Estoque prejudica e retomada da produção industrial só virá em setembro

Setores industriais de mão de obra intensiva observam uma melhora tímida das condições de estoques altos e continuam com otimismo cauteloso para a segunda metade deste ano

Bianca Ribeiro e Gustavo Porto, da Agência Estado,

29 de junho de 2012 | 16h43

SÃO PAULO - Tem sido frustrante para a maioria do setor produtivo o efeito das medidas de estímulo ao consumo e à atividade anunciadas pelo governo em meio a um cenário de cautela produzido pela crise internacional. Setores industriais de mão de obra intensiva, como têxtil e de vestuário, moveleiro, calçadista, automobilístico e de máquinas, observam uma melhora tímida das condições de estoques altos ou novas encomendas, e continuam com "otimismo cauteloso" para a segunda metade deste ano.

Juro menor, dólar mais alto, desonerações da folha de pagamentos, redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), aumento das compras do governo e estímulo ao crédito são iniciativas que parecem estar longe de aumentar significativamente o ritmo nas indústrias.

Controversa desde seu lançamento, a desoneração da folha de pagamento por exemplo é apontada como uma boa folga tributária para as empresas de pequeno e médio porte, mas não favorece as grandes indústrias do setor calçadista e de vestuário, que passaram a terceirizar boa parte da produção para competir com a entrada massiva de produtos chineses mais baratos. Além disso, na prática a medida só entra em vigor em alguns setores a partir de agosto e impacta parcialmente os efeitos positivos para o terceiro trimestre.

O aumento da margem de preferência nas compras governamentais também foi bem recebida nas plantas do setor têxtil e de confecção, mas parece não ter sido suficiente para retomada de um ritmo mais acelerado no setor. "Ainda estamos administrando a demanda pela oferta de modo a esvaziar os estoques", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, Aguinaldo Diniz Filho. Em outras palavras, a indústria procura suprir a demanda com o produto que ainda está estocado antes de partir para retomada da produção.

Segundo ele, o governo tem uma visão política positiva em relação ao setor, mas a importação estaria sendo predatória mesmo com a valorização do dólar a um nível cada vez mais próximo de R$ 2,10. Assim, mesmo com uma melhora do consumo no segundo semestre, o "desafio é que essa demanda seja atendida pela produção nacional", afirma Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit.

No setor moveleiro, a melhora foi um pouco mais palpável, em grande medida proporcionada pela queda do IPI - que espera para hoje o anúncio da prorrogação do corte do imposto. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Móveis, José Luiz Diaz Fernandez, os estoques estão diminuindo, embora não no ritmo desejado.

Segundo Fernandez, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) do setor subiu de 72% em abril para 73% em maio, e nos últimos 90 dias a produção registrou um aumento de 2,5%. "Mas a expectativa era bem maior, esperávamos 6% ou 8% de aumento. Isso não se concretizou porque a indústria e o varejo estavam muito estocados", diz. Ele está confiante na prorrogação da desoneração de IPI por mais 90 dias.

Ainda que isso não aconteça, o setor projeta uma melhora de ritmo a partir da segunda semana de agosto, quando começam as encomendas do varejo paras as vendas de fim de ano. Fernandez diz que também foi observada melhora das condições de exportação, que deve crescer 3% com ajuda de novos mercados na América do Sul, América Central e África. "Nossa previsão de crescimento para este ano é de 5% a 6% em 2012", diz o dirigente, lembrando que em 2011 a produção do setor cresceu 1,5%.

No setor automobilístico, o vice-presidente de Manufatura da General Motors América do Sul, José Eugênio Pinheiro, avalia que as medidas de incentivo ao setor automotivo anunciadas no final de maio foram suficientes para a redução de estoques das montadoras e ajudaram na retomada nos níveis de consumo do ano passado. "As montadoras conseguiram desovar os estoques e as fábricas voltaram aos planos de produção previstos anteriormente", disse o executivo.

Segundo ele, no entanto, ainda é muito cedo para avaliar se a produção total de veículos crescerá este ano, por conta das medidas, que incluíram a redução do IPI sobre o preço do veículo novo e do IOF para operações de financiamento. Pinheiro acredita ainda numa prorrogação do prazo final para as medidas de

incentivo, em 31 de agosto. "Acho que deverá haver uma extensão natural".

Há, no entanto, setores que registraram piora das condições mesmo com as iniciativas do governo. O presidente da associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), Paulo Grinzs, diz que o ritmo da produção caiu 30% na passagem de abril para maio.

Os calçadistas não operam mais com estocagem significativa de produtos, devido a processos mais dinâmicos de produção que permitem atendimento de encomendas de curto prazo. Apenas as grandes indústrias ainda conservam esse hábito, mas somente em linhas mais tradicionais com demanda certa e constante.

"Neste ano até abril, a produção caiu 2,8%, e muitos desistiram de retomar produção inclusive por causa dos problemas com a Argentina", diz Grinzs, citando as barreiras promovidas pelo país vizinho a produtos brasileiros, que estão ficando parados nos portos. Desde o início do ano as vendas para a Argentina, que é uma forte compradora, caíram 55% em valores e 50% em número de pares.

Ainda assim, o Natal deve garantir que o setor calçadista também acelere as máquinas a partir de setembro para dar conta de um esperado aumento de encomendas por parte do varejo. "A expectativa para o setor em 2012 é de um crescimento não superior a 4% no volume de vendas e abaixo disso em faturamento, pois no segundo semestre as coleções são mais baratas", prevê o dirigente. O principal problema do setor, na opinião de Grinzs, é a entrada de sapatos chineses no País. "É nosso desafio", completa.

Para o setor de máquinas e equipamentos, que trabalha com estoques apenas de carteira de pedidos, a situação está inalterada e a perspectiva é de que se mantenha assim inclusive no terceiro trimestre. Segundo o diretor secretário da Associação Brasileira da Indústria de Maquinas e Equipamento (Abimaq), Carlos Pastoriza, de abril a maio a carteira de pedidos ficou inalterada, assim como no acumulado dos cinco primeiros meses, na comparação comparado a 2011. "As medidas anunciadas em abril foram tênues e a mais forte delas, que é a desoneração da folha de pagamentos, só entra em vigor em agosto. Então esperamos uma retomada apenas a partir de meados de setembro", diz.

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