Wilton Junior/Estadão
Daniele Nascimento (à dir.) e a mãe, Edinalva, com sacola de alimentos recolhidos na Ceasa; frutas e legumes descartados por comerciantes alimentam a família. Wilton Junior/Estadão

‘Estou aqui pelos meus filhos’, diz mãe de gêmeos que cata restos de legumes na Ceasa

Catadores relatam dificuldades para alimentar famílias, mesmo com auxílio emergencial; há reclamações contra preços da água e do gás

Marcio Dolzan , O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 16h52

RIO - O olhar atento e alguma paciência ajudam Daniele Nascimento, de 23 anos, a encontrar bons dentes de alho em meio a centenas de outros, imprestáveis e cujo destino será o lixo. É a segunda vez que a mãe de gêmeos vai à Ceasa, central de comercialização de legumes e frutas na zona norte do Rio, procurar alimentos em meio às caçambas de descarte. A mãe dela, Edinalva Reis dos Santos, que estava com ela nesta sexta-feira, 3, faz o mesmo "desde que a Daniele era pequeninha". Foi a forma que as duas  - e dezenas de outras pessoas que diariamente fazem o mesmo “garimpo” - encontraram para sobreviver. Alimentam, com os restos que catam, as famílias, em meio ao desemprego, à inflação e aos preços cada vez mais altos da comida.

"Minha gravidez foi de risco e eu fiquei a maior parte do tempo internada”, conta Daniele. “Por causa disso, não consegui ir resolver e fiquei sem o auxílio emergencial. Agora tenho que colocar meus filhos no Bolsa Família, né? Eu não consegui resolver isso ainda. Estou aqui pelos meus filhos."

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 3, mostram que mesmo com o pagamento de benefícios durante a pandemia, um em cada quatro brasileiros viveu abaixo da linha de pobreza em 2020.

Edinalva e Daniele moram na mesma casa em Anchieta, também na zona norte, com mais oito pessoas. Além delas, vivem no local os seis irmãos da jovem e, desde este ano, os gêmeos que ela deu à luz. A gravidez veio cerca de um mês depois de Daniele ter uma primeira gestação interrompida e do alerta da médica de que uma nova gravidez traria riscos à sua vida.

Apesar das dificuldades, Daniele consegue manter o sorriso no rosto e a simpatia. Aprendeu com a mãe que as idas semanais à Ceasa garantem um reforço importante na mesa de casa.

"Semana passada eu levei cinco sacolas. Levei batatas e a gente comeu a semana toda. Um moço deu uma melancia que estava com um machucadinho, mas a gente tirou e conseguiu levar a melancia inteira", conta. "Agora estou pegando alho, mas vou andando e consigo pegar banana, manga. Às vezes tem uma machucadinha, que eles não vendem, mas dá pra levar."

Edinalva, por sua vez, conta que faz isso há quase duas décadas. "Sempre vim pra catar. Eu não gosto muito de pedir, não. Eu tenho vergonha de pedir. Então eu venho, saio catando e pego o sustento pras crianças", conta. "Tem muita coisa boa."

Ela diz que o auxílio emergencial recebido no ano passado "ajudou um pouquinho", mas nunca resolveu o problema. "Ganhei R$ 1.600 da primeira vez, depois R$ 600, depois R$ 370... Agora está R$ 320. Só foi diminuindo, e as coisas tudo aumentando. Você leva as coisas daqui, mas tem que cozinhar. Antes, você tem que lavar, e o custo da água está um absurdo! O gás eu pago R$ 95."

A cerca de 50 metros dela, Maria do Carmo Vicente limpava cebolas. Aos 64 anos, ela mora sozinha e tem duas fontes de renda: a venda de alimentos que tinham o descarte como destino e o (extinto) Bolsa Família.

A idosa afirma que vai à Ceasa "de segunda a segunda". Caminha 25 minutos da favela onde mora até o local e fica cerca de 12 horas catando frutas, legumes e o que tiver pela frente que possa ser aproveitado. Parte do que encontra ela vende - "uns pagam R$ 30, outros pagam R$ 50 por dia" -; o que não consegue revender, leva para consumo próprio.

A vida é tão difícil para ela que o dinheiro que recebe do governo volta para o governo. "Eu uso o Bolsa Família pra pagar o INSS", relata. "Paguei ontem. Ano que vem vou dar um jeito de ir lá na Previdência pra ver o que eles vão falar comigo e se consigo me aposentar."

A sobrinha dela, Alessandra Cristina Nunes, de 40 anos, também passou a frequentar a Ceasa em busca dos alimentos descartados. Mãe de quatro filhos e avó de três netos - todos moram na mesma casa -, ela tenta no centro de distribuição de alimentos fechar o buraco no orçamento.

"Tenho que pagar o gás e R$ 450 de aluguel. Pra isso, pego R$ 300 de pensão dos meus filhos que ganho do Estado, mais o auxílio de R$ 150. Complemento aqui para poder sobreviver", narra.

