Estoques da indústria estão no nível mais elevado desde maio de 2009

Vendas de fim do ano poderão ajudar a desafogar produtos, acumulados por causa do progressivo desaquecimento da economia este ano

ALESSANDRA SARAIVA / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2011 | 03h04

Com a economia brasileira cada vez mais desaquecida, o alto nível de estoques pode ser uma grande dor de cabeça para a indústria nos próximos meses. A indústria apurou nos meses de agosto e de setembro os maiores níveis de estoque desde maio de 2009, quando o País ainda sofria os efeitos negativos da crise global.

O levantamento foi feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a pedido da Agência Estado, com base na Sondagem da Indústria da Transformação. "Com a proximidade do Natal, será uma excelente oportunidade para a indústria desafogar seus estoques. Mas o nível está tão elevado que não sabemos se o aquecimento característico da economia no último trimestre do ano será suficiente para reverter a situação", avaliou o economista da FGV, Aloísio Campelo.

De 14 gêneros industriais pesquisados, metade operou em setembro com estoques acima de suas respectivas médias históricas desde 2003. É o caso de metalúrgica; material de transporte; calçados e confecções; têxtil; química; celulose e papel; e produtos alimentares. Os níveis de estocagem dos quatro primeiros remontam aos de 2009, de acordo com o levantamento.

Operar com estoques elevados foi premissa frequente para a indústria da transformação este ano. No entanto, o cenário piorou sensivelmente a partir de julho, segundo o economista da FGV. A desaceleração econômica tornou-se mais evidente a partir do segundo semestre.

Isso pode ser percebido nas reduções de projeção de crescimento para este ano. Este mês, o Ministério da Fazenda anunciou que revisará para baixo a estimativa para a economia em 2011, de crescimento de 4,5% para até 4%. Ontem, o ministro Guido Mantega falou que a economia vai crescer 3,8%. O Banco Central já prevê expansão de 3,5%, similar às estimativas de analistas do mercado financeiro.

Concorrência. A concorrência com importados foi um dos fatores que ajudaram a compor o cenário de estoques excessivos. Nem mesmo o curto período de alta mais intensa do dólar no fim de setembro e início de outubro foi suficiente para reparar a perda de mercado sofrida pela indústria por causa do câmbio. Isso é perceptível no levantamento da FGV: entre os pesquisados, o ramo da indústria com estoque mais elevado foi o têxtil, sensível à penetração de importados.

No caso do vestuário, a concorrência com produtos chineses esmagou o nível de atividade da indústria este ano, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Aguinaldo Diniz Filho.

A produção da indústria têxtil caiu 14,5% de janeiro a setembro deste ano, ante igual período no ano passado. Ao mesmo tempo, as vendas do varejo de têxteis cresceram 6,8% no mesmo período de comparação. "Isso só mostra que existe, sim, uma demanda para têxteis, que não está sendo suprida pela indústria brasileira", reclamou Diniz.

Na prática, em um cenário de concorrência com importados e maior desaquecimento econômico, os estoques se elevam paulatinamente e derrubam a atividade. A indústria como um todo tem operado em ritmo mais fraco desde abril, segundo o gerente da coordenação de indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), André Macedo. "Podemos dizer que a indústria brasileira tem operado praticamente no mesmo ritmo há quatro meses", acrescentou.

Para o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza, a produção industrial deve crescer apenas 2% este ano, ante alta de 10,5% em 2010.

Embora tenha ressaltado que a magnitude do aumento na atividade industrial no ano passado foi beneficiada pela base de comparação fraca (2009), Souza admite que a alta estimada para 2011 é "muito ruim". "Antes da crise, a indústria operava com altas anuais em torno de 6%. Não conseguimos retornar àquele ritmo. Em setembro deste ano, a atividade industrial foi 1% inferior à de setembro de 2008."

Até o momento, não há motivos para acreditar que o próximo ano será diferente para a indústria. Souza observou que as projeções de crescimento da economia para 2012 não são muito diferentes das apuradas para 2011.

Ao mesmo tempo, há uma incerteza sobre o impacto, na economia real brasileira, da piora do cenário internacional - bem como da possibilidade de continuidade das turbulências externas.

Neste contexto, a indústria brasileira aguarda possíveis efeitos positivos do Programa Brasil Maior, lançado pelo governo, e espera novas medidas da União que possam elevar competitividade do produto nacional. "Por enquanto, o cenário está bastante adverso para a indústria, e com o risco de continuar adverso em 2012", concluiu Souza.

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