Adriano Machado/Reuters
Ao contrário de Moro, Mandetta e Teich, Guedes evita tudo ou nada com Bolsonaro Adriano Machado/Reuters

‘Eu sou duro na queda’, diz Guedes

Segundo apurou o ‘Estadão’, o ministro da Economia nega posição de 'fragilidade’ e não vê a sua saída do governo como ‘algo próximo’

José Fucs, O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2020 | 05h00

Nas últimas semanas, no rastro das demissões dos ex-ministros Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Pública, e de Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, ganharam intensidade no mercado os rumores sobre uma possível guinada na política econômica e a saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, do governo.

Apesar de o presidente Jair Bolsonaro ter reafirmado mais de uma vez que Guedes continua a ser o seu Posto Ipiranga, as seguidas “bolas nas costas” que ele vem levando do chefe acabam por alimentar a percepção de que seus dias no governo podem estar contados. O desembarque do sucessor de Mandetta, Nelson Teich, anunciado na sexta-feira, certamente não contribuirá para reduzir as incertezas sobre sua permanência no cargo.

Como costuma acontecer no futebol, quando dirigentes vêm a público dizer que os técnicos de seus clubes estão “prestigiados”, mas eles acabam demitidos dias depois, há muita desconfiança na praça de que as declarações de Bolsonaro sobre a continuidade de seu casamento com Guedes reflitam, de fato, o que esteja acontecendo nos bastidores.

Fritura

Na semana passada, o presidente voltou a colocá-lo numa saia justa, ao sugerir um recuo em seu compromisso de vetar a possibilidade de concessão de reajuste para certas categorias do funcionalismo em 2020 e 2021, embutida no pacote de auxílio a Estados e municípios aprovado pelo Congresso no início de maio.

Contrário à concessão do benefício, no momento em que o setor privado faz enormes sacrifícios para sobreviver à pandemia, Guedes pediu o veto depois de o próprio presidente ter liberado a base aliada para votar a favor das exclusões ao congelamento salarial, como revelou o Major Vítor Hugo (PSL-GO), líder do governo na Câmara.

Antes, Bolsonaro já havia criado um problemão para Guedes, ao dar o seu aval ao chamado Plano Pró-Brasil, também articulado à revelia de Guedes. O plano, destinado a alavancar a economia após a pandemia, previa inicialmente o uso de recursos públicos que seriam viabilizados com a flexibilização do teto dos gastos – dispositivo que limita as despesas do governo ao valor do ano anterior corrigido pela inflação.

Mas, apesar dos sinais de que passa por um processo de “fritura”, Guedes não parece convencido, segundo apurou o Estadão, de que chegou a hora de deixar o governo. Ao contrário de Moro, Mandetta e Teich, ele não faz de suas divergências com o presidente uma questão de vida ou morte e “engole sapos” com certa resignação.

Bola dividida

Embora admita a amigos e auxiliares que ficará numa “situação difícil” caso Bolsonaro não vete os “furos” no congelamento salarial dos servidores, é grande a probabilidade de Guedes “agasalhar” mais este revés, se ele realmente se confirmar – o prazo para o presidente decidir sobre a questão vence no dia 27.

Como já afirmou várias vezes, Guedes até admite deixar o governo se sentir que não consegue ajudar o presidente e as pessoas que confiam nele. De acordo com as fontes ouvidas pelo Estadão, porém, ele não vê a sua saída como “algo próximo”.

Na verdade, pelo que anda dizendo, sequer reconhece a “fragilidade” que lhe é atribuída por alguns analistas e continua a exaltar a confiança que acredita merecer de Bolsonaro. “Até hoje, sempre que houve uma bola dividida, o presidente esteve comigo”, costuma afirmar a quem o questiona sobre um possível desgaste em sua relação com Bolsonaro.

Apesar das evidências em contrário, Guedes não atribui ao presidente as “facadas” que levou nos últimos tempos. Na visão do ministro, segundo relato de interlocutores próximos, ele se tornou alvo do chamado “fogo amigo”, disparado de trincheiras erguidas na Esplanada dos Ministérios e no Congresso Nacional.

Centrão

A integrantes da equipe econômica que se abatem diante das adversidades, Guedes costuma dizer que já ouviu vários “nãos” de Bolsonaro, mas não desistiu de ir atrás de seus objetivos, inclusive em relação ao próprio congelamento de salários de servidores em casos de crise fiscal.

O dispositivo já estava previsto tanto na reforma administrativa preparada pela equipe econômica, que o presidente defenestrou no final do ano passado, como no chamado Pacto Federativo, que está em análise no Senado e ficou em stand by com a pandemia.

“Quem me conhece sabe que sou duro na queda”, diz a seus assistentes quando leva um tombo. “Sou um caçador. Não desisto da presa até abatê-la. Mesmo no meio do maior fumacê, da maior brigaiada, não perco o rastro.”

Nem a aliança de Bolsonaro com o Centrão, para reforçar sua base no Congresso, nem os riscos que ela pode representar para a sua agenda reformista parecem levar Guedes a questionar a sua permanência no governo. Como apurou o Estadão, ele entende, talvez ingenuamente, que o acordo terá características diferentes das passagens do Centrão pelo governo no passado.