Marcos Silva, de 30 anos, é outro que aproveita os descartes de alimentos da Ceasa, - onde trabalha há dez anos carregando caixas de um lado a outro - para alimentar a família. Ele mora em Belford Roxo junto com dois filhos, o mais velho de 10 anos.

"Tive o auxílio (emergencial), ganhava R$ 150”, conta. “Acabou em agosto, aí agora, quando mais preciso, estou me virando sozinho."

Ele diz que a verba que recebia do governo "ajudou alguma coisa" e que o fim dela dificultou ainda mais. "Usava para um alimento que não dá pra comprar, um arroz que está um absurdo, um óleo que mal dá para cozinhar", explica. "Aqui a gente vai se virando do jeito do pobre mesmo: aproveitando aquilo que os outros acham que é lixo, mas que para a gente já dá para se alimentar. Sempre tem uma batata, um alho, uma cebola. Às vezes está murcha, mas a gente corta a parte podre e usa a parte melhor. Peço ajuda a Deus e vou indo."

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Mesmo com auxílio emergencial, 1 em cada 4 brasileiros viveu abaixo da linha de pobreza em 2020

Ainda assim, o benefício evitou um agravamento da miséria no País; os 21 milhões de brasileiros mais pobres sobreviveram com R$ 128 mensais por pessoa da família, ou R$ 4,27 por dia, o maior valor já registrado na série histórica da Pnad Contínua, iniciada em 2012

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 10h00
Atualizado 03 de dezembro de 2021 | 18h17

RIO - Apesar da injeção bilionária de recursos extraordinários por meio do auxílio emergencial, praticamente um em cada quatro brasileiros ainda viveu abaixo da linha de pobreza no ano passado. O auxílio emergencial evitou, temporariamente, o agravamento da pobreza no País em 2020, em meio ao choque da covid-19, mas parece ter apenas anestesiado o problema. Com o vaivém do benefício do ano passado para este, a miséria espreita os brasileiros mais vulneráveis.

Sem os programas sociais, os 10% mais pobres da população teriam sobrevivido o ano passado com apenas R$ 13,00 por mês, ou R$ 0,43 por pessoa a cada dia. A conta – excluindo da composição do rendimento familiar os valores recebidos com o auxílio emergencial e com benefícios estaduais e municipais complementares – divulgada nesta sexta-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é hipotética, mas descreve as agruras de brasileiros que perderam a pouca renda que conseguiam levantar.

Com a economia estagnada desde o segundo trimestre, os dados mostram também a necessidade de continuidade das políticas de transferência de renda, enquanto o governo federal e o Congresso Nacional discutem a criação do Auxílio Brasil – para substituir o Bolsa Família – e a mudança nas regras fiscais para abrir espaço no Orçamento para ampliar os gastos em 2022.

Embora estude a desigualdade de renda no Brasil há anos, Marcelo Medeiros, professor visitante da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, se disse “chocado” com os cálculos do IBGE, que mostram que as “coisas são piores do que se podia imaginar”. “É preciso tomar medidas ativas pra reverter esse problema. Não basta ficar sentado esperando a economia se recuperar”, disse Medeiros, ressaltando que a economia não só está estagnada, como os movimentos de retomada econômica demoram a chegar aos mais pobres.

Com os benefícios governamentais, esse grupo de 21 milhões de brasileiros mais pobres sobreviveu em 2020 com R$ 128 mensais por pessoa da família, ou R$ 4,27 por dia, o maior valor já registrado na série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), iniciada em 2012. Embora ainda insuficiente para uma vida sem restrições básicas, o montante representa uma alta de 14,9% ante os R$ 111 mensais recebidos em 2019.

“Sem os benefícios, haveria uma queda de 8,4% no rendimento domiciliar, mas ela seria muito maior nos décimos inferiores da distribuição de renda”, afirmou João Hallak, gerente da Síntese dos Indicadores Sociais, do IBGE.

A injeção bilionária de recursos extraordinários fez o número de brasileiros abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial cair, em 2020, ao menor nível desde 2014. Ainda assim, praticamente um em cada quatro brasileiros (24,1% da população) viveu abaixo dessa linha no ano passado. São quase 51 milhões de pessoas vivendo com menos de R$ 450 por mês por pessoa. Não fossem os programas de transferências de renda, o contingente chegaria a quase um terço da população (32,1% do total). Em 2019, a proporção era de 25,9%.

Dentro desse grupo, mesmo com o pagamento do auxílio emergencial, 12,046 milhões de brasileiros, o equivalente a 5,7% da população, viveram abaixo da linha de miséria (rendimento médio mensal de R$ 155 por pessoa, no critério do Banco Mundial) no ano passado, o menor nível desde 2015. Sem os programas sociais, esse contingente seria mais do que o dobro: 27,313 milhões, ou 12,9% dos habitantes do País, ante 6,8% em 2019.

