Estreito, a maior obra do País

Hidrelétrica em construção na divisa do MA com o TO expõe contraste entre presente e passado

O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

A maior obra de infra-estrutura em curso no País, a usina hidrelétrica de Estreito, vai empregar diretamente até 5,5 mil pessoas nos próximos dois anos. O projeto, na divisa entre o Maranhão e o Tocantins, é bastante diferente das grandes hidrelétricas construídas na década de 70, diz Massilon Gomes, experiente engenheiro que já participou da construção de cinco usinas pelo País. Com capacidade de 1.087 megawatts (MW), Estreito ficará pronta no fim de 2010."O processo mudou muito. Do ponto de vista da obra, as facilidades de hoje em dia, como acesso e telecomunicações, são muito melhores. Naquela época, não tinha nem telefone. Além disso, um grupo privado é muito mais ágil, porque não fica preso às limitações legais de uma estatal", avalia Gomes, que iniciou a carreira de barrageiro em 1973, na usina de Paulo Afonso, na Bahia. Ele ressalta, porém, que as obras antigas não sofriam tanto com entraves ambientais. "Naquela época era mais fácil nesse sentido. Era tudo feito por decreto", lembra. Em Estreito, por exemplo, a licença de instalação levou quase cinco anos para sair, apesar de o reservatório (ao contrário das usinas da década de 70) ter sido reduzido ao mínimo possível, cerca de 550 quilômetros quadrados. Mas houve problemas com as comunidades atingidas e com indígenas que vivem perto da obra.Gomes passou um breve período, entre 1995 e 1999, longe das barragens. Mas diz que foi por opção, pois recebeu um convite para integrar o governo de sua terra natal, Pernambuco, e não pela redução no ritmo de obras no Brasil. Depois de Paulo Afonso, colaborou na construção de Sobradinho, Itaparica e Xingo, todas na Bahia, e da segunda fase de Tucuruí, no Pará. Com 66 anos, sofre pressão da família para se aposentar, mas ainda alimenta o desejo de trabalhar nas obras de Jirau, no Rio Madeira, controlada pelo mesmo grupo responsável por Estreito. "Minha filha diz que sou louco, com essa idade, trabalhando no fim do mundo. Mas faço o que gosto e ainda sou pago por isso; é como estar de férias remuneradas", brinca. A usina de Estreito está localizada 630 quilômetros ao sul de São Luiz, em uma cidade com 26 mil habitantes e ruas de terra vermelha.A usina já mexe com a economia de Estreito e das cidades vizinhas. Dos mais de 2 mil funcionários que estão hoje no canteiro de obras, cerca de 80% são locais. Muitos foram treinados especialmente para o projeto, em uma parceria do Consórcio Estreito Energia (Ceste) e do Senai. Além disso, a empresa investe cerca de R$ 400 milhões em compensações sócio-ambientais - parte dos recursos é destinada a convênios com as prefeituras da região para a construção de equipamentos de saúde, infra-estrutura, educação e segurança pública.Quando começar a operar, o projeto vai deixar R$ 8,4 milhões por ano aos municípios, a título de compensação financeira pelo alagamento de áreas rurais e urbanas. Bom barrageiro, Gomes refuta as críticas sobre impactos negativos da obra. "Se você olhar Paulo Afonso, a represa garantiu um incremento no turismo da região, que hoje conta com catamarãs para passeio perto dos cânions", argumenta o engenheiro, que chegou a um tal nível de envolvimento nas obras de Tucuruí que se casou com uma moradora local e hoje reside na cidade paraense.Tucuruí e Estreito estão no mesmo rio, o Tocantins, outra paixão do engenheiro. "Quando me aposentar, quero ter um sítio na beira do rio para criar galinhas." Além das duas usinas, o Tocantins tem hoje, já operando ou em obras, outras cinco usinas hidrelétricas. Há, ainda, três novos projetos em análise pelo governo.

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