Em sua percepção, de acordo com uma fonte que esteve com ele recentemente, a troca de apoio político por cargos não significa necessariamente uma porta aberta para a corrupção, se Bolsonaro “blindar” o comando dos ministérios e das grandes estatais. O acerto deverá se refletir na liberação de recursos para regiões de interesse de parlamentares do Centrão, por meio de emendas e solicitações feitas diretamente aos titulares das Pastas e das estatais.     

Programa liberal

Guedes parece determinado a deixar um legado ao País, ao implementar o seu programa liberal, com o controle de gastos do governo, a implementação das reformas estruturantes, a privatização e a abertura econômica. Com isso, ele acredita que lançará as bases que permitirão o crescimento sustentável do País e não apenas mais um voo de galinha, como tem acontecido em diferentes oportunidades ao longo das últimas décadas.

Também ao contrário de Moro, Mandetta e Teich, Guedes não se mostra muito preocupado em manchar sua biografia ao permanecer no governo e sabe que nenhum outro presidente teria colocado um liberal como ele no comando da economia.

Enquanto muito dos que apoiaram Bolsonaro nas urnas e antigos colaboradores se afastaram dele, Guedes se mantém leal ao presidente. Sua reação a um pedido do governador de São Paulo, João Doria, para que ele – considerado um dos pilares do governo – deixasse o cargo, é um exemplo emblemático de que continua a ser um fiel escudeiro do “capitão”.

“João, agradeço sua ligação, mas não sou eu que sustento o governo Bolsonaro. Quem sustenta o governo é o povo que elegeu o presidente. Ele tem um terço de apoio. O outro terço, que fica no meio do caminho, depois vai apoiá-lo”, afirmou Guedes, de acordo com uma gravação da conversa que “vazou” no final de abril. “João, o país vive um momento democrático que é barulhento, mas virtuoso.”

Obsessão

Ele reage com indignação quando alguém fala sobre um possível processo de impeachment contra Bolsonaro no Congresso. Ainda que reconheça o papel relevante desempenhado pela mídia independente e profissional e defenda de forma enfática a liberdade de expressão, ele engrossa as críticas do presidente à imprensa. “A obsessão da mídia é pegar o Bolsonaro”, costuma dizer ao comentar a questão.

Até no caso da manifestação em que se pedia uma intervenção militar e a volta do AI-5, realizada em 19 de abril, em Brasília, com a participação de Bolsonaro, Guedes fica ao lado do chefe, dizendo que ele nada falou contra a democracia no ato. Segundo um de seus auxiliares, ele comentou que havia só um cartaz perdido no meio do ato pedindo a volta do AI-5, mas as manchetes destacaram que foi uma manifestação contra a democracia apoiada por Bolsonaro.

Mesmo com tudo isso, nada garante que amanhã ou depois de amanhã Guedes não possa mudar de ideia e romper o seu casamento com Bolsonaro ou que o próprio presidente peça o divórcio. É sempre uma possibilidade, para qualquer um que esteja ocupando um cargo de confiança, especialmente no primeiro escalão, como mostram os casos do ex-ministro Nelson Teich, de Mandetta e de Moro.

Banho de mar

Quando questionado sobre a questão, Guedes lembra do caso do ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Mário Henrique Simonsen, que passou por um processo semelhante de “fritura” no governo Figueiredo (1979-1985). Na época, diziam que Delfim Netto, então ministro da Fazenda, estava contra ele, que o presidente estava fechado com Delfim, que o Simonsen havia sido abandonado e que ele tinha de decidir se ficava ou não no governo.

Ao final, ele acabou deixando o ministério e no dia seguinte estava na praia de Ipanema, no Rio, onde morava, tomando um banho de mar, quando um jornalista lhe perguntou: “E agora, ministro, como é que ficam os problemas do Brasil?”. Ele respondeu: “Os problemas não são mais meus, são do Brasil. Até ontem eu não dormia, os problemas eram meus. Hoje, eu dormi muito bem. Agora os problemas são seus”. Por ora, porém, pelo que se pode observar, parece que o banho de mar de Guedes em Ipanema – ou no Leblon, onde ele mora – vai ficar para mais tarde. 

 

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Sem alarde, Guedes já faz planos para a retomada

Equipe econômica está em busca de protocolos de saída da crise no exterior, para avaliar as práticas que possam ser replicadas no Brasil

José Fucs, O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2020 | 05h00

Diante da pandemia, do número crescente de mortes e da discussão sobre a adoção de lockdown (bloqueio total) em grandes cidades do País, o Ministério da Economia diz que ainda não é o momento de discutir a retomada. Mas, nos bastidores, a equipe econômica já está traçando os cenários e fazendo estimativas preliminares para o day after.

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Segundo o Estadão apurou, os técnicos do ministério estão indo atrás dos protocolos de saída de lockdown em diversos países, para conhecer melhor as diferentes estratégias de retomada adotadas pelo mundo, avaliar as melhores práticas e selecionar aquelas que podem ser replicadas no Brasil.

