André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Estrangeiros retiraram investimentos do Brasil pelo 8º ano seguido

Retiradas acontecem devido ao aumento da desconfiança do investidor em relação ao País, principalmente após uma piora nas projeções para a atividade econômica brasileira

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 18h35

BRASÍLIA - Em um ano marcado pela pandemia do novo coronavírus, os investidores estrangeiros retiraram US$ 51 bilhões líquidos em investimentos do Brasil em 2020. Este foi o oitavo ano consecutivo de fuga de recursos, conforme dados divulgados nesta quarta-feira, 6, pelo Banco Central.    

Pela série histórica do BC, iniciada em 1982, desde 2012 o País não registra entrada líquida de investimentos estrangeiros. Naquele ano, sob a presidência de Dilma Rousseff, o Brasil recebeu US$ 8,4 bilhões a mais do que foi retirado do País.

O resultado positivo de 2012, no entanto, antecedeu uma deterioração na conta financeira do País, na esteira dos desequilíbrios das contas públicas, intensificados justamente no governo Dilma.

O economista Bruno Lavieri, da 4E Consultoria, avalia que as sucessivas saídas de investimentos estrangeiros indicam que há uma desconfiança em relação ao futuro do Brasil. “Desde 2012, o olhar prospectivo é negativo. O Brasil fez muitas escolhas erradas na área econômica”, diz Lavieri. “As perspectivas pioraram e, neste contexto, os investidores retiram dinheiro do País.”

Em oito anos, de 2013 a 2020, os estrangeiros retiraram US$ 318,9 bilhões líquidos do Brasil. Esta cifra diz respeito aos investimentos estrangeiros em novas plantas ou em empresas já em funcionamento, aos aportes em ações e demais ativos financeiros e às remessas de lucro e pagamentos de juros no exterior, entre outras operações.

Por trás do movimento está a desconfiança em relação à economia. Em meio ao cenário fiscal deteriorado, o Brasil tornou-se um destino mais arriscado aos olhos do capital financeiro internacional. Prova disso é que o Credit Swap Default (CDS) do Brasil – uma espécie de termômetro para o risco de solvência dos países – saltou de 108,00 pontos no fim de 2012 para 315,46 pontos em abril do ano passado, em meio à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. No fim de 2020, estava em 142,28 pontos.

Coronavírus

O ano passado foi especialmente difícil por causa da pandemia. Quando a crise se intensificou, investidores de todo mundo desfizeram posições em países emergentes, como o Brasil, e mandaram recursos para destinos mais seguros. Em fevereiro, março e abril, R$ 31 bilhões líquidos ultrapassaram as fronteiras brasileiras pela via financeira.

Nos meses seguintes, houve certa acomodação, inclusive com o retorno da procura dos investidores por ativos com preços menores, como as ações brasileiras. Mas este movimento não foi suficiente para apagar as fortes perdas de recursos do primeiro semestre (R$ 38 bilhões). Na segunda metade do ano, o fluxo financeiro ainda foi negativo (US$ 12,8 bilhões), apesar de as cifras serem menores.

“No primeiro semestre, as expectativas pioraram muito em função da pandemia. No segundo semestre, houve piora de perspectiva novamente, mas em ritmo menor”, diz Lavieri, da 4E Consultoria.

O resultado geral da relação cambial entre o Brasil e os demais países só não foi pior porque, se por um lado o País registrou saída líquida de US$ 51 bilhões pela via financeira, por outro houve entrada líquida de US$ 23,2 bilhões pelo canal comercial (exportações menos importações). Favorecido pela demanda global por alimentos, o Brasil exportou mais e, ao mesmo tempo, importou menos produtos em 2020.

Com isso, o fluxo cambial total – que considera a via financeira e a comercial – acumulou em 2020 saídas de US$ 27,9 bilhões.

Para Lavieri, o resultado não chega a preocupar. “Isso porque o nível de reservas internacionais é alto (na casa dos US$ 355 bilhões), o câmbio flutua e o Brasil não tem dívida externa”, afirma. “O País não tem problema de solvência em dólares. Está longe de ser um problema, apesar de haver a desconfiança.”

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