conferido ao Banco Central, via Copom, é o de aplicar a política monetária para cumprir o que determina o sistema de metas de inflação, Isso, porém, não significa que se deva desprezar o comportamento da atividade econômica na definição da taxa de juros que, pressupostamente, promoverá o equilíbrio entre oferta e demanda, evitando o surgimento de pressões inflacionárias.

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