Na visão do professor Gilberto Tadeu Lima, pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da USP, ao longo da história, a economia brasileira se tornou uma “máquina” de geração de desigualdades. Com a pandemia, que atinge mais fortemente os trabalhadores menos qualificados, com menores salários e que raramente podem trabalhar de casa, essa máquina encontrou “um terreno fértil”. “Infelizmente, como está acontecendo agora com o novo auxílio em gestação, fundamental como remédio de curto prazo, a situação pouco suscita uma reflexão mais ampla a cerca da natureza e operação da nossa máquina de geração de desigualdades”, afirmou Lima.

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Pobreza é maior entre crianças, negros e moradores do Norte e do Nordeste

Levantamento do IBGE mostra que mais de 17 milhões de crianças e adolescentes até 14 anos viveram abaixo da linha de pobreza no País, o equivalente a 38,6% da população nessa faixa etária

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 10h00

RIO - Em 2020, as crianças foram, proporcionalmente, as maiores vítimas da escassez de recursos: mais de 17 milhões de crianças e adolescentes até 14 anos viveram abaixo da linha de pobreza no País, o equivalente a 38,6% da população nessa faixa etária. Nesse contingente, 3,9 milhões estavam em situação de miséria, ou 8,9% dos brasileiros dessa idade, segundo os dados da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 3.

Além dos mais jovens, a pobreza também atinge com mais força as pessoas de cor preta ou parda. Havia quase três vezes mais negros do que brancos entre as pessoas na extrema pobreza. Cerca de 8,8 milhões que estavam abaixo da linha de miséria são pretos ou pardos, quase 75% das pessoas nessa condição, ou seja, três a cada quatro dos que estavam nessa situação. Os brancos vivendo na miséria totalizavam cerca de 3,2 milhões. 

Entre os brasileiros abaixo da linha de pobreza, aproximadamente 36,8 milhões eram negros, também perto de três quartos do total, enquanto que os brancos somavam quase 13,6 milhões vivendo com esse tipo de restrição financeira.

As desigualdades regionais também chamam a atenção. A Região Nordeste concentrava quase metade das pessoas em situação de miséria, cerca de 6 milhões, e pouco mais de 45% dos brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza, cerca de 23,2 milhões. Considerando apenas a população local, quatro em cada dez nordestinos viviam na pobreza, e um em cada dez sobrevivia na miséria. Na Região Norte, 8,5% da população vivia em situação de miséria, enquanto o total de habitantes abaixo da linha de pobreza era de 36,8%.

As quatro unidades da federação com maiores porcentuais da população local vivendo em situação de extrema pobreza foram Amazonas (12,5%), Maranhão (14,4%), Pernambuco (11,8%) e Alagoas (11,8%). O Estado fora do eixo Norte-Nordeste com maior porcentual de miseráveis na população foi o Rio de Janeiro, onde 5,4% dos habitantes viviam na extrema pobreza e 20,7% abaixo da linha de pobreza.

Com menos renda no bolso da população, o consumo das famílias per capita encolheu 6,2% no ano de 2020 em relação a 2019, contribuindo para o recuo de 4,8% no Produto Interno Bruto (PIB) per capita no período. 

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Com covid-19, número de óbitos saltou 15% em 2020, após crescimento médio anual de 1,9% desde 2010

No ano passado a pandemia de coronavírus matou 209 mil pessoas no País mudando o padrão sobre causa de morte, aponta IBGE

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2021 | 10h00

RIO - No primeiro ano da pandemia de covid-19 no Brasil, em 2020, o País registrou um total de 1,6 milhão de óbitos - alta de 15% no número de mortes em relação ao ano anterior, 2019. Para se ter uma ideia do impacto da doença, de 2010 a 2019, o crescimento anual médio do número de óbitos no País foi de 1,9%. Os dados são da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 3.

Em 2019, as doenças do aparelho circulatório corresponderam a 27% das mortes e as neoplasias, a 17,4%. O quadro foi diferente em 2020, sob o impacto da covid. Os dois índices ficaram em 22,8% e 14,7% respectivamente. E a segunda maior causa de mortalidade ficou com “doenças infecciosas e parasitárias”, que registraram 17% do total ou 264,7 mil óbitos. Em 2019 essas doenças representaram 3,6% do total. 

A discussão sobre causa de morte no ano de 2020 mostrou uma mudança de padrão, tendo em vista a pandemia que vitimou 209.720 brasileiros naquele ano. A população branca apresentou o porcentual mais elevado de mortes no grupo com 70 anos ou mais: 30,1%. Os pretos ou pardos nessa faixa etária registraram 24,3%. O número de negros que chega a essa faixa etária é menor do que o de brancos.

Nos demais grupos etários, pretos ou pardos registraram porcentuais mais elevados que brancos (24,9% contra 20,7%, respectivamente). Por fim, apresenta-se a mudança estrutural dos porcentuais de mortalidade por grupos de idade em função da pandemia. Em 2019, para o grupo de 60 a 69 anos de idade, a mortalidade registrada por “doença infecciosa ou parasitária” foi de 9 por 1.000 habitantes. Em 2020, foram 56 mortes por 1 000 habitantes, sendo 47 destas pelo novo coronavírus. 

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