Estudo mostra como é concentrado o poder nas cias abertas

O capital com direito a voto nas companhias abertas no País é extremamente concentrado. É o que mostra um estudo da Economática, com base nas informações sobre 2002 de 270 empresas. Em 196 empresas, ou cerca de 73% dos casos, apenas um acionista detém mais de 50% das ações ordinárias, que dão direito a voto. Apenas em 5% das companhias abertas, 13 no total, os quatro maiores sócios somam menos da metade do capital votante. Na prática, isso indica que os investidores que não fazem parte do grupo de controle dificilmente conseguem votar nas assembléias para influir nos destinos dessas empresas. Nos Estados Unidos, acionistas com meros 3% das ações conseguem, por hipótese, até destituir diretores que não conseguem atingir as metas das companhias."Sem dúvida, comparado com mercados maduros, o controle das empresas de capital aberto no Brasil é muito mais concentrado. Com muita segurança, praticamente não há entre a grandes empresas americanas uma sequer em que alguém detenha mais da metade das ações ordinárias", afirma o presidente da Economática, Fernando Exel. O levantamento foi realizado com base nos Informes Anuais das companhias abertas, divulgados nos meses de abril a junho. Ações preferenciais Quando se leva em conta as fatias dos dois maiores sócios, nas companhias abertas, em 89% das empresas pesquisadas a soma destas participações ultrapassa a metade do capital votante. São 241 companhias neste caso, segundo mostra o estudo da Economática. A tradição de não dividir a propriedade e a possibilidade de captar recursos via ações preferenciais que não conferem direito a voto estão na base do problema, segundo especialistas que acompanham o mercado de capitais. O presidente da Economática, Fernando Exel, explica que para cada ação ordinária as empresas podem emitir duas preferenciais. Houve uma certa popularização dessas ações no Brasil. Mas na prática, os direitos das preferenciais são poucos em comparação com o fato deste tipo de acionista "não poder dar palpite", diz um especialista. Outro analista chega a dizer que a legislação, ao criar as ações preferenciais, "permitiu ao acionista que não quer largar o osso captar mais dinheiro". Ou seja, capta dinheiro sem que o majoritário reduza seu poder de mando. Cultura patrimonialista A superintendente de relações com empresas da Bovespa, Maria Helena Santana, concorda que o controle acionário no País é concentrado. "Aqui existe esta tradição íbero-americana, uma cultura meio patrimonialista, de se sentir dono daquela empresa que controla", analisa Maria Helena. Segundo ela, as ações preferenciais deram chance de se ter muitas empresas listadas em bolsa, mas, junto à herança cultural, atrasaram o processo de evolução do mercado. Ela também avalia que as questões macroeconômicas enfrentadas pelo País atrapalharam o lançamento de novas ações. Para o ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), José Luiz Osório, a combinação de um quadro macroeconômico administrado e um movimento de queda de juros poderá gerar uma migração de investimentos em renda fixa para renda variável. A superintendente da Bovespa avalia que a migração deverá se verificar não apenas no público em geral, mas também nos investidores institucionais, os fundos de pensão. Discretas exceções Conforme o levantamento da Economática, no grupo das empresas em que o porcentual somado dos quatro maiores acionistas é inferior a 50% do capital votante figuram empresas dos setores de comércio, alimentos, petróleo, têxtil e construção. Alguns dos exemplos são a Dimed (a soma das quatro maiores fatias soma 17,5%), a Sadia (27,8%), Ipiranga Distribuidora (18,4%), Itausa (33,7%), Tecnosolo (38,9%) e Cremer (45,4%). Num grupo de 227 empresas, 84% do total da mostra, a soma das quatro maiores fatias varia entre 70% e a totalidade das ações ordinárias.

Agencia Estado,

07 Julho 2003 | 09h58

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