Estimular a poupança para financiar o setor privado

Na conjuntura econômica atual, caracterizada por forte aumento da demanda doméstica ? que nem a adoção de uma aparente austeridade no plano dos gastos públicos parece conter ?, o maior gargalo é a falta de investimentos.

, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

As medidas adotadas anteriormente pelo governo, como a elevação do salário mínimo acima da inflação, os reajustes dos benefícios do INSS e a generosidade para com os salários do funcionalismo, terão como efeito um aumento durável da renda de uma parte importante da população. A escassez de mão de obra qualificada e a continuidade dos incentivos para a aquisição da casa própria deverão contribuir para consolidar e aprofundar esse quadro.

O problema é que, sem investimentos elevados no aumento da produção industrial e na melhora da infraestrutura posta à disposição da indústria, se corre o risco de enfrentar novas pressões inflacionárias. Ora, para financiar esses investimentos indispensáveis faltam recursos, que dificilmente podem ser obtidos num mercado internacional que os acontecimentos recentes na União Europeia tornaram muito retraído.

Até agora o BNDES foi a única fonte de financiamentos de longo prazo a um custo razoável. Sem falar das sérias dúvidas em torno da capitalização desse banco, existe um consenso de que ele já chegou a um nível, na sua carteira de empréstimos, que dificilmente poderá ser aumentado significadamente.

Portanto, a questão que se levanta é como conseguir a poupança necessária para atender às necessidades de financiamento do setor privado. Estamos num período em que a pressão inflacionária reduziu a remuneração dos investidores, ao mesmo tempo que a crise europeia torna impraticável a captação de recursos por meio de operações bolsistas.

Temos visto que o governo federal vem conseguindo aumentar sensivelmente sua arrecadação, o que torna viável que opte por uma renúncia fiscal vinculada ao crescimento da poupança privada. Assim, poderiam ser emitidas no mercado interno debêntures de prazo mínimo de cinco anos com remuneração isenta do Imposto de Renda. Temos a convicção de que esses papéis, destinados a financiar investimentos privados, teriam grande sucesso, mesmo com uma remuneração que não ultrapasse 7% a 8% ao ano, custo que as empresas têm de pagar para tomar empréstimos do BNDES. Já os investimentos públicos poderão ser financiados por meio de uma redução dos gastos correntes num clima de crescimento da arrecadação.

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