Estônia adota euro e dá fôlego à moeda única

Apesar das incertezas sobre futuro da zona do euro, Estônia, com 1,3 milhão de habitantes, passa a ser o 17º país a aderir à moeda

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2011 | 00h00

No momento em que o mundo se questiona sobre seu futuro, a zona do euro, o grupo de países da União Europeia que adota a moeda única, ganha hoje seu 17.º membro - e melhor aluno. A Estônia, dona das melhores estatísticas econômicas do continente, adota em 2011 a divisa, dando de ombros para o mercado financeiro e para a ameaça de insolvência que rondou países como Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal em 2010.

A adesão era esperada como um passo natural pelo 1,3 milhão de habitantes do país desde sua integração à União Europeia, em 2004. A perspectiva era então de obter ganhos com a substituição da fraca coroa pelo euro, à época uma moeda de estabilidade incontestável nos mercados financeiros internacionais. Para tanto, o país se preparou: seu déficit público fechou 2009 dentro das normas do Pacto de Estabilidade - 1,7%, contra 3% exigidos - e a relação dívida-Produto Interno Bruto (PIB) é uma das mais baixas do bloco, 7,2%, contra 60% de máximo exigido.

Tigre báltico. O desempenho rendeu ao país elogios do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, e o apelido de "tigre báltico" - já dado à Irlanda, o "tigre celta", hoje quase falido. Apesar do bom desempenho, o governo da Estônia não parece satisfeito e projeta mais crescimento econômico com o euro. "O Fundo Monetário Internacional (FMI) indicou que a passagem ao euro deve acelerar o crescimento de 0,15% a 1% por ano nos próximos 20 anos", afirmou na última segunda-feira o ministro da Economia do país, Juhan Parts.

A expectativa se baseia no fato de que o comércio exterior da Estônia é dependente da União Europeia, que absorve 80% da balança. A esperança do governo também é de que o nível de emprego seja elevado, já que o mercado livre, somado à moeda única, tenderia a fomentar o comércio e o emprego industrial, além do turismo.

Entre os habitantes do país, entretanto, o otimismo é menor. A população, de apenas 1,3 milhão de habitantes, está dividida, segundo as últimas pesquisas de opinião: só 52% dos habitantes apoiam a adoção da divisa. O temor é de que a integração à zona do euro traga inflação - uma queixa de vários países europeus - e, agora, instabilidade.

Moeda de reserva. Chefe do governo de centro-direita, o primeiro-ministro Andrus Ansip não vê motivos para preocupação. "Nós não temos medo. Claro que há uma crise em alguns países, mas não há uma crise da zona euro em seu conjunto", afirmou ao jornal francês La Tribune. "Eu não sou um velho, mas já ouvi a perspectiva de desabamento total do dólar pelo menos 10 vezes desde que nasci. Mas o dólar está aí, e bem". Para Ansip, prova da força do euro é sua posição como moeda de reserva. Antes da crise, afirma, 29% das reservas internacionais eram cotadas em euro. Hoje, o total chegaria a 31%.

A troca monetária não causa grande choque no cotidiano do país. A Estônia será apenas o terceiro país do antigo bloco comunista a adotar a moeda única, depois da Eslovênia, em 2007, e da Eslováquia, em 2009. Nem a extinção da coroa - ? 1 valerá 15,6 coroas - provoca nostalgia, já que a divisa existiu no país por menos de duas décadas. Até 1992, o país adotava o rublo soviético. Do ponto de vista político, a adoção também amplia a integração da Estônia na Europa, afastando a república da Rússia e de seu passado de vítima da dominação. Para a UE, o processo também é significativo. O bloco, criado em 1999 por 12 países, envia um recado à comunidade internacional e aos mercados financeiros: não apenas continua existindo, mas também crescendo.

PARA LEMBRAR

Em 17 países, euro enfrenta a pior crise

O euro começou a ter valor legal em janeiro de 2002. Na primeira fase, 12 países adotaram a moeda, o que, na época, atingiu 308 milhões de consumidores - foi a maior transição monetária realizada na história, envolvendo bancos, transportadoras de valores e a população afetada pela mudança. O euro foi lançado em 1999, mas até entrar em circulação só era utilizado para fins contábeis.

Entre as primeiras nações que decidiram substituir a antiga moeda local pelo euro estavam Alemanha, Grécia, Espanha, França, Itália e Portugal. A Eslovênia, em 2007, foi o primeiro país fora do grupo original a adotar o euro. Em seguida, entraram no grupo Malta e Chipre (2008), Eslováquia (2009) e, agora, a Estônia (a partir de 2011).

Bulgária, República Checa, Hungria e Suécia são alguns dos países que desejam adotar o euro. Para fazer parte do grupo, os governos locais devem manter a inflação e as finanças públicas controladas.

Assim que o euro passou a ter caráter oficial, analistas apostavam que a moeda seria testada quando um dos países do grupo enfrentasse uma crise financeira, situação vivida, atualmente, pela Grécia, Irlanda e Portugal. Em dezembro, os países da União Europeia decidiram criar um fundo permanente de resgate, a partir de 2013, para evitar a quebra de qualquer país da região.

Um estudo do Centro de Investigação Econômica e Empresarial (CEBR), da Inglaterra, indicou que a zona do euro tem apenas uma chance em cinco de sobrevier pelos próximos dez anos por causa dos desequilíbrios.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.