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Estímulo global

A velocidade da desaceleração chinesa tem surpreendido os analistas de mercado

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2019 | 04h00

A desaceleração recente da economia global e a perda de fôlego na inflação em vários países devem forçar os principais bancos centrais do mundo a rever a trajetória de suas políticas monetárias para condições mais frouxas em 2019.

É, em alguma medida, uma boa notícia para os mercados emergentes, pois 2019 prometia ser um ano de maior aperto nas condições monetárias das economias desenvolvidas, o que, na prática, poderia resultar em menor fluxo de recursos para países emergentes, como o Brasil. Na China, estímulos fiscais também estão a caminho.

Não faz muito tempo que os analistas previam para este ano três altas dos juros americanos pelo Federal Reserve (Fed) e também uma elevação da taxa básica pelo Banco Central Europeu (BCE), a primeira alta de juros na zona do euro desde 2011.

Nos Estados Unidos, o Fed revisou sua trajetória de juros em 2019 de três para duas elevações, mas os preços dos contratos futuros embutem a aposta de nenhuma alta de juros neste ano.

A palavra mais usada pelos diretores do Fed nos últimos dias tem sido “paciente” para descrever a postura da instituição em relação à disposição em elevar os juros diante dos últimos acontecimentos na economia mundial e no desempenho dos ativos financeiros.

Os analistas interpretaram que, ao se dizer “paciente”, o Fed vai dar uma pausa no atual ciclo de aperto monetário até julho, quando terá mais dados de atividade econômica e de inflação para avaliar se segue ou não com as altas de juros neste ano.

Na zona do euro, é crescente o número de analistas que não mais projetam uma alta de juros pelo BCE neste ano diante dos fracos indicadores de atividade econômica e de inflação. O presidente do BCE, Mario Draghi, termina seu mandato em outubro e havia a expectativa de que ele retomaria os juros para o território positivo antes de deixar o cargo. Em dezembro passado, Draghi anunciou o fim do programa de compra de ativos (que somam 2,6 trilhões de euros) neste ano, mas ainda manteve os juros negativos.

Muitos analistas dizem que a desaceleração econômica na zona do euro registrada nos últimos meses não parece ser apenas transitória. Essa fraqueza atingiu até as economias mais sólidas do bloco. A Alemanha, por exemplo, registrou em 2018 crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,5%, o menor ritmo em cinco anos.

Os analistas do banco JP Morgan revisaram a projeção de crescimento do PIB da zona do euro em 2019 de 2,0% para 1,5% e reduziram a estimativa de inflação anual para 1,1% ao fim deste ano, enquanto a meta do BCE é uma taxa um pouco abaixo de 2,0%.

Na China, o banco central anunciou, no início deste mês, um corte surpresa de 1 ponto porcentual na taxa do compulsório bancário como parte do esforço para conter a desaceleração econômica. Em 2018, o BC chinês já havia reduzido a taxa do compulsório em quatro ocasiões.

Tem surpreendido os analistas a velocidade da desaceleração da economia chinesa. Em dezembro, as exportações caíram 4,4% ante igual mês de 2017 e as importações recuaram 7,6% na comparação anual, o que reflete uma forte contração da demanda interna. O PIB chinês em 2018 deve crescer ao redor, ou pouco abaixo, da meta oficial do governo, de 6,5%. Para 2019, as autoridades chinesas devem fixar uma taxa de crescimento entre 6,0% e 6,5%.

Mas a economista-chefe para Ásia da consultoria Pantheon Macroeconomics, Freya Beamish, projeta um crescimento de apenas 3,9% do PIB chinês neste ano, mesmo esperando novas rodadas de estímulos monetário e também fiscal pelas autoridades chinesas. “Esses estímulos não vão ser sentidos na economia real para restaurar o ritmo de crescimento até o segundo semestre deste ano, ou melhor, até o fim deste ano”, diz Freya.

A consultoria Capital Economics projeta que o crescimento da economia mundial cairá de 3,7% em 2018 para 3,1% em 2019, o que seria a menor taxa de expansão desde a crise financeira mundial de 2008. Se o preço do petróleo seguir ao redor de US$ 60 o barril, é muito provável que a inflação mundial fique ao redor de 2,0% ao ano ao longo de 2019. Nesse contexto, vai ser difícil os principais bancos centrais justificarem altas de juros.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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