CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO
CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO

Estudo mostra estagnação na redução da desigualdade no Brasil entre 2011 e 2014

A partir de informações da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, foram avaliados dados sobre longevidade, educação e renda

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2016 | 10h30

BRASÍLIA - O Brasil perdeu a batalha para redução da desigualdade nos primeiros quatro anos desta década. Estudo feito pelo Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (PNUD)  em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Fundação João Pinheiro mostra que a distância entre grupos mais ricos e mais pobres da população seguiu inalterada entre 2011 e 2014 e com diferença considerada pouco expressiva com relação a 2000.

Uma das coordenadoras do trabalho, a Andrea Bolzon, do Pnud, avalia que programas de transferências de renda e  a política de valorização do salário mínimo exerceram uma  proteção de grupos mais vulneráveis, mas, sozinhos, não foram suficientes para diminuir  a grande distância entre ricos e pobres. Para avançar na redução dessa diferença, avalia, seria importante a adoção de outras medidas, como, por exemplo, a taxação de grandes fortunas. 

Para autores, não há ainda como se mensurar qual o impacto das propostas de ajuste econômico feito pelo governo nos indicadores de desenvolvimento humano do País.. "Temos de aguardar",  avaliou Marco Costa, um dos autores do trabalho. 

O estudo lançado hoje é batizado de Radar IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano de Município). Os resultados são obtidos a partir da análise das informações da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD) e têm como objetivo "atualizar" um outro indicador, o IDHM que, por sua vez, é feito a partir dos dados do Censo, coletados a cada 10 anos.

Tanto Radar IDHM como o IDHM são compostos por três indicadores de desenvolvimento humano: longevidade, educação e renda. O índice varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano. São cinco classificações: muito baixo, baixo, médio, alto e muito alto. 

Os dados do Radar IDHM mostram que, apesar da crise, os indicadores de desenvolvimento humano no Brasil melhoraram ao longo de 2011 e 2014. No período, afirmam os autores, a expectativa de vida melhorou, os anos de estudo aumentaram e até mesmo a renda se elevou. O relatório atribui o avanço no início da década à natureza dos dados. Os indicadores avaliados teriam sensibilidade diferente ao desempenho da economia. Os efeitos da crise também seriam amortizados em parte pela rede de proteção social existente no País.

A melhora foi mantida, mas numa velocidade muito menor do que em outros períodos. O IDHM apresentou um crescimento anual de 1% entre 2011 e 2014. O ritmo foi inferior ao crescimento apresentado na década 2000-2010, quando a média de crescimento do IDHM foi de 1,7% ao ano - uma redução de 41%.

A longevidade e a educação cresceram no período, mas também num ritmo menor do que o identificado entre 2000 e 2010. A queda na velocidade foi, respectivamente, de 50% e 55%. 

Autores do trabalho mostraram-se especialmente preocupados com o desempenho na área da educação. "Esse é o grande gargalo", constata Andrea. O documento chama a atenção, por exemplo, para a estagnação no porcentual de pessoas com 18 anos ou mais que apresentem ensino fundamental completo. Em 2011, representavam 60,1% do total. Em 2014, eram 61,8%. 

Curiosamente, a renda apresentou nos primeiros quatro anos desta década um avanço mais rápido do que entre 2000 e 2010. Pesquisadores não esconderam a surpresa com os dados da renda e lançaram dúvidas sobre o que vai acontecer com próximos dados, sobretudo com o agravamento da crise econômica.

As diferenças existentes no Brasil ficam evidentes  quando se analisam os dados de Estados. Em Santa Catarina, a esperança de vida ao nascer é de 78,4 anos - 14 a mais do que a esperança de nascidos no Maranhão. As oportunidades de renda também destoam de acordo com a localização. A renda per capita no Distrito Federal, de R$ 1.606, é quatro vezes maior do que a apresentada em Alagoas, R$ 414.

Tamanha disparidade se reflete nos indicadores do País. Brasil apresenta um mix de classificações de desenvolvimento humano. No quesito educação, por exemplo, são encontrados Estados com todas as classificações de IDH. Pará e Sergipe são considerados de baixo desenvolvimento humano. Outros 16 são classificados como de médio desenvolvimento, oito estão no grupo de alto desenvolvimento e São Paulo, considerado como de desenvolvimento humano muito alto.

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