Estivadores enfrentam modernização do porto

Novas tecnologias dos terminais portuários e atraentes ofertas das empresas vão deixando para trás a figura do profissional que escolhia quando e onde trabalhar

RENÉE PEREIRA / TEXTO, HÉLVIO ROMERO / FOTOS, SANTOS, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h06

A estiva está em crise. Com a modernização dos terminais portuários, expansão da carga em contêiner e instalação de esteiras para granéis sólidos, o trabalho braçal foi praticamente eliminado. O volume de trabalho diminuiu, a renda minguou e a força política do sindicato, que durante décadas teve o monopólio da distribuição do trabalho da estiva no Porto de Santos, está bem longe do que um dia representou. Exemplo disso, é o resultado das últimas paralisações contra a implementação do sistema eletrônico de escala, em Santos. Ao contrário do que ocorria no passado, em que as lideranças conseguiam parar todo o porto, o movimento atual pode ter efeito contrário.

Na semana passada, três grandes terminais do porto santista - Tecondi, Libra e Santos Brasil - decidiram enfrentar os sindicalistas e abrir processo de seleção para contratar 550 estivadores - uma quebra de paradigma em Santos que tende a enfraquecer ainda mais o sindicato. O objetivo é atender 100% da necessidade de mão de obra e não depender dos trabalhadores avulsos para embarques e desembarques de carga nos navios.

A decisão, mais cara para as empresas, ocorreu após duas semanas de paralisação, R$ 30 milhões de prejuízo e muita dor de cabeça, observou o presidente do Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo (Sopesp), Querginaldo Camargo. Nos últimos dias, oito navios deixaram o porto sem o carregamento por falta de trabalhadores. Os estivadores acompanham e organizam toda a movimentação de carga nas embarcações. Com a paralisação, os terminais tiveram de pagar à própria tripulação ou a funcionários de outras áreas para fazer o trabalho.

Embrulhada num pacote atraente, que inclui salário superior a R$ 3 mil e vários benefícios, como planos de saúde e participação nos lucros, a proposta saltou aos olhos de muitos estivadores, que até então se orgulhavam de escolher quando e onde trabalhar. Em três dias, o número de inscritos já havia superado as vagas - movimento que acendeu sinal de alerta no imponente casarão da Rua dos Estivadores, sem número, na Baixada Santista.

Ali, na sede do sindicato da categoria, a velha-guarda dos estivadores, formada por filhos e netos de trabalhadores portuários, correu para tentar convencer os mais novos a não sucumbir à proposta. "Estão tentando desorganizar o que organizamos", lamentou o diretor do Sindicato dos Estivadores, Marcílio Dias, de 63 anos, quase 50 deles na estiva. A preocupação é perder o prestígio que ainda lhes restam.

A crise da categoria começou pela dificuldade em admitir mudanças no sistema atual, considerado arcaico e viciado em privilégios, especialmente para membros da família. Em 2006, o Ministério Público do Trabalho e o Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo), de Santos, assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta para criar um sistema eletrônico de escala dos trabalhadores avulsos, que obedecesse a intervalo mínimo de 11 horas de descanso.

A nova metodologia, iniciada em 29 de maio, criou insatisfação entre os estivadores, que votaram pela paralisação das atividades portuárias. "O MP e o Ogmo assinaram esse termo de forma irregular, pois não ouviram o trabalhador", afirma o presidente em exercício do Sindicato dos Estivadores de Santos, Cesar Rodrigues Alves. A Justiça, entretanto, determinou que 70% da força de trabalho tem de ser atendida em Santos para não prejudicar a economia do País.

De acordo com dados do Ogmo, há 2.339 trabalhadores ativos na estiva de Santos. Desses, 1.758 são registrados no órgão e têm prioridade na escala com serviços melhores. Outros 581 são cadastrados e ficam com remunerações menores. Uma das críticas do sindicato é que a escala eletrônica não faz diferença entre os dois tipos de trabalhadores. "Estão pondo o cadastrado na frente do registrado, que fica sem trabalho", reclama o presidente do sindicato. Além disso, critica, o sistema não lê de forma adequada as 14 funções de trabalho na estiva. Alguns têm habilidade e experiência para fazer todo tipo de atividade. Outros não, diz ele. "Na escala manual, sempre há opção para escalar um estivador experiente e um novato."

Nos bastidores, a explicação para a intolerância às inovações - recomendadas internacionalmente - está no famoso jeitinho brasileiro. Com a escala manual, é mais fácil privilegiar profissionais registrados com os trabalhos mais nobres e rentáveis, em detrimento dos cadastrados. De fato, esse tipo de acusação existe até entre os trabalhadores. Na semana passada, enquanto a reportagem do Estado acompanhava a "Parede" - nome dado à escalação -, trabalhadores cochichavam apontando outro estivador: "Ah! Esse tem trabalho a qualquer hora".

Os primeiros dias da escalação eletrônica foram conturbados. Ninguém conseguia entender o sistema, que travava seguidamente. Não se sabe, entretanto, se isso ocorreu pela tentativa de tentar burlar o sistema e trabalhar dois turnos seguidos. Diante das reclamações, a Justiça do Trabalho decidiu dar prazo de sete dias para investigar possíveis falhas. No período, que termina sexta-feira, a escala será manual e transferida para o sistema eletrônico, respeitando o intervalo de 11 horas.

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