Susan Walsh/AP
Governo dos Estados Unidos avança na discussão sobre políticas econômicas mais expansionistas, diz Sandbu.  Susan Walsh/AP

EUA abraçam ‘novo consenso’, mas resto do mundo desconfia

Países como Reino Unido e Alemanha discutem e até adotam mudanças, mas de forma incipiente, afirma Martin Sandbu

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 05h00

Apesar de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial defenderem hoje políticas econômicas mais expansionistas, a ideia ainda está muito longe de ter o alcance que o antigo Consenso de Washington teve, admite o comentarista do Financial Times, Martin Sandbu.

Nos anos 1990, o Consenso surgiu como um pacote de políticas econômicas que pregavam sobretudo a austeridade como fórmula de crescimento. Agora, porém, os organismos internacionais passaram a repensar essa fórmula.

“Certamente isso não está bem estabelecido. As instituições internacionais e o governo dos EUA estão muito à frente nessa curva. Não vejo outros lugares em que essas ideias foram realmente abraçadas. É algo muito único sobre como Biden, Janet Yellen (secretária do Tesouro americano) e Jerome Powel (presidente do Banco Central dos EUA), no topo da economia mais importante do mundo, estão pensando as coisas.”

Sandbu destaca que há, sim, outros movimentos nessa direção, porém em estágio mais incipiente. “No Reino Unido, mesmo antes da pandemia, o partido de Boris Johnson vinha sendo expansionista”, afirma. “As coisas estão avançando um pouco em cada lugar. Mas só porque Washington está fazendo isso, você tem de levar a sério, porque ainda é o lugar mais importante do mundo para a criação de políticas públicas.”

Segundo o economista, na Alemanha, onde a academia tem uma tradição conservadora e ortodoxa, economistas começam a argumentar na direção de uma menor preocupação com endividamento. “Há um debate sobre as regras de dívida da Constituição alemã. Isso vai se tornar importante na eleição no fim do ano. Mas as mudanças levam tempo. Suspeito que você vai ver essa mudança em muitos países. Talvez o modo como isso aconteça não é com pessoas mudando de ideia, mas com pessoas novas com opiniões diferentes começando a se tornar mais dominantes no debate.”

Sandbu lembra que, para o economista que cunhou o termo “Consenso de Washington”, John Williamson, as políticas a serem adotadas previam austeridade, mas também financiamento em áreas como saúde e educação. “O que normalmente pensamos sobre o Consenso é um conjunto de políticas muito neoliberais. As políticas de Williamson eram mais diversificadas. As críticas que surgiram ao Consenso foram em termos de como o FMI e o Banco Mundial deram conselhos nos anos 90: reformas estruturais que na prática forçaram países a cortar gastos sociais”, diz.

Coincidentemente, Williamson morreu no último mês de março, no mesmo dia em que Sandbu publicou seu artigo sobre o “novo Consenso de Washington”.

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‘Liberalização nem sempre cria mais produtividade’

Autor de artigo sobre novo ‘Consenso de Washington’ prega mais gastos globais com educação e meio ambiente; para ele, dívida elevada do Brasil não muda o fato de que o país terá de se adaptar ao novo cenário mundial

Entrevista com

Martin Sandbu, comentarista de economia europeia do ‘Financial Times’

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 05h00

Comentarista do Financial Times, Martin Sandbu escreveu recentemente um artigo em que afirmou que surgiu um novo Consenso de Washington. Ao contrário da versão dos anos 1990, o novo modelo estimula gastos de governos em áreas que tragam retorno, como saúde e educação. Apesar de endividado, o Brasil terá de se enquadrar na nova realidade, acrescenta. E a saída é gastando melhor. “A dívida elevada não muda o fato de que o Brasil também tem de se adaptar às circunstâncias desse mundo que está mudando, principalmente ao desafio climático global.” 

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O Consenso de Washington falhou ou essa nova tendência decorre da crise da covid-19?

