Eric Thayer/The New York Times
Eric Thayer/The New York Times

Estragando a brincadeira

A ascensão do comércio eletrônico leva a rede de lojas de brinquedos Toys "R" Us à bancarrota

The Economist

25 Setembro 2017 | 05h00

Muitos pais americanos jovens até hoje são capazes de cantar um jingle que escutavam na infância: “Eu é que não quero crescer, porque se eu for grande, vai que não me deixam mais brincar feito uma criança Toys “R” Us”. Para os meninos e meninas dos anos 80, as lojas da rede Toys “R” Us, com sua impressionante variedade de bonecas, caminhõezinhos, jogos de tabuleiro, bicicletas, artigos para pintar, desenhar e muito mais, eram a meca dos brinquedos. Em 18 de setembro, boa parte deles deve ter experimentado um misto de nostalgia e tristeza com a notícia de que a rede havia dado entrada a um pedido de falência.

Dave Brandon, presidente executivo da empresa, apressou-se em esclarecer que as lojas da rede continuariam funcionando normalmente e que a decisão marcava o início de uma nova e brilhante era para a Toys “R” Us. “Foi a coisa certa a fazer para garantir que as icônicas marcas Toys “R” Us e Babies “R” Us permaneçam vivas por muitas e muitas gerações”, declarou o executivo. Diversos analistas acreditam que o pedido de falência foi realmente uma medida sensata: só assim a rede poderá lidar com sua dívida de longo prazo, atualmente na casa dos US$ 5 bilhões. Em outras palavras, a Toys “R” Us não morreu. Mas isso não significa que seu futuro esteja garantido.

A trajetória da companhia ilustra muitas das dificuldades enfrentadas pelo varejo físico nos Estados Unidos atualmente. Os problemas começaram na década de 90, quando os hipermercados aumentaram em número e tamanho. Graças à enorme variedade de ofertas do Walmart, os consumidores passaram a poder comprar brinquedos para seus filhos no mesmo lugar em que abasteciam suas geladeiras.

Então veio o comércio eletrônico. Os brinquedos são artigos que se adequam bastante bem às compras online. Ao contrário de um vestido, a pessoa não precisa experimentá-los para escolher o tamanho certo, e, diferentemente de um pêssego, não têm que apalpá-los para ver se estão maduros. A rotina dos consumidores que mais compram brinquedos, isto é, os pais de crianças pequenas, costuma ser atribulada. Para as mulheres que têm entre 25 e 44 anos não sobra muito mais tempo para ir às compras do que para comer e beber. Entre acessar um site na internet ou se deslocar até um estabelecimento físico para comprar um trenzinho elétrico, muitos pais optam pela primeira alternativa, ainda mais quando lembram que, numa loja de brinquedos, até a mais calma das crianças pode se transformar numa lunática insaciável. Na Amazon não há esse risco. O resultado é que muitos dos que foram crianças Toys “R” Us no passado não têm a menor vontade de ser pais Toys “R” Us hoje.

Nos EUA, segundo projeções da empresa de serviços financeiros Cowen, 41% dos brinquedos e videogames serão adquiridos online este ano, aproximadamente o dobro do porcentual adquirido pela internet em 2009.

A Toys “R” Us também padece de outros males comuns. O primeiro deles é o peso de suas dívidas. Em 2005, a rede foi adquirida por três fundos de private equity, numa operação alavancada que aumentou consideravelmente seu endividamento. Enquanto se esfalfa para competir com a Amazon, a empresa gasta, só com o serviço de sua dívida, cerca de US$ 400 milhões por ano. Outros US$ 400 milhões em títulos com e sem garantias vencem no ano que vem. Muitos analistas já esperavam a falência, mas o fato de isso ter acontecido às vésperas do início da temporada de compras de fim de ano mostra como a companhia estava sem fôlego. Duas outras varejistas, a Payless ShoeSource, uma rede de calçados do Kansas que iniciou suas atividades há 61 anos, e a Gymboree, que começou a vender roupas infantis em 1986, estão entre as empresas que decretaram falência este ano, após terem sido financiadas por fundos de private equity que as deixaram igualmente endividadas.

Em segundo lugar, a Toys “R” Us não está se ajudando. Como acontece com muitas redes de lojas de departamentos, seus gerentes de compras demonstram lentidão para se adaptar a novas tendências. Exemplo: a explosão de vendas dos “fidget spinners”, espécie de pião moderno que virou febre nos últimos meses, começou pela internet. Também não está claro se a estratégia de tentar atrair as famílias para suas lojas com eventos ao vivo, como aulas de música para crianças, dará certo.

Tal como inúmeras outras varejistas, a Toys “R” Us quer fortalecer seu negócio de comércio eletrônico. Não tem tido muito sucesso. Em 2000, quando a Amazon tentava deixar de ser apenas uma livraria, a varejista acertou uma parceria com a gigante do e-commerce, que passou a administrar as vendas online de seus brinquedos. Quatro anos depois, a Toys “R” Us processou a parceira, alegando que os termos do contrato entre as duas haviam sido desrespeitados. Em 2006, a Justiça americana deu razão à loja de brinquedos. Passados 11 anos, essa vitória judicial parece ter sido mero prêmio de consolação.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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