Estratégia do BC de ampliar acúmulo de reservas divide economistas

Reservas cambiais têm aumento de US$ 7,5 bilhões nas últimas semanas, de US$ 260,59 bilhões no dia 23 de agosto para US$ 268,10 bilhões na última sexta-feira

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

20 de setembro de 2010 | 19h26

As boas condições da economia do Brasil e a expectativa da bilionária capitalização da Petrobrás que será realizada até o final deste mês são os principais fatores que explicam o aumento de US$ 7,5 bilhões das reservas cambiais nas últimas semanas, de US$ 260,59 bilhões no dia 23 de agosto para US$ 268,10 bilhões na última sexta-feira, pelo conceito de liquidez internacional. Os benefícios para o País gerados pelo contínuo aumento desta poupança externa divide as opiniões de especialistas ouvidos pela Agência Estado.

Para o professor da PUC-RJ Márcio Garcia, o Brasil conseguiu enfrentar bem a pior crise financeira internacional dos últimos 75 anos quando as reservas estavam em US$ 210 bilhões. Na sua avaliação, como aquela poupança hoje está ainda maior - subiu US$ 58 bilhões desde julho de 2009 -, não se justifica elevar os impactos fiscais decorrentes de um volume mais robusto destes recursos.

De acordo com o último Relatório de Gestão das Reservas Internacionais do BC, no dia 31 de dezembro de 2009 as reservas totalizavam US$ 239,05 bilhões e estavam aplicadas nas seguintes moedas: 81,9% em dólares dos EUA, 7% em euros, 3,7% em libras esterlinas, 3,5% em dólares canadenses, 1,9% em dólar australiano e 2% em outras divisas, entre elas o iene japonês.

Garcia estima que o impacto para o Tesouro Nacional do acúmulo de reservas está em oito pontos porcentuais ao ano - diferença entre a remuneração das reservas cambiais no exterior, próxima a 2,5% ao ano, e os 10,75% ao ano que custa para o governo a emissão de títulos públicos realizada para evitar que o ingresso de capitais estrangeiros no País aumente de forma expressiva a base monetária, o que causaria pressões inflacionárias.

Aqueles oito pontos porcentuais representam um impacto para o caixa do governo equivalente a US$ 1,6 bilhão quando as reservas sobem US$ 20 bilhões. "Este é um custo fiscal significativo", destacou Garcia. Para o economista-chefe da LCA, Braulio Borges, as reservas de US$ 268 bilhões representam perto de 13% do Produto Interno Bruto (PIB), bem superior aos 10% do PIB apontados como "um nível ótimo" estimado por acadêmicos internacionais que estudam o tema.

Reservas vão subir

Para a maioria dos analistas consultados pela AE, a tendência é de continuidade de aumento das reservas pelo menos até os primeiros dias de 2012. O professor da PUC-SP, Antônio Correa de Lacerda, destaca que a expectativa de ingresso de US$ 20 bilhões no País com a emissão de ações da Petrobrás neste mês deve colaborar para que as reservas atinjam em dezembro US$ 280 bilhões. Na avaliação do economista do Santander, Cristiano Souza, a perspectiva de expansão do Brasil nos próximos anos deve viabilizar a manutenção do bom ritmo de entrada de capitais internacionais nos próximos trimestres, o que deve levar as reservas a U$$ 300 bilhões ao final de 2011.

Segundo Juan Jensen, sócio da consultoria Tendências, as reservas devem fechar este ano em US$ 276,6 bilhões e atingir US$ 312 bilhões no final do ano que vem. "A partir de agora, a eficácia do acúmulo de reservas é marginal, dado o custo fiscal que ele proporciona", comentou. Contudo, Jensen e boa parte dos especialistas ouvidos pela AE acreditam que o governo pode fazer muito pouco para barrar o intenso fluxo de divisas estrangeiras que estão ingressando no País.

"O aumento robusto das reservas é reflexo de um fato inegável: o Brasil está bem, enquanto a economia mundial enfrenta fraca recuperação", ressaltou o economista-sênior do BES Investimento, Flávio Serrano. O Banco Central estima que o País vai crescer 7,3% neste ano. A mediana das previsões de analistas de mercado apurada pela pesquisa Focus, realizada pelo BC, aponta que o PIB deve subir 7,47% neste ano e avançar 4,5% em 2011.

"Evito cair na tentação de apontar que o acúmulo de reservas apenas causa impactos fiscais", comentou Braulio Borges. Na sua avaliação, ao fazer tal análise é preciso também considerar que há benefícios, como a proteção do País contra uma crise cambial violenta quando a débâcle dos bancos de investimentos dos EUA deflagrou uma recessão mundial no final de 2008.

"Eu não sei qual é o nível ótimo de reservas para o Brasil hoje. Mas uma boa indicação é a realização de um teste de estresse pelo Banco Central para averiguar quanto o País precisa de recursos para honrar compromissos internacionais, caso ocorra um credit crunch global com duração de cinco anos", comentou Borges. Na sua opinião, o BC deve guardar o resultado destas avaliações para si, pois se forem divulgadas isso poderia gerar especulações no mercado de câmbio sobre a dinâmica da compra de dólares pela autoridade monetária no decorrer daquele período.

Avanço fiscal

Há uma avaliação dos economistas de que uma maior geração de superávit primário é o melhor antídoto que o governo poderia adotar para reduzir o custo fiscal da acumulação de reservas. O professor Márcio Garcia aponta que uma poupança do Orçamento próxima a 5% do PIB por ano geraria um efeito muito positivo sobre os agentes econômicos e colaboraria com vigor para uma redução dos juros nominais em maior velocidade.

Para Braulio Borges, se o superávit primário atingisse a média de 3,5% do PIB nos próximos quatro anos, sem descontar investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), isso seria suficiente para levar a dívida interna para menos de 30% do PIB em 2014. E tal fato, segundo ele, permitiria levar a Selic para uma marca próxima a 7% ao final do mandato do próximo presidente da República.

Além de defender maior rigor fiscal, o professor Antônio Correa de Lacerda acredita ser fundamental que o próximo governo reduza de forma substancial a indexação da economia, especialmente em relação às tarifas do setor de energia. "É importante ainda que o Fundo Soberano acumule recursos no exterior, o que evitaria o custo de emissão de títulos públicos no mercado interno", disse.

Na opinião de Lacerda, a redução dos juros também passa pelo aperfeiçoamento do sistema de metas de inflação. Ele destacou que o objetivo central para 2013 poderia ser definido em 3,75%, abaixo dos 4,5% definidos para 2012 pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O intervalo de oscilação do IPCA, que hoje é de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo, deveria baixar de forma gradual, segundo ele, até chegar a um ponto porcentual em cinco ou seis anos.

"Também é importante que o universo de fontes que opinam sobre as expectativas de inflação seja bem ampliado e não fique restrito a instituições financeiras e consultorias", destacou.

 

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