Amanda Perobelli/ Reuters
Amanda Perobelli/ Reuters

Estrangeiro já retirou R$ 23,4 bilhões da Bolsa, e volatilidade assusta pessoa física

Saída está diretamente relacionada à desconfiança com a economia do Brasil, diz especialista

Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 08h00

Somando os números de janeiro e os quatro primeiros dias de pregão de fevereiro, o investidor estrangeiro já retirou R$ 23,437 bilhões da B3 em 2020. É mais da metade da retirada registrada durante todo o ano de 2019, de R$ 44,5 bilhões. No período, em meio aos choques que ajudam a explicar parte dessa saída, o Ibovespa teve queda de 2,87%. A entrada do investidor local, o que inclui pessoas físicas, ajuda a amenizar as perdas, mas especialistas afirmam ser natural que esse tipo de investidor local, que aos poucos ganha importância, tenda a reagir mais a momentos de estresse do mercado.

De acordo com a B3, juntando-se investidores individuais e institucionais, os investidores brasileiros somaram 52,5% do volume movimentado na bolsa em janeiro deste ano. Dois anos antes, os dois grupos responderam por 46% do volume. O investidor pessoa física teve avanço tímido: foi de 18,8% para 19,4% em dois anos. Entretanto, em 2015, ano em que a Selic chegou a 14,25% ao ano, ele representava apenas 13,7% do volume negociado na bolsa brasileira.

Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), explica que, historicamente, os estrangeiros fazem grandes aportes na Bolsa de São Paulo, especialmente em novas ofertas, mas que têm preferido outras opções de investimento por conta das incertezas com a economia do País. "A saída está relacionada diretamente à desconfiança com a economia do Brasil. O investidor estrangeiro considera opções de investimento em outros países com muito mais facilidade que o brasileiro", diz.

Michael Viriato, professor de finanças do Insper, afirma que em um cenário onde, em termos porcentuais, a economia brasileira tem previsão de crescimento parecida ou menor que a dos Estados Unidos, por exemplo, a relação entre risco e retorno do País fica menos favorável. "O investidor externo vê um país desenvolvido que cresce 2%, e um emergente que talvez cresça um pouco mais de 2%. Os 2% americanos são um pouco mais garantidos que os do Brasil. Ele leva o dinheiro para lá."

Ao passo em que os investidores locais, especialmente os individuais, passam a ter maior representatividade no volume negociado na B3, e momentos de maior tensão no mercado podem produzir aversões maiores ao risco. "O investidor pessoa física brasileiro não é acostumado à volatilidade, e não tem paciência para esperar pelo retorno dos ativos de risco. É uma questão de educação financeira", explica Viriato.

Claudia, da FGV, afirma ainda que o investidor pessoa física tende a ser mais suscetível a vieses, ou seja, a pontos de vista mais extremos, na hora de operar com renda variável. Isso pode levá-lo a perdas maiores em momentos de baixa no mercado. "É esperado que em 'chacoalhadas' mais fortes, esse investidor se assuste mais. Não necessariamente isso vai ser benéfico para ele, porque ele pode fazer movimentações na pior hora possível", explica.

Oferta e demanda

Enquanto o investidor de fora olha para diferentes países na hora de alocar seus recursos, o brasileiro não tem tantas opções à mesa por uma falta de tradição no próprio investimento em renda variável. Viriato, do Insper, explica que a procura pelo investimento em outros países, embora esteja aumentando, ainda é tímida. "O estrangeiro não monta equipe para vender produtos de investimento por aqui porque há poucos anos, a renda fixa tinha retorno de 10% ao ano, então, não havia demanda por aplicações lá fora", diz.

Claudia Yoshinaga, da FGV-EAESP, ressalta que a migração da renda fixa para a variável ainda está em andamento, e que especialmente os fundos multimercado continuam a buscar nas ações os rendimentos prometidos aos clientes. "A categoria de fundos multimercado foi a que mais captou nos últimos dois ou três anos. Temos que saber o quanto ainda existe de recurso dos brasileiros fora da bolsa", diz ela.

Ao se voltar para a bolsa brasileira, o investidor local está comprando a expectativa de melhoria nos resultados da economia local e, consequentemente, das empresas listadas. Por isso, mais que a queda da taxa Selic, a atividade econômica deve continuar no radar - determinando se, mesmo com as saídas de capital estrangeiro, a bolsa vai continuar resiliente. "Notícias como a projeção da produção industrial da China por conta do efeito do coronavírus têm um impacto negativo nesse cenário", explica Claudia.

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