'Eu tive de me reinventar, porque senão iria falhar'

A vivência internacional de Maurício Russomano, que completa 37 anos em agosto, começou logo depois de nascer. Filho de um executivo de multinacional, seis meses depois vir ao mundo, em São Paulo, foi para os Estados Unidos. Em seguida, passou por Recife, Espanha e Suíça. Aos 14 anos, voltou para São Paulo, onde frequentou o ensino médio e começou a fazer engenharia de produção da Escola Politécnica (Poli) da USP. Mas terminou o curso nos EUA, na Worcester Polytechnic Institute (WPI). E por lá ficou: foi vender turbinas de geração de energia da GE no meio-oeste americano. Depois virou analista de fusões e aquisições da empresa. De lá, veio para o Brasil e iniciou sua carreira na alemã Basf, onde hoje comanda a Unidade de Proteção de Cultivos para o Brasil. Mas para chegar a esse cargo, Russomano passou por maus momentos. No seu trajeto, não teve problemas de pedir conselhos a seu experiente pai e a outros executivos. A seguir, trechos da entrevista.

Entrevista com

CLÁUDIO MARQUES, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h11

Aos 25 anos você entrou numa grande multinacional como gerente. Como isso aconteceu?

Eu estava na GE americana quando a Basf me convidou para vir para o Brasil para ser o gerente que iniciaria um projeto diferente aqui, o de e-commerce. Houve um pouco de sorte, mas acho que a minha vantagem para entrar na companhia já num nível mais sênior foi porque tratava-se de um negócio muito novo, poucas pessoas tinham trabalhado com isso.

E depois?

A Basf me ofereceu ser o responsável por três áreas aqui: farmacêutica, cosméticos e alimentos. O objetivo era fazer essas áreas ou crescerem e retomar a rentabilidade ou, por outro, fazer uma reestruturação. No final de dois anos, as três unidades tinham crescido e voltado a ter rentabilidade boa. A minha entrada no grupo foi uma questão circunstancial, aliada ao fato de que eu estava trabalhando fora e tinha experiência internacional rica. Mas o ponto que me alavancou mesmo foi assumir as unidades.

O que lhe deu confiança para assumir o desafio aos 27 anos?

Acho que foi a segurança de que eu me esforço para aprender rápido e a dedicação que me deram confiança. Outra coisa, eu já tinha experiência comercial prévia, tudo bem que tinha vendido turbina e não molécula. Mas o processo de vendas é mais ou menos parecido.

Que medidas tomou nas três unidades?

Passei os primeiros três meses e meio na rua visitando clientes, escutando o que eles achavam da Basf, porque não compravam da Basf e quais eram os pontos de performance ruim. Depois, tomei algumas decisões certas muito rápidas, porque houve coisas que descobri com os clientes. Por exemplo, vendíamos produtos técnicos e não tínhamos laboratório de tecnologia para demonstrar isso para os clientes, todos grandes nas suas áreas e possuidores de muita tecnologia. E não adianta só chegar para o cara e falar compra que é bom. Por isso, instalei laboratórios e criei equipes técnicas. Também trouxemos especialistas no tema com visão de mercado. Outra decisão: nos aproximamos mais de alguns clientes, focamos bastante neles. Foram três medidas que, afinal, deram um impacto muito alto. Foi a minha primeira experiência de negócios mesmo.

E depois?

A Basf comprou a empresa chamada Orgamol, na Suíça, e fui para lá ajudar na integração. Fiquei no país por três anos e depois voltei para o Brasil, para a área agrícola. Fui diretor de marketing por uns dois anos, e há dois anos assumi a área de proteção de cultivos, virei vice-presidente, o responsável pelo negócio agro no Brasil.

Na Suíça, você sentiu alguma resistência a você, que era jovem e latino?

Acho que não teve alguém que não mostrou resistência. Um outro fator incomodou bastante: fomos para lá como compradores. Adquirimos uma empresa local, estabelecida, cujo fundador era um homem brilhante, um químico, um cientista. Ele criou a empresa, a comandou durante cinquenta anos e morreu. A viúva, então, colocou à venda. E a equipe gerencial de liderança não conseguiu comprar. A Basf foi lá e comprou. Pegamos uma equipe gerencial que estava, falando português claro, p... da vida porque havia sido comprada. Era um empresa saudável, de pessoas muito capazes, e nós fomos em nove pessoas para lá para assumir a empresa. Aconteceu de tudo.

O que?

Primeiro, estávamos num país que não era o nosso. Segundo, estávamos numa empresa que não conhecíamos, éramos de culturas diferentes e eu era jovem. Uma das coisas que ouvi de um subordinado foi: 'Olha, moleque, o que eu tenho de indústria, você tem de idade. O que você quer me ensinar aqui? A minha resposta foi: 'Eu não vim ensinar indústria farmacêutica, porque eu não tenho dúvida de que você sabe melhor do que eu. Só vim ajudar no processo de integrar esta empresa na Basf, porque eu a conheço melhor do que você, conheço o processo. Então, agora precisamos arrumar um jeito de integrar as duas companhias e tirar proveito ao máximo das coisas boas das duas'. Também ouvi piadas pejorativas sobre brasileiros, teve de tudo.

Foi difícil, então?

Foi muito difícil, tanto que no primeiro ano não fomos bem, não fizemos os números. Eu acho que eu realmente não fui bem, não consegui gerenciar os conflitos direito, foi um momento muito difícil na minha carreira, mas aprendi muito. No segundo ano, tive de me reinventar, porque eu sabia que se continuasse daquele jeito eu iria falhar na minha missão. Tive de mudar minha maneira de trabalhar com os suíços, tive de mudar as estratégias, refazer os comitês, e os grupos de poder da empresa, porque percebi que as pessoas que estavam tomando as decisões não eram a favor da integração. Por isso, as consequências dessas decisões não estavam adequadas ao que precisávamos. Mas conseguimos mudar e deu tudo certo, pois voltamos a crescer. Por isso, vim trabalhar aqui na agro.

Foi um desafio e tanto?

Sendo muito honesto, foi um momento muito difícil pessoal e profissionalmente. Pessoal, porque eu estava sozinho. A Suíça é um país muito fechado, eu tinha muita dificuldade de fazer amizade, de conhecer pessoas espontaneamente como no Brasil, e depois profissionalmente também. Chegar a um ambiente de trabalho em que você tem a sensação que todo mundo tem ódio de você e parece que tudo o que você faz é estúpido, que está tudo errado é difícil. E você começa a se perguntar se você realmente não é estúpido, pelo menos eu passei por esse tipo de questionamento. Pensava 'acho que desta vez eu dei um passo maior do que a perna', ou 'eu acho que não estava preparado para esse desafio', 'eu realmente acho que não trabalho tão bem quanto eu pensava', 'será que tudo que eu fiz antes foi sorte'. Houve um monte de questionamentos pessoais bem pesados, até pensei porque precisava passar por isso, se voltando para o Brasil eu teria a minha família, amigos e até conseguiria trabalho mais ou menos fácil. No final, minha decisão foi de me dar mais um ano, reverter a situação e não desistir. Também pensei, 'com certeza eu estou fazendo coisas erradas que eu preciso avaliar, mas com certeza eu também não estou fazendo absolutamente tudo errado e também não é possível que eu também não consiga fazer mais nada'. Aprendi muito e, lógico, eu mudei algumas coisas em que provavelmente eu estava errado mesmo. Por exemplo, tive de me adaptar mais à cultura, mudei a maneira de abordagem, entre outras coisas. Então, foi tudo isso que eu passei.

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