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Pedro Fernando Nery
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Estimativas dão conta de mais de 120 milhões de mulheres desaparecidas

China, Índia e Paquistão lideram nos desaparecimentos de mulheres, devido à preferência por meninos nessas sociedades

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 04h00

Milhões de mulheres estão desaparecidas no mundo: para diversos países, a razão entre homens e mulheres é muito superior à que deveria ser. O fenômeno se dá principalmente na Ásia, e é explicado por abortos seletivos, infanticídios e variadas negligências no cuidado de meninas – da falta de amamentação à falta de cuidados na doença. Estimativas recentes dão conta de mais de 120 milhões de mulheres desaparecidas: isto é, 120 milhões de mulheres a menos do que deveria haver na população mundial.

Nas estimativas de Bongaarts e Guilmoto (2015), lideram nos desaparecimentos China, Índia e Paquistão. A preferência por meninos nessas sociedades envolve também questões econômicas, da maior capacidade de sustentar as famílias (homens ganham mais) à ausência de dote no casamento (que representaria uma perda patrimonial para pais de meninas). Bongaarts e Guilmoto projetam que o contingente de mulheres “desaparecidas” deve continuar subindo, até 2035, quando o total dessas vítimas da discriminação chegaria a 150 milhões no mundo.

Amartya Sen, o economista indiano laureado com o Prêmio Nobel, foi quem pioneiramente descreveu o problema 30 anos atrás – popularizando o termo “mulheres desaparecidas”: “O destino das mulheres é bastante diferente na maior parte da Ásia e do norte da África. Nesses lugares, a omissão em dar às mulheres cuidados médicos semelhantes aos que os homens recebem e de lhes fornecer alimentos e serviços comparáveis resulta em menos mulheres sobrevivendo do que seria o caso se tivessem os mesmos cuidados.” 

Reavaliando o tema na década passada, Sen discorre que nada mudou, mas que muito mudou. A desproporção continua acontecendo, mas a taxa de mortalidade de meninas teria caído. É que, com o avanço da tecnologia, o viés aumentou no nascimento, à medida que a sexagem na gestação ficou mais acessível. 

Países prósperos como Cingapura, Taiwan, Hong Kong e até Coreia do Sul teriam observado muito mais meninos nascendo do que em relação a países desenvolvidos do Ocidente. Pesquisadores (Kim, 2004; Lee e Smith, 2017) calculam na ordem de milhares o número de “desaparecidas” na Coreia do Sul por conta dos abortos seletivos a partir do final dos anos 80 – que levou o país a proibir que o sexo fosse revelado na gestação. A proibição foi considerada inconstitucional pela Corte Suprema, mas em anos recentes o país conseguiu reverter a tendência.

O viés também é observado em países mais próximos. Nos Estados Unidos, teriam sido 2 mil meninas a menos entre 1991 e 2004, de ascendência chinesa e indiana (Abrevaya, 2009). A partir da década de 80, haveria um aumento no nascimento de meninos em famílias que já tinham filhas meninas. 

Aumento na razão entre meninos e meninas no nascimento também foi observado no período, e de forma mais relevante, na Europa Oriental (Guilmoto e Duthé, 2013). No Canadá, há evidência de meninas desaparecidas entre famílias de ascendência indiana (Almond et al., 2013). Diversos Estados americanos passaram a proibir abortos seletivos: a medida, porém, não parece ter tido efeito (Nandi et al., 2014).

Uma série de consequências é discutida para os milhões de mulheres a menos na Ásia. Especula-se que o excesso de homens esteja associado a violência, problemas de saúde mental e tráfico de mulheres. Quedas posteriores de fertilidade tenderiam a ocorrer se há menos genitoras, com reflexos sobre a demografia. Já alguns autores enxergam como aspecto positivo uma possível valorização da mulher nessas sociedades, afetando a própria discriminação.

O que vai acontecer nos próximos anos? Parte da literatura conjectura que a tendência de redução no tamanho das famílias possa induzir à preferência por meninos, e que a difusão de tecnologias baratas permita a muitos escolher pela concepção de um menino.

Assim como o aborto passou a ser mais usado para concretizar essa preferência no lugar do infanticídio, ele deixaria de o ser com o avanço tecnológico. Abrevaya, da Universidade do Texas, pondera que também nos Estados Unidos um aumento da seleção de sexo pode ocorrer.

Na semana em que celebramos as mulheres, a questão das “desaparecidas” é uma dolorosa lembrança do longo caminho que ainda resta pela igualdade de gênero.

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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