Coluna

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Estrangeiros adotam viés positivo com segundo turno

Após hesitarem inicialmente diante da incerteza trazida pelo surpreendente segundo turno na eleição presidencial brasileira, a maioria dos investidores e analistas estrangeiros decidiu abraçar, com cautela, um viés positivo diante do resultado, que se refletiu no bom comportamento dos preços dos ativos do País. A principal justificativa para essa reação, que foi ancorada inicialmente em boa parte pela alta no Bovespa, é o fato dos agentes econômicos apostarem num crescimento nas chances de vitória do candidato tucano Geraldo Alckmin, considerado pela maioria um pouco mais `pró-mercado´ do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O fato de os mercados externos viverem um período de certa calma com as perspectivas da economia dos Estados Unidos também ajudou a sedimentar uma reação tranqüila com os eventos inesperados no Brasil.Mas esse sentimento benigno no `day after´ eleitoral está longe de ser sustentável e as próximas semanas poderão registrar momentos de volatilidade. Os resultados das próximas pesquisas eleitorais, a intensidade do debate político e um maior esclarecimento da agenda econômica dos dois candidatos serão fatores monitorados com lupa pelos investidores. Ninguém teme o risco de uma instabilidade financeira pois tanto Lula como Alckmin são vistos como comprometidos com a adoção de políticas econômicas ortodoxas. Mas todos querem saber ficará a governabilidade do país a partir de janeiro de 2007. A implementação de reformas estruturais e a melhora da performance fiscal são vistos como requisitos básicos para a melhora da performance econômica brasileira nos próximos anos, inclusive suas chances de obter uma nota de `grau de investimento´ pelas agências de classificação de risco. Eis a avaliação de alguns dos analistas entrevistados nesta segunda-feira pela Agência Estado:- Lisa Schineller, analista da agência de classificação de risco Standard & Poor´s, disse que a realização do segundo turno na eleição presidencial não terá um impacto econômico sobre a avaliação do País. "No geral os mercados não gostam de incertezas e o segundo turno poderá causar uma pequena volatilidade nas próximas semanas", disse Schineller. "Mas os fundamentos econômicos do Brasil estão muito mais fortes e isso limitará qualquer volatilidade." Ela observou que os desafios num próximo governo são praticamente os mesmos para os dois candidatos. "O principal deles é a redução da vulnerabilidade fiscal, abrindo a perspectiva de um maior crescimento econômico", disse. "Por isso, a questão da governabilidade e da dinâmica do apoio no Congresso será vital".- Francisco Panizza, professor especializado em América do Sul da universidade britânica London School of Economics (LSE), também ressaltou a importância da governabilidade . "O importante não será a figura de quem vai ganhar a eleição, pois os dois candidatos defendem políticas econômicas ortodoxas e isso afasta o risco de uma crise financeira", disse Panizza. "O importante será ver quem reunirá condições de melhor governabilidade, de costurar apoio no Congresso para aprovar reformas, de cortar gastos e outras medidas que requerem sólido apoio político."-O chefe de pesquisa global para mercados emergentes do HSBC, Phillip Poole, disse que o risco gerado pelo Brasil não é criado pelo fato de o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, poder acabar vencendo a eleição, a exemplo do que recentemente aconteceu no México com Felipe Calderón. "O risco real é que a eleição acabe sendo tão concorrida e apertada que um governo forte- -seja ele liderado por Lula ou Alckmin - acabe não emergindo e a agenda de reformas, tão necessária, não seja implementada", disse Poole. "Caso Lula vença, o que ainda parece o resultado mais provável, com a atual contagem de votos já podemos concluir que seu governo vai carecer da autoridade política que teria se tivesse vencido no primeiro turno."-Nuno Camara, economista sênior do banco Dresdner Kleinwort, disse que se Lula conseguir se reeleger, vai precisar se mover mais para o centro do palco político pois o resultado de domingo mostrou que seu partido, o PT, lhe causou mais danos do que trouxe benefícios. "Além disso, diante de sua perda de apoio no Congresso, caso não se mova para o centro, Lula teria o seu segundo mandato considerado `lame duck´ (pato manso) desde seu início", afirmou.- Paulo Leme, economista do banco Goldman Sachs, afirmou que o segundo turno na eleição presidencial brasileira é ´positivo´. "O segundo turno introduz a possibilidade de Geraldo Alckmin ser eleito e na nossa opinião uma mudança no poder seria bem-vinda", disse Leme. "Acreditamos que um governo Alckmin teria melhores condições políticas do que o presidente Lula para implementar reformas estruturais ambiciosas, com o objetivo de reduzir a relação entre a dívida e o PIB, reduzir a carga tributária e estimular o crescimento do PIB." - Flávia Cattan-Naslausky, analista do Royal Bank of Scotland, disse que para os mercados um segundo turno é positivo apenas sob a ótica de que o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, tem uma chance de vitória. "Porque senão os mercados interpretarão isso como um segundo mandato muito fraco para o presidente Lula", disse a analista. Embora as pesquisas eleitorais realizadas antes do primeiro turno terem sinalizado que Lula ainda obteria uma vitória folgada no segundo turno, Cattan-Naslausky observou "que a fase positiva exibida por Alckmin nos últimos dias deverá desafiar esse quadro".-Maarten-Jan Bakkum, economista do banco ABN AMRO Asset Management, ressaltou que PT teve uma performance fraca na eleição para o Congresso. "Isso significa que num possível segundo mandato, o apoio a Lula no Senado será menor que no primeiro", disse. "Se Alckmin vencer, ele terá mais apoio para aprovar seu programa de reformas."- Os economistas do banco espanhol Caja Madrid avaliam que uma eventual vitória do candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, no segundo turno da eleição presidencial "seria bem acolhida pelos investidores pois ele apresenta um perfil mais neoliberal e mais agressivo em relação às reformas". No entanto, salientam que as chances de vitória do candidato tucano continua sendo baixas, entre 30% e 40%. "O fator da corrupção já foi incluído no resultado do primeiro turno e a trajetória favorável do País e o amplo respaldo popular a Lula complicam a possibilidade de Alckmin conseguir um bom resultado."

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