Estrangeiras dominam voos para fora do País

Enquanto TAM e Gol se digladiam pelo mercado interno, empresas de fora avançam

GLAUBER GONÇALVES / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h06

Problemas de competitividade do País, como combustível caro e alta carga tributária, e planos de negócios muito focados na competição do mercado interno estão impedindo um avanço das companhias aéreas brasileiras nas rotas que ligam o País ao exterior, especialmente as de longo curso.

Enquanto a TAM avança timidamente e a Gol reafirma sua falta de apetite por destinos de longo curso, as estrangeiras já controlam 70% da movimentação entre o Brasil e os Estados Unidos e 77% das rotas para a Europa, de acordo com o último anuário da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), referente ao ano passado.

Para especialistas, o foco no mercado interno se explica pelo perfil das companhias aéreas brasileiras, semelhante ao do das norte-americanas, que têm o olhar mais voltado para as rotas domésticas. No Brasil, esse segmento é altamente disputado entre a Gol e a TAM, o que a leva as duas companhias a despender muita energia nessa competição - em agosto, a Gol estava na liderança do mercado doméstico, com uma participação de 38,84%, enquanto a TAM detinha 38,37%.

Hoje, quem quer voar para a Europa e os EUA com uma empresa brasileira só tem a TAM como opção. A Gol, que adquiriu a Varig em 2007, com o tempo abandonou os destinos de longo curso da antiga companhia e hoje voa apenas para a América do Sul e o Caribe. A empresa utiliza aviões pintados com as cores e a estrela da Varig somente nas rotas mais distantes, como Bridgetown, em Barbados.

O especialista em aviação Respicio Espírito Santo, professor da Coppe/UFRJ, avalia, porém, que, num período de cinco anos, a Gol deve entrar no mercado de longo curso. "No médio prazo, acredito que a Gol se aventure no mercado de médio e longo curso. Já existe uma aeronave que se adequaria muitíssimo a isso, que é o Boeing 787. A empresa poderia entrar na fila da cadência de produção das aeronaves e viria a recebê-las daqui a uns cinco ou seis anos", afirma.

O vice presidente de Planejamento da Gol, Leonardo Pereira, diz que não há planos de lançar voos intercontinentais no "curto prazo". O executivo acrescenta que, caso a empresa entre na briga das rotas mais longas, vai operar com a marca Varig.

Frota. A TAM não abre detalhes sobre novos destinos de seu interesse, embora esteja ampliando sua frota de aviões de dois corredores (wide body), utilizados em viagens longas. "Nosso plano de frota wide é bem consistente e continua crescendo. Hoje, temos quatro unidade do Boeing 777-300, nossa maior aeronave. No ano que vem dobraremos a frota desse avião. Receberemos dois em 2013 e mais dois em 2014", diz o vice-presidente de Planejamento e Alianças, Nelson Shinzato.

Para Espírito Santo, a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 serão a grande oportunidade para as companhias brasileiras entrarem com força no mercado internacional.

"Se não for com os megaeventos, nunca mais o Brasil vai se inserir no mapa do turismo mundial. E, nisso, as empresas brasileiras têm de acordar. Não podem ficar limitadas ao México e ao Caribe. Têm de sonhar com Japão, Coreia, China. Apesar de a TAM ainda ser um pouco tímida nessa área, há espaço para ela crescer mais e há espaço para a Gol", diz.

Combustível. Para isso, porém, as duas gigantes brasileiras terão de enfrentar as travas que o País coloca na competitividade das aéreas nacionais. É consenso entre os especialistas que o alto custo do querosene de aviação (QAV) e a elevada carga tributária deixam as empresas brasileiras em desvantagem em relação às estrangeiras.

De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês), no mundo, o combustível equivale em média a 29% dos custos de uma companhia aérea. Aqui, esse porcentual chega a 37%.

"No Brasil, temos a política monopolista da Petrobrás", diz o especialista em direito tributário Paulo Sigaud, da Aidar SBZ Advogados. Ele explica também que, por conta de tratados internacionais, as aéreas estrangeiras que abastecem no Brasil têm um benefício: estão isentas do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviço (ICMS). "É uma situação curiosa, porque acaba não onerando as companhias aéreas internacionais", comenta. Procurada, a Secretaria de Aviação Civil (SAC) não comentou o assunto.

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