Estrangeiro já aplica US$ 12 bi em juros

Diferença de taxas entre Brasil e resto do mundo atrai investidores; fluxo é o 2º maior da década

Leandro Modé, de O Estado de S. Paulo,

18 de julho de 2010 | 22h30

Capitaneado pela diferença de juros entre o Brasil e o resto do mundo e pela segurança com que o País é visto hoje no exterior, o investimento estrangeiro em títulos de renda fixa brasileiros disparou. Entre janeiro e maio, foram US$ 12,1 bilhões, o segundo maior valor da década para o período. O fluxo só é inferior aos US$ 12,3 bilhões de 2007.

Os dados, compilados pelo Banco Central (BC), incluem papéis emitidos pelo governo e por empresas (debêntures, commercial papers, etc).

Esse é um dos fatores que ajudam a explicar o bom desempenho do real no mercado internacional de câmbio, a despeito do ambiente global repleto de incertezas.

Até a última quarta-feira, a moeda brasileira era a que apresentava a terceira maior valorização ante o dólar no acumulado do ano, atrás apenas do iene japonês e do peso mexicano.

Comparando o real a uma cesta de 11 moedas (como o rand sul-africano e o dólar australiano), percebe-se que está no nível mais alto desde o início do segundo semestre de 2008, pouco antes da quebra do banco Lehman Brothers.

"Há 16 anos que faço road shows (viagens internacionais para ‘vender’ Brasil) e essa é a primeira vez que venho exclusivamente para trabalhar renda fixa. Geralmente, a demanda maior é por ações", relata o responsável pela área de pesquisa em renda fixa do Bradesco BBI, Dalton Gardiman.

Ele conversou com o Estado na sexta-feira, de Nova York, onde completava um road show de duas semanas nos EUA. Hoje, ele viaja para a Europa para executar trabalho semelhante. Os principais interlocutores de Gardiman são gestores de bilionários fundos de investimento americanos e europeus. Em síntese, eles estão em busca de rentabilidade e segurança. Duas condições que o Brasil atende integralmente nos dias de hoje.

Em meados de 2008, o País conquistou o grau de investimento, selo de qualidade concedido por agências de classificação de risco de crédito que indica que se trata de um lugar seguro para investir.

Se não bastasse isso, o Brasil paga a maior taxa de juros do mundo. Descontada a inflação, está na faixa de 4,5% ao ano - e deve subir um pouquinho mais nesta semana, porque o Comitê de Política Monetária (Copom) deve elevar o juro básico (Selic) na quarta-feira.

Nos EUA, na Europa e no Japão, os três mercados mais ricos do planeta, o juro real está negativo. Ou seja, quem aplicar em renda fixa por lá, perde da inflação.

"O juro no mundo desenvolvido está em zero desde 2008. Chega uma hora em que o investidor se cansa da baixa remuneração e começa a procurar alternativas para ganhar mais", disse um operador de mercado que pediu para não ser identificado.

"Não dá para negar que (o forte ingresso de dinheiro no País) decorre de arbitragem com juro e das expectativas para a taxa de câmbio", afirmou o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.  

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