Estrangeiro mira o mercado interno

Dados do BC mostram que multinacionais investiram mais em setores como o automotivo no 1.º quadrimestre

Fernando Nakagawa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

08 de junho de 2009 | 00h00

A crise tem alterado o perfil do investimento produtivo no Brasil. Dados do Banco Central (BC) mostram que atividades ligadas ao mercado interno têm atraído cada vez mais as multinacionais interessadas no aumento da renda do brasileiro. O melhor exemplo é o setor automobilístico, que tem recebido cada vez mais dólares.De janeiro a abril, o investimento estrangeiro direto (IED) no segmento saltou 221% ante igual período de 2008. Informática, eletrônicos e telecomunicações também têm apostado mais fichas no País. As áreas que estavam no olho do furacão da crise diminuíram o ritmo. Bancos cortaram os aportes em 87,8% e o setor imobiliário, em 51,8%.Mesmo com a situação difícil nos Estados Unidos e Europa, montadoras têm reforçado os projetos no Brasil. De olho na rápida reação das vendas após as medidas de desoneração anunciadas pelo governo, a indústria automobilística enviou US$ 1,95 bilhão em IED nos quatro primeiros meses do ano. O valor conferiu às montadoras o primeiro lugar no ranking dos setores que mais investiram no País, com 22,3% de participação. No mesmo período de 2008, a fatia era de modestos 5,2%, no quinto lugar."No Brasil, a política anticíclica tem sido muito ativa, com estímulos importantes à indústria automobilística e eletrodomésticos. Isso chama a atenção das empresas. Além disso, tivemos a manutenção da renda da população", diz a professora de economia da Unicamp Daniela Prates. A especialista diz que também é preciso lembrar da frágil situação da economia nos países centrais, o que diminui as perspectivas dessas empresas nos mercados tradicionais, como EUA, Europa e Japão.Além da atração exercida pelo mercado interno, o Brasil tem surfado na onda do investimento com o recente aumento dos preços das commodities e com a ajuda do excesso de liquidez existente na economia global. "As diversas medidas para amenizar o efeito da crise injetaram bilhões e mais bilhões na economia mundial. Agora, com a queda da aversão ao risco, o dinheiro começa a circular e uma parte tem vindo para o Brasil", disse o professor da Fundação Getúlio Vargas e analista da Tendências Consultoria, André Luiz Sacconato. "Esse aumento do IED é só uma amostra do que está por vir para o Brasil caso as condições globais continuem tranquilas."Nessa boa onda da oferta de dinheiro disponível, algumas empresas - inclusive da indústria automotiva - têm aproveitado para tomar dinheiro emprestado no exterior para pagar dívidas no Brasil. Esses recursos são enviados pelas sedes às subsidiárias brasileiras e, por vezes, aumentam o IED. Outro setor que opera na esteira das montadoras é o metalúrgico. Apesar da crise, a participação desse segmento no investimento para o Brasil permaneceu em 19%. Em quatro meses, foram US$ 1,63 bilhão.Também beneficiado por medidas de desoneração do governo, as empresas de eletrodomésticos, como máquinas de lavar e geladeiras, aumentaram os aportes em exatos 50%. No quadrimestre, foram US$ 40 milhões. A cifra é mais modesta que a verificada na indústria automotiva, mas foi suficiente para que o segmento dobrasse a participação no fluxo de IED para 0,4% do total. Em igual trajetória, o investimento em informática e eletrônicos saltou 184% no primeiro quadrimestre na comparação com igual período de 2008. Em telecomunicações, o aumento foi de 38,7%. Confiante, Sacconato diz que as perspectivas para o investimento produtivo são ainda mais favoráveis por causa do início da extração do petróleo da camada pré-sal.

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