Falhou no sentido de que nunca foi um pacote de políticas que funcionou completamente. Se o país precisa balancear seu orçamento e faz pessoas não irem ao médico porque não podem pagar, você reduz a produtividade e a habilidade de financiar o orçamento. Erros parecidos, talvez menos extremos, foram vistos na crise da zona do euro. Países que receberam resgates financeiros foram obrigados a adotar algumas políticas contraproducentes que atrasaram o crescimento. Desde a crise global financeira, vimos a desaceleração da produtividade em países de renda alta, a queda contínua da taxa de juros, uma demanda insuficiente e um efeito contraproducente na consolidação fiscal. As pessoas começaram a dizer: ‘Não estamos entendendo como a economia funciona aqui’. Perceberam que não é verdade que (combate à) desigualdade e crescimento são coisas opostas. Não é verdade que a liberalização financeira sempre cria mais produtividade. O que vemos agora nos conselhos políticos é uma resposta a esse novo modo de pensar.

O novo consenso pode ser tão poderoso quanto o anterior?

O consenso anterior era tão poderoso porque as duas ‘Washingtons’ são muito poderosas. Tem a Washington da administração dos EUA e a Washington das instituições internacionais, do FMI e do Banco Mundial. Mas houve uma mudança. Os EUA perderam prestígio, e o FMI e o Banco Mundial também não são mais os únicos no jogo. Temos hoje instituições de países emergentes. As duas Washingtons não são mais tão dominantes, mas ainda são fortes. Quando Trump estava no comando, outros países se sentiram encorajados a copiá-lo. Agora, Biden está fazendo uma experiência econômica gigantesca, muito ativa. Isso vai facilitar para a Europa dizer: ‘Eles estão fazendo isso, talvez devêssemos nos preocupar menos em relação a gastar muito’.

Se o plano de Biden der errado, o novo consenso pode ruir?

Acho que sim, ao menos a parte que defende a política econômica ativa. Há um experimento não só fiscal, mas monetário. Se ele falhar, esse tipo de ideia morrerá nos círculos políticos. Mas, se funcionar, reforçará a tendência. O consenso tem outros elementos também, como a agenda sustentável. Essa parte não corre risco.

E como o sr. avalia o pacote de Biden? 

A questão é como os países estão se financiando. A maior parte é financiamento doméstico. A pergunta a ser feita é: ‘qual política vai levar a um crescimento maior e mais sustentável?’ A sustentabilidade da dívida e o risco de emprestar depende não apenas de quanto você tem, mas de quanto terá no futuro para pagar a conta. Isso é mais fácil de se dizer para países de renda alta do que para países emergentes, que têm de emprestar de outros. Mas estamos rebalanceando o que significa finanças públicas sustentáveis. Elas dependem de com o quê o país gasta, se investe em produtividade. É importante destacar que as previsões para os EUA dizem que, no ano que vem e no seguinte, a economia será maior do que seria sem a pandemia. Isso por causa desse gasto extraordinário e desse financiamento. 

A situação é diferente para os emergentes. Reformas ortodoxas não serão exigidas por investidores, como no passado?

Em termos de poder gastar, vai importar se o país construiu uma boa reputação entre investidores. Nesse caso, não será problema ser mais lento na abertura do setor financeiro ou investir na saúde e na educação, porque, no fim, o país vai conseguir aumentar a produtividade. Se o FMI diz que essa é a política que os países devem seguir, fica mais fácil para os emergentes.

O Brasil já está bastante endividado. Poderá fazer parte desse novo consenso?

O País já tem um Estado grande, mas tem muito potencial para melhorar como o governo gasta o dinheiro público. Isso tem de ser prioridade. Mas a dívida elevada não muda o fato de que o Brasil também tem de se adaptar às circunstâncias desse mundo que está mudando, principalmente ao desafio climático global. O País precisa pensar o que funcionará para sua economia daqui a 30 anos. E a resposta será uma população mais bem educada e saudável. Meu ponto é: o fato de que há um endividamento não muda os desafios. Eu sugeriria que o Brasil encontrasse modos de fazer empréstimos de forma segura, com prazos longos, para que não tenha de se refinanciar de repente quando as taxas de juros estiverem mais altas.

Há diferença entre o novo consenso e o keynesianismo?

Ele é mais amplo que o keynesianismo, pois inclui, por exemplo, uma nova visão de como a desigualdade ou a desregulamentação financeira excessiva podem ser ruins para o crescimento. Também engloba uma abertura para uma política industrial sofisticada.

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