Estímulos à demanda não dinamizam a indústria

A racionalidade na condução da política econômica é um fator que contribuiria bastante para a produtividade administrativa no País. O problema do descasamento entre demanda e oferta é hoje patente no cenário econômico, mas parece que o governo não se sensibiliza para isso.

O Estado de S.Paulo

22 de março de 2012 | 03h10

Pela sétima vez consecutiva, a sondagem realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra a produção industrial em queda e com o nível do emprego acompanhando essa tendência. Dos 28 setores da indústria de transformação, analisados em fevereiro, 19 estão com estoques acima do normal, o que indica que o processo de retomada da produção no setor manufatureiro, se houver, será lento.

É diante dessa situação da indústria brasileira que se anuncia que, a pedido do governo, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal vão aumentar a distribuição de crédito para as pessoas físicas, oferecendo taxas de juros mais baixas do que as dos bancos privados, para dar um novo impulso à demanda e, assim, estimular a indústria a produzir mais.

Continuamos, pois, com a mesma política inaugurada desde o primeiro mandato do presidente Lula, que propiciou o aumento da participação de produtos importados em nosso mercado (de 14,5%, em 2008, para 18,5%, no ano passado), enquanto a participação da indústria de transformação no PIB, no mesmo período, caía de 16,6% para 14,5% - demonstração clara da redução do valor adicionado da indústria, que não só importa produtos acabados, como componentes que antes eram produzidos no Brasil.

O descasamento existente entre oferta e demanda é naturalmente resolvido pela importação, que está contribuindo para criar nas transações correntes do balanço de pagamentos - que em 2007 eram superavitárias - um déficit que neste ano já deverá alcançar pelo menos US$ 30 bilhões.

Esse não é o único efeito negativo da desindustrialização. Pode-se aceitar, numa economia globalizada, que as importações sejam significativas. O drama é que, deixando de produzir muitos componentes, deixamos de lado, ao mesmo tempo, a possibilidade de aperfeiçoá-los, o que nos marginaliza na corrida pela inovação que se disputa hoje na economia mundial: aumentamos nossa dependência da tecnologia externa, perdendo, assim, a oportunidade de elevar a exportação de bens manufaturados.

Não se deveria estimular a demanda, enquanto a indústria não tem como melhorar a oferta, contentando-nos com sermos exportadores de commodities.

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