Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

‘Estratégia de liquidez existe desde 1998’, diz subsecretário da dívida pública do Tesouro

Segundo Otavio Ladeira de Medeiros, ‘colchão de liquidez’ foi criado após dificuldades durante a crise da Rússia e da Ásia, no fim da década de 1990

Entrevista com

Otavio Ladeira de Medeiros, subsecretário da dívida púbica na Secretaria do Tesouro Nacional

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - De acordo com Otavio Ladeira de Medeiros, subsecretário da dívida púbica da Secretaria do Tesouro Nacional, a estratégia de formar um colchão de liquidez para as obrigações do governo foi criada no fim dos anos 1990 – época em que a economia do País sofreu as consequências das crises da Rússia e da Ásia. Segundo ele, essas reservas serviram a várias turbulências desde então e não visam a um fim específico, como reforçar o caixa em anos de eleição, como 2022.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Na pandemia, o Tesouro enfrentou dificuldades e teve que vender títulos mais curtos. Qual a situação hoje?

Havia uma grande preocupação em relação à rolagem da dívida pública. Foi um momento bastante desafiador em função da pandemia. De lá para cá o cenário foi melhorando aos poucos, principalmente, no primeiro semestre deste ano.  Estamos bastante otimistas em relação à nossa capacidade de emissão de menos títulos de curto prazo e mais títulos de médio e longo prazo reduzindo o porcentual da dívida vencendo em 12 meses, que cresceu muito durante a pandemia. Ele chegou a 27% e depois foi descendo na direção de se aproximar dos indicadores de dívida que tínhamos em dezembro de 2019 (18,7%), antes da pandemia - está agora em 22,5%.

Quando surgiu o colchão?

Em 1997, passamos por uma grande  dificuldade. Estávamos no auge da crise da Ásia e logo depois veio a crise da Rússia, em 1998, que nos colocou numa situação de caixa apertada. O caixa se aproximou de zero de tal forma que não podíamos errar no leilão (de venda de títulos). Aconteceu um leilão, que por um motivo de volatilidade do mercado, frustrou e tivemos que fazer outro leilão no dia seguinte para captar os recursos para fazer o pagamento (dos títulos que estavam vencendo). Quando chegou em 1998, percebemos que não dava para ficarmos convivendo com incertezas e o risco de aceitar qualquer taxa e colocar títulos que não nos interessavam. Precisávamos ter um colchão mínimo.

O reforço no caixa está conectado às eleições?

Estratégia de mantar um caixa mínimo da divida foi entendido como necessário lá em 1998. E, se olharmos ao longo do tempo ele serviu a várias finalidades. Ele não tem um objetivo em particular. Só para dar um exemplo: nós tivemos a própria mudança do regime cambial, a crise da Argentina, o 11 de setembro, a crise financeira internacional em 2008. Vários eventos fora do radar e que o caixa se mostrou positivo. Não tem uma relação com um evento que possa estar imediatamente no radar porque nós passamos por outros eventos.

De que forma a reviravolta no cenário de juros e inflação mais alta impacta a dívida?

A leitura de futuro é mais importante do que os movimentos de curto prazo. Nós lidamos com muita tranquilidade na gestão da dívida pública com os ciclos de política monetária. Nós conseguimos vender nossos títulos mais longos quanto melhor é a percepção do investidor quanto à estabilidade econômica, em particular da política monetária e os indicadores monetários e fiscais, ao longo do tempo.  

Mas o custo da dívida vai aumentar?                  

Se você enxerga um movimento de curto prazo, temos uma inflação e Selic um pouco mais alta em 2021. É verdade, mas se observamos um prazo mais longo, essa Selic mais alta está garantindo que o mercado veja a inflação caminhando em direção da meta. Com inflação mais comportada ao longo do tempo, em função de um BC com credibilidade, o custo de financiamento da dívida menos.            

De que forma os ruídos fiscais impactam a dívida?

Olhando um período mais longo, iniciamos o ano com uma leitura de fiscal menos interessante do que estamos vendo agora. Nós falávamos de um déficit de 2,2% do PIB e tínhamos a perspectiva de mudança de déficit para superávit entre 2025 e 2026, 12 anos depois do inicio do déficit. Agora, passados seis meses, a realidade e as projeções mudaram. Já dá para antever que o nosso déficit vai virar superávit entre 2023 e 2024.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.