Estoques altos, crise externa e falta de confiança emperram indústria

Analistas do mercado financeiro avaliam que o elevado nível de estoques dificultará a retomada da produção industrial nos próximos meses

Maria Regina Silva e Franciso Carlos de Assis, da Agência Estado,

29 de junho de 2012 | 16h43

SÃO PAULO - Analistas do mercado financeiro avaliam que o elevado nível de estoques dificultará a retomada da produção industrial nos próximos meses. Apesar da implementação de medidas de incentivo - como redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e desoneração da folha de pagamento de alguns setores -, a percepção é que o a produção ainda vai demorar para decolar e chegar a um nível consistente. Com os depósitos cheios, diminuição da confiança dos empresários na economia doméstica e ausência de uma solução para a crise europeia, o cenário traçado por economistas é pouco animador e até contempla taxa negativa para a produção industrial em 2012.

"A queda no juro básico já era para estar surtindo efeito, mas ainda não está tendo impacto pleno sobre a atividade. As medidas de estímulo são muito recentes e tendem a influenciar o setor mais em julho e em julho", estima o economista Thovan Tucakov, da LCA Consultores.

Tomando o setor automotivo como exemplo, um dos mais importantes para a economia por ter uma cadeia produtiva longa, a expectativa não é muito animadora para a atividade como um todo. Isso porque o consumidor demora no mínimo de dois a três anos para substituir o produto, como acontece com qualquer bem durável.

Na opinião do economista Marco Caruso, do Banco Pine, o consumidor pode até antecipar a compra de um bem durável, mas não fará isso a cada um, dois anos. "Ainda mais porque o nível de inadimplência para pessoa física está subindo. Em um ambiente de inadimplência alta, tem de ter ajuste para baixo no consumo", afirma.

Para se ter uma ideia do ânimo do próprio empresário em relação ao futuro próximo, O Índice de Confiança da Indústria (ICI) sofreu a sua primeira queda de 2012 ao recuar 0,2% em junho ante maio. Novamente usando o setor automotivo como exemplo, no mês de maio as montadoras tinham em seus pátios 410 mil unidades, o maior nível de estoque da série histórica da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O processo de ajuste, segundo analistas, pode até ter começado, mas ainda está longe do fim.

"É preciso primeiro eliminar os estoques", diz Caruso, para depois incrementar a produção e atender a uma nova demanda. Ele lembra que o consumo das famílias até está alto, mas os pátios estão muito mais cheios. O governo, completa, já fez muita política para estimular as vendas, mas chega um momento em que a eficácia das medidas se esgota.

Mesmo com expectativa de melhora na produção industrial no segundo semestre, o economista do Banco Pine diz não enxergar perspectivas muito animadoras para o setor automotivo. Segundo Caruso, os estoques podem diminuir para algo mais perto de 350 mil mensalmente, mas acredita ser difícil voltar ao nível de 2010, quando a média mensal era de 280 mil unidades. Para a produção industrial em 2012, a estimativa de Caruso é de expansão de 0,40%, inferior ao resultado de 2011, quando houve avanço de 0,30%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O economista Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria Integrada, concorda que os altos estoques e as dúvidas relacionadas à economia externa limitam a retomada da indústria. "Como primeiro dado antecedente para a produção industrial de junho, este resultado aponta que a atividade deve permanecer sem reação no curto prazo diante das evidências de estoques elevados e de ainda muita incerteza no cenário internacional", disse, ao avaliar a primeira a queda do Índice de Confiança da Indústria da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

De acordo com o economista da Tendências, a produção industrial pode melhorar marginalmente se os estoques diminuírem. Apesar dessa estimativa, prevê recuo de 1,00% na produção industrial de 2012. "No mês a mês, a taxa pode ficar positiva, mas insuficiente para continuar assim até o final do ano", afirmou.

Indústria de consumo

O Tucakov, da LCA Consultores, alerta que não são apenas os estoques do setor automotivo que estão elevados e fora do comum, mas também os da indústria de consumo e de bens intermediários. Já os empresários da construção, segundo Tucakov, se encontram em situação mais confortável. "O que diminuiu recentemente foram os estoques das empresas de construção, que caminham para uma normalidade", afirmou, reforçando que o que está emperrando a retomada da indústria é a crise externa, a ausência de confiança dos empresários e os elevados estoques.

Ao contrário do previsto pelo economista da LCA, o problema de depósitos cheios não foi resolvido no primeiro semestre. Agora, ele trabalha com a possibilidade de uma solução no segundo semestre, com a produção industrial fechando 2012 com alta de 0,70%, mas com grande chance de a estimativa ser revisada para baixo, avisou.

Na avaliação do economista da LCA Consultores, o câmbio depreciado, ao redor de R$ 2,00, pode ser um ponto positivo para a retomada da indústria, pois já há segmentos demonstrando que estão mais "confortáveis" com o atual nível da moeda norte-americana.

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