Etanol perde competitividade se gasolina cair mais de 13%

Queda do petróleo no mercado internacional tem preocupado o setor sucroalcooleiro quanto aos preços

Eduardo Magossi, da Agência Estado

20 de janeiro de 2009 | 17h47

O álcool só perderá competitividade nos postos de combustíveis se os preços da gasolina caírem mais que 13% na bomba, avalia a Tendências Consultoria. A queda do petróleo no mercado internacional - de cerca de US$ 150 por galão para o patamar atual de US$ 35 a US$ 40 - tem preocupado o setor sucroalcooleiro quanto a uma redução nos preços da gasolina no mercado interno, o que poderia tirar a competitividade do etanol hidratado usado nos carros flex e piorar o fluxo de caixa das usinas, que já atravessam uma fase difícil.  Segundo o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Pádua Rodrigues, qualquer redução no preço da gasolina afeta a competitividade do etanol já que o setor ainda não tem uma estimativa de como os preços do etanol irão se comportar diante dos efeitos da crise financeira global. "Estamos em plena entressafra e os preços não estão subindo", disse.  O analista de energia da Tendências Consultoria, Walter de Vitto, explica que, atualmente, os preços da gasolina no mercado internacional estão bem abaixo dos praticados no mercado doméstico. Participantes deste mercado estimam que a defasagem pontual do preço da gasolina no mercado doméstico em relação ao externo esteja entre 50% e 60%, sendo que, pela primeira vez em 10 anos, esta defasagem ficou acima de 35% por mais de 1 mês. Isto porque a Petrobras não aumentou de forma expressiva os preços dos combustíveis quando os preços do petróleo dispararam e agora também efetivou nenhuma redução apesar da queda dos preços da commodity de energia.  Porém, de Vitto ressalta que, no cálculo da média de 12 meses, de janeiro de 2008 até o momento, os preços no mercado doméstico continuam abaixo dos praticados no mercado internacional. "Neste recorte de 12 meses, ainda não houve uma reversão e a gasolina no mercado interno continua mais barata que a média internacional", disse. Os números utilizados por Vitto foram aqueles compilados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). De Vitto ressalta que é importante calcular esta média porque a Petrobrás não costuma realizar reajustes em seus preços em função de um cenário pontual. "Na verdade a Petrobrás não tem uma política de reajuste de preços em função da volatilidade do mercado. Mas acredito que um cenário de preços de petróleo abaixo de US$ 50 por muito tempo tornará uma redução inevitável", disse.  Na semana passada, os bancos de investimentos Morgan Stanley e Merryll Lynch divulgaram relatórios nos quais ressaltavam o fato de que as commodities de energia deverão permanecer pressionadas durante todo o ano de 2009 em função da queda do consumo provocada pela crise global. A expectativa de Vitto é de que a média registre uma reversão, com os preços domésticos ficando mais caros que os internacionais, até o final do primeiro semestre de 2009. De Vitto informa que, para que a gasolina tenha uma redução de 13% na bomba para o consumidor, o combustível terá que registrar uma queda de 31% de seu preço na refinaria, considerando a manutenção da Cide, a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico. No último reajuste realizado em maio de 2008, quando a Petrobrás elevou os preços da gasolina, a Cide foi retirada para o consumidor, o que reduziu o impacto da alta na bomba. "Uma das possibilidades neste momento é que a Petrobrás realize o caminho inverso, reduzindo o preço do combustível para a refinaria, mas voltando a incluir a Cide", disse o analista. Alguns participantes do setor sucroalcooleiro não trabalham, contudo, com a possibilidade de uma redução do preço da gasolina no curto prazo. "A Petrobrás não costuma realizar reajuste. Ela não trabalha com picos e vales e sempre optou pela estabilidade", afirma Eduardo Pereira de Carvalho, diretor da ETH Bioenergia S/A. Segundo o vice-presidente geral do grupo Cosan, Pedro Mizutani, este não é o momento ideal para a Petrobrás reduzir os preços de combustíveis como gasolina e diesel. "Ela precisa gerar receita neste momento de crise global e uma redução no preço de seus produtos iria criar um gargalo desnecessário", acredita. Para o analista da Tendências, Walter de Vitto, um outro fator contra a redução dos preços dos combustíveis fósseis pela Petrobrás seria uma forma de apoiar o setor sucroalcooleiro que atravessa por uma crise de liquidez neste momento. Porém, ele lembra que uma redução no preço do diesel, por exemplo, pode ser utilizado como forma de aquecer a economia.

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