''''Etanol precisa ser de fonte sustentável''''

Ministra diz que certificação é precondição para que produto brasileiro entre no mercado europeu

Entrevista com

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

11 de outubro de 2007 | 00h00

A comissária agrícola da União Européia (UE), Mariann Fischer Boel, revela que Bruxelas não abrirá mão de garantias de que o etanol brasileiro é produzido a partir de fontes ambientalmente sustentáveis. Mas admite que cortará os subsídios ao etanol nos próximos anos à medida em que o preço do petróleo se mantenha alto.A comissária (espécie de ministra para os 27 países do bloco europeu) inicia hoje pela Argentina viagem à América do Sul. Chega no Brasil no fim de semana e fica até o dia 19. Na agenda, Fischer Boel incluiu visita a produtores de etanol e açúcar, além dos setores de carne e suco de laranja. Em entrevista ao Estado, Fischer Boel confirma os planos da Europa no setor do etanol e ainda alerta que o Brasil pode esquecer a idéia de que conseguirá da UE as concessões que espera na abertura de seu mercado, por enquanto. Ela ainda insiste que é hora de o Brasil abrir seu mercado para bens industriais e admite que a Rodada Doha da OMC está em perigo. A seguir, trechos da entrevistaEm meio à crise sobre o futuro da liberalização agrícola, qual é o motivo da viagem da sra. ao Brasil?O Brasil é um parceiro muito importante para a União Européia. É o nosso maior fornecedor de produtos agrícolas e somos o mercado mais importante para o País, superando os Estados Unidos. Por isso é que é tão importante para mim essa visita. Quero encontrar-me com agricultores, falar com políticos e ver o potencial do Brasil nos setores de carne, açúcar, etanol e suco de laranja.Nos últimos meses, vemos uma pressão inflacionária no setor de alimentos na Europa. Há algum plano de abrir o mercado para os produtos brasileiros?Vimos um aumento moderado dos preços dos alimentos, como leite e pão. É provável que algo parecido ocorra com a carne. Mas temos de lembrar que os preços têm estado em níveis ainda baixos numa comparação histórica. Não há motivo para pânico. Sugeri o fim das tarifas de importação no setor de cereais como medida para lidar com uma situação particular. Mas a resposta para sua pergunta é não. Não faremos qualquer mudança nas condições de acesso ao nosso mercado. O que faremos é negociar na OMC.Mas diante da crise instalada na Rodada Doha, a sra. ainda acha que um acordo pode ser fechado neste ano?Sou otimista. Mas as coisas não estão avançando. Queremos um acordo equilibrado. Já contribuímos muito e agora são os outros países que precisam fazer sua parte. Isso inclui o Brasil, que precisa ser bem mais ativo com relação às tarifas industriais.Mas, mesmo se o Brasil abrir seu mercado, o obstáculo principal não seria o Congresso dos EUA que não confere um mandato para a Casa Branca negociar?Para que tenhamos um acordo, concessões terão de ser feitas por todos. Isso inclui Brasil, Índia, UE e os EUA. Ouvimos sinais positivos dos americanos, mas será interessante ver até que ponto o Congresso seguirá a linha da Casa Branca quando termine a Farm Bill (lei agrícola que estabelece os subsídios até 2011).Se Doha não trouxer resultados, qual será a estratégia da UE com o Mercosul?Doha é nossa prioridade. Mas continuamos comprometidos em concluir as negociações entre a UE e o Mercosul assim que seja possível tecnicamente e politicamente. Acreditamos que as negociações UE-Mercosul não só reduzirão tarifas, mas cortarão barreiras não tarifárias que impedem que nossas exportações agrícolas para o Brasil sejam tão grandes como desejamos.Mas o Brasil poderá conseguir o acesso ao mercado europeu nas negociações UE-Mercosul que não está conseguindo na OMC?O melhor lugar para negociar é no contexto multilateral. Se Doha fracassar, o Brasil não deve esperar que conseguirá os mesmos resultados em acesso num acordo entre a Europa e o Mercosul.Nos últimos meses, há uma crescente resistência na Europa contra o etanol brasileiro por motivos ambientais. O que a UE fará sobre isso?Estamos elaborando os detalhes finais de como vamos estabelecer metas de uso de biocombustíveis. Isso inclui a exigência de que o combustível importado venha de fontes genuinamente sustentáveis. Essa será uma precondição para o acesso ao nosso mercado.Mas, além das barreiras, levantamentos apontam que a Europa destina 3 bilhões por ano ao etanol. A sra. acredita que o desenvolvimento do biocombustível na Europa irá apenas perpetuar os subsídios aos fazendeiros europeus?Pagamos 45 por hectare para o fazendeiro que produza bens para combustíveis até um limite de 2 milhões de hectares. Em nossa revisão da Política Agrícola Comum (PAC), iremos sugerir que esse pagamento seja eliminado. Agora que temos uma meta de uso do etanol e um mercado emergente - além do preço do petróleo em alta -, há a possibilidade de que os subsídios não sejam mais necessários.Outro objetivo de sua viagem será visitar a produção de carne. Na Europa, associações britânicas pedem o embargo à carne brasileira por causa da febre aftosa. A sra. teme pela qualidade do produto nacional?Vou visitar a produção e olhar atentamente aos métodos usados. Há preocupações na Europa sobre o controle de doenças animais. Queremos ver como o sistema de monitoramento do gado funciona na prática e se há movimento de animais entre áreas afetadas e as livre de aftosa. Mas devo lembrar que a Europa, ao contrário de outros mercados significativos, continua importando carne do Brasil.Quem é: Mariann Fisher BoelComissária agrícola da União EuropéiaEstá no cargo desde novembro de 2004Foi ministra da Agricultura e da Pesca da Dinamarca de novembro de 2001 a agosto de 2004Estudou economia e línguas e é deputada pelo Partido Liberal desde 1990.

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