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'Estou com os dois pés no freio', diz agricultor

Jorge Pedro Frare, produtor do Paraná, não tem planos de investir em máquinas e equipamentos

O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h05

A reviravolta nos preços internacionais dos grãos registrada nas últimas semanas fez o produtor paranaense Jorge Pedro Frare, de 63 anos, que planta soja e milho em 100 hectares no município de Doutor Camargo, a 30 quilômetros de Maringá, redobrar a cautela e ficar apreensivo. "A gente está com os dois pés no freio", disse ele. Em julho de 2013, a saca de soja estava cotada na sua região a R$ 67 e, na semana passada, custava R$ 55. No caso do milho, o valor do produto encolheu 36% em um ano: de R$ 28 para R$ 18 a saca do grão. 

Colocar o pé no freio para o agricultor significa não fazer investimentos em máquinas e equipamentos. "Não tenho coragem de comprar uma máquina. É melhor ficar com um trator mais simples do que comprar um mais moderno e ter dificuldade para pagar", avalia. Hoje, ele tem três tratores, dois caminhões e duas colhedoras.

Frangos. No ano passado, o produtor desembolsou R$ 100 mil à vista para trocar o caminhão velho por um mais novo e comprar vários implementos. Agora, a tática será diferente: "Se a gente puder, como se diz na roça, vender uns frangos, ir pagando as contas e segurar parte da safra para vendê-la com preço mais alto, será melhor".

Frare está começando a colher a safrinha de milho, que foi excelente por causa do clima favorável. Ele calcula que vai conseguir mais de 100 sacas por hectare. Depois do milho, a intenção é semear os 100 hectares com soja em fins de setembro. A área não será reduzida, apesar do preço menor, porque os insumos (fertilizante, semente e defensivo) estão comprados. "Os gastos com tecnologia serão mantidos."

O agricultor sabe que o melhor remédio para compensar preço baixo é ampliar o volume produzido e, para isso, não pode economizar em fertilizante e defensivo. "No caso do milho, o preço de R$ 18 a saca só cobre o custo de produção porque a safra está boa", observa.

O produtor sabe que a queda do preço das duas commodities que ele planta, milho e soja, está atrelada à safra recorde esperada para os Estados Unidos, segundo apontou o último relatório do Departamento de Agricultura daquele país. Apesar disso, Frare acredita que muitos fatores estão em jogo até que realmente essa previsão se concretize, e aponta o clima como fator decisivo para a boa colheita americana. Até setembro, quando ocorre a colheita nos EUA, tem muita coisa apara acontecer, pondera o produtor.

Ele compara o momento atual para a safra americana com o resultado da Copa do Mundo. "No começo da Copa, o Brasil era tido como campeão e acabou não sendo. Tem ainda muita coisa pela frente."

Antecipação. Outra estratégia usada pelo agricultor para atenuar a queda na rentabilidade por causa dos preços menores é não antecipar a venda do produto. "No ano passado, vendi 30% da safra de soja antecipadamente", lembra ele. Já neste ano, por causa do preço menor, Frare decidiu esperar, na expectativa de que alguma alta de preço ocorra por causa do clima ou da desvalorização do real em relação ao dólar.

No caso do milho, o produtor também optou por segurar o produto. "Não vendi nada antecipadamente." A intenção é ir comercializando o grão aos poucos para quitar a fatura dos insumos, que segundo ele, está muito alta hoje.

Capitalizados por causa dos bons resultados das últimas safras, Frare e outros produtores preferem manter estoques. "Acho melhor ter uma safra em estoque do que ter uma safra de dívida porque a dívida pode virar uma bola de neve."/ M.C.

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