A equipe econômica continua a apostar numa retomada em “V”, com uma queda de no máximo 4% do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano e uma recuperação forte em 2021, com alta de cerca de 5% do PIB. De acordo com as previsões do ministério, a retomada em “V” é a que parece ter hoje a maior chance de acontecer, com 50% de probabilidade. Neste cenário mais favorável, dentro do que se pode considerar como tal no contexto atual, a crise na saúde começaria a diminuir dentro de três meses e economia voltaria a crescer de forma acelerada.  

Previsões sombrias

Nas projeções oficiais, há, também, uma grande chance de acontecer uma retomada em “U”, com 40% de probabilidade, caso a pandemia se agrave, o que ampliaria um pouco a recessão e retardaria o reaquecimento da economia. Para o ministério, a retomada em “L”, que seria o cenário mais grave, com a pasmaceira da economia se prolongando ainda mais e a retomada ocorrendo lentamente, é a que tem menor chance de ocorrer, com apenas 10% de probabilidade.

Caso as previsões mais sombrias se confirmem e a taxa básica de juro caia para zero, para impulsionar a atividade econômica, o governo poderá recomprar títulos da dívida pública e emitir moeda, como já afirmou o ministro Paulo Guedes, seguindo estratégia adotada pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano. A lógica por trás deste movimento é a de que, com os títulos públicos rendendo zero, não faria sentido mantê-los no mercado, porque os indivíduos e as empresas vão preferir dinheiro vivo.

Para a equipe econômica, se o presidente Jair Bolsonaro vetar a possibilidade de concessão de reajustes salariais para certas categorias do funcionalismo neste ano e no próximo, incluída no pacote de auxílio a Estados e municípios, e se o veto não for derrubado pelo Congresso, o País ganhará fôlego fiscal para dar maior consistência à retomada pós-pandemia. “Eu tenho falado que o Brasil vai surpreender”, declarou o ministro Paulo Guedes recentemente.

Trajetória futura

O objetivo da equipe econômica com o congelamento de salários dos servidores estaduais e municipais é garantir que o volume extraordinário de recursos que o governo federal está liberando vá efetivamente para a saúde e não para aumentar a máquina administrativa e seja uma despesa transitória e não permanente. Aí, em 2021, os gastos voltariam ao patamar de antes da crise, sem comprometer a trajetória futura das contas públicas.

Se o congelamento salarial do funcionalismo for confirmado, a equipe econômica terá realizado o plano definido desde o início da atual gestão, de cortar de forma significativa as três grandes despesas do governo, que ainda incluem a Previdência e os juros incidentes sobre a dívida pública – duas áreas em que os gastos já caíram sensivelmente, com a reforma aprovada em 2019 e a redução da taxa básica pelo Banco Central, sem pressões inflacionárias.  

Neste ano, a previsão é de que o governo consiga economizar cerca de R$ 200 bilhões em relação ao que gastava antes, sem contar os gastos emergenciais com a pandemia, sendo R$ 100 bilhões com a Previdência e mais R$ 100 bilhões na rolagem da dívida pública. Em 2019, o corte de despesas já havia permitido uma redução da relação dívida/PIB, que muitos analistas diziam que só iria se estabilizar em 2022, de 76,5% para 75,8% do PIB.

Contornos keynesianos

Com o veto às exceções feitas no congelamento de salários, o País poderá ter uma economia adicional de R$ 130 bilhões, em vez dos R$ 43 bilhões previstos com o projeto aprovado pelo Congresso no início de maio. “Agora, em vez de fiscal frouxo e aperto monetário, é aperto fiscal e afrouxamento monetário”, costuma dizer Guedes.

Acusado de “insensível” às demandas sociais e de “radical” por seus opositores, por insistir no equilíbrio fiscal e na contenção dos gastos públicos, Guedes tem dito que implementou “o maior programa social do mundo em três meses”.

Ele interrompeu uma agenda de reformas estruturantes, de caráter permanente, inspirado nos ensinamentos da Universidade de Chicago, templo global do liberalismo econômico, e implementou um programa de contornos keynesianos, com medidas emergenciais e temporárias, para amparar a população mais carente e as empresas durante a pandemia.

Segundo dados do Ministério da Economia, o governo já liberou o equivalente a 4,6% do PIB para combater os efeitos da crise, enquanto os países avançados liberaram, em média, 4,5% do PIB e os emergentes, 2,3%. Ao mesmo tempo, o País registrou um aumento no desemprego formal de cerca de um milhão de trabalhadores durante a crise, enquanto nos Estados Unidos o desemprego alcançou 26 milhões de pessoas.

O governo, segundo o ministério, também conseguiu antecipar em vários anos, na prática, a proposta de descentralização de recursos prevista no novo Pacto Federativo em tramitação no Senado. Pelos números oficiais, o governo liberou em dois meses R$ 300 bilhões para Estados e municípios, o equivalente a 2/3 dos R$ 450 bilhões previstos para ser repassados aos entes da Federação ao longo de oito anos, conforme a proposta do pacto.

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