Etanol do Brasil não altera preços dos alimentos, diz FMI

Estudo apresentado pelo Fundo à ONU aponta etanol dos EUA e Europa como responsáveis por parte da inflação

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

29 de abril de 2008 | 15h41

Um levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostrado aos líderes da ONU comprova que o etanol brasileiro não seria o responsável pela alta nos preços dos principais alimentos. O estudo foi apresentado pelo vice-diretor-geral do FMI, o brasileiro Murilo Portugal, e ainda aponta para o etanol americano e europeu como responsáveis por parte da inflação no setor.  Veja também:Especial: Entenda a crise dos alimentos   Portugal ainda anunciou, em Berna, que a entidade tentará socorrer os países mais afetados pela alta nos preços dos alimentos. O executivo afirmou que está sendo criado um plano de financiamento para ajudar doze países africanos a lidar com os crescentes déficits em suas contas correntes por causa da importação de alimentos.  O representante do FMI apresentou ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, um estudo feito pelo Fundo sobre os impactos do etanol. "O etanol brasileiro não compete com a produção de alimentos. O Brasil não subsidia e tem terras suficientes", afirmou Portugal. "Já o etanol de milho e de grãos como existe na Europa e Estados Unidos é diferente. No caso da produção do milho, dois terços da alta nos preços desde 2005 é gerado pela expansão. No caso da soja, metade da alta também é gerado pelo etanol americano. Já o custo do trigo aumentou também e um terço é causado pelo etanol", explicou Portugal. De acordo com o estudo do Fundo, a alta histórica do arroz não tem qualquer relação nem com o etanol brasileiro nem com os biocombustíveis europeus e americanos. "20% da alta é gerada pelo petróleo e 80% por outros fatores", disse. Segundo Portugal, a alta em geral é conseqüência da maior demanda por alimentos na China e Índia, redução de estoques e quebra de produção. O custo de energia também é importante. "Os fertilizantes triplicaram de preço e os custos de transporte duplicaram", disse. "A situação é preocupante e o choque dos preços é sério", alertou Portugal. "Nossa avaliação é de que a alta nos preços dos alimentos já está causando um desequilíbrio nas contas comerciais dos países mais pobres equivalentes a 1% de seus PIBs. O valor é importante", afirmou. Petróleo Apesar de destacar a crise de alimentos, Murilo Portugal alerta que um problema ainda mais sério para as balanças comerciais é o preço recorde do petróleo. "Sobre a energia, a reunião não falou tanto. Mas a realidade é que os problemas gerados pela importação do petróleo são ainda maiores que o déficit de alimentos", disse. Na África, o déficit comercial já chega a 2% do PIB com o preço do petróleo. "O resultado é que, juntos, os alimentos e energia estão causando um déficit nas contas comerciais dos países africanos equivalentes a 3% de seus PIBs", afirmou. Segundo o Fundo, a alta do petróleo desde 2006 chega a 95%, contra 48% no setor de alimentos. "Nos países ricos, a alta está pressionando a inflação. Mas nos países em desenvolvimento, isso supõe crises sociais e mesmo políticas. Os maiores desafios são para os países pobres", afirmou Portugal.  Por enquanto, o FMI irá atender países africanos. O plano será apresentado ao comitê executivo do fundo nas próximas semanas e incluirá novos recursos. Portugal informou que negociações já estão sendo conduzidas também com o Haiti.

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