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'Estímulo pode acabar a qualquer momento', diz economista

Para economista, Fed deixou claro que redução da compra de US$ 85 bi em títulos depende dos dados econômicos

Entrevista com

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2013 | 02h13

O economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, apoiou a decisão do Federal Reserve (Fed, banco central americano) de adiar o chamado "taper", ou "tapering", a redução gradual da compra mensal de US$ 85 bilhões em títulos públicos. Mas Eichengreen alerta que o "tapering" é dependente dos dados econômicos e da evolução da situação política em Washington, e pode começar a qualquer momento. A seguir, trechos da entrevista:

O que o sr. achou da manutenção da compra de US$ 85 bilhões em títulos?

Eu era cético quanto à visão consensual do mercado de que o Fed iria começar o "taper", porque a recuperação ainda está fraca e o crescimento dos EUA está desacelerando. A política fiscal agora é fortemente contracionista por causa das altas de impostos do início do ano, e nós temos dois fatos adicionais desacelerando o crescimento. O primeiro são juros mais altos das hipotecas, que resultaram de toda a conversa sobre o "tapering", e o segundo é a incerteza sobre o teto de endividamento (do setor público) e a possibilidade de fechamento do governo mais para a frente no ano. Tudo isso era razão de sobra para o Fed continuar o que estava fazendo, comprando US$ 85 bilhões em títulos por mês. E o Fed vai esperar para ver se o desemprego vai continuar a cair.

O que mais lhe chamou a atenção na decisão do Fed?

Outra coisa que é digna de atenção é que houve apenas um voto de dissenso. E o voto da Esther George (que votou contra, e é presidente do Fed de Kansas City) é habitualmente de dissenso. Uma votação apertada confundiria o mercado. Esse voto quase unânime mostra claramente que o Fed está preocupado com o que o Congresso fará sobre o teto de endividamento, e como os dados sobre a economia vão se mostrar. E isso deve dar um alívio aos mercados.

Quando o sr. acha que o "tapering" vai começar ?

Pode começar a qualquer momento. O Fed deixou claro que a política monetária é dependente dos dados. Eles vão esperar para ver o que acontece com o crescimento, se a taxa de desemprego vai continuar a cair e o que o Congresso faz em termos do teto de endividamento. Se as coisas forem bem nesses fronts, eles vão começar o "tapering". Ficou claro que não há certezas, que o que o Fed faz depende dos dados, que pode começar o "tapering" na próxima reunião ou esperar até o ano que vem.

É um alívio para moedas de emergentes?

Os mercados tiveram uma reação exagerada à conversa sobre "tapering" no verão (do hemisfério Norte), e agora eles se deram conta que a reação foi um pouco exagerada, que não há uma data no qual vai começar. E parte da ação nos mercados que vimos provavelmente agora vai se reverter. Mas, de repente, o "tapering" pode começar em um mês ou dois. As moedas vão flutuar, é isso que elas sempre fazem.

O que o sr. achou da retirada da candidatura de Lawrence Summers para ser o novo chairman do Fed, o que colocou Janet Yellen como a favorita?

A Yellen é claramente a favorita. Eu sou parte do "time Berkeley", ela era de Berkeley também, tinha uma sala próxima da minha. Será uma boa chair do Fed. Não acho que há muita diferença entre o que a Yellen faria como chair e o que o Summers faria. Os mercados parecem achar que a Yellen é um pouco mais "pomba" (pouco conservadora) em termos de política monetária, e eles entraram em alta na segunda-feira, depois da retirada da candidatura do Summers. Mas é como o "tapering": os mercados tiveram uma reação exagerada. Não acho que tenha tanta diferença entre eles em termos de visão, e acho que há muita continuidade entre Bernanke e Yellen. O que vimos com Bernanke, provavelmente veremos se Yellen for nomeada.

Como o sr. vê a atual situação da economia brasileira?

Estive no Brasil há um mês e meio e detectei um menor otimismo, à medida que a taxa de crescimento caiu para cerca de 2%. O Brasil teve um alerta de que não pode crescer simplesmente exportando recursos naturais para a China. O País tem de expandir a indústria, tem de qualificar a força de trabalho. O governo sabe disso, mas implementar essas políticas, investir em capital humano - que é preciso para expandir a indústria moderna e um setor de serviços com competitividade internacional - tudo isso toma tempo.

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