EUA acusam Brasil de tentar desviar atenção de Doha

O governo dos Estados Unidos acusou ontem o Brasil de tentar desviar a atenção da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) ao pedir a abertura de uma investigação pelos tribunais da entidade contra os subsídios agrícolas americanos, inclusive para o etanol (álcool combustível). Washington optou por bloquear o pedido brasileiro, que terá de ser refeito em meados de dezembro para que a OMC abra a investigação.O Brasil, ao lado do Canadá, acusa os Estados Unidos de distribuírem subsídios acima do limite autorizado de US$ 19,1 bilhões por ano. Para provar isso, Brasil e Canadá apresentaram queixas contra 88 programas, inclusive planos de ajuda para os cultivos afetados por furacões, programas de irrigação, isenções fiscais na compra de gasolina, ajuda militar para infra-estrutura e mesmo contribuições dentro de programas destinados à guerra contra o terrorismo.Entre os programas questionados, o Brasil incluiu duas políticas americanas destinadas a ajudar os produtores de milho na elaboração do etanol. Pela avaliação de organismos internacionais, a produção de etanol nos Estados Unidos somente pode ser competitiva com a ajuda de subsídios estatais que chegariam a US$ 7 bilhões ao ano. Os norte-americanos, porém, rejeitam os argumentos do País. "De acordo com o Brasil, virtualmente toda ajuda americana para os produtores é distorciva. Não há base para essa alegação", afirmaram os representantes da Casa Branca na reunião de hoje na OMC."Os Estados Unidos estão preocupados com o fato de que o pedido brasileiro irá desviar tempo, recursos e atenção da Rodada Doha, exatamente no momento crítico que estamos chegando para seu sucesso", disseram os diplomatas americanos. Segundo Washington, muito trabalho precisa ser feito ainda nas negociações. "Estamos comprometidos com a Rodada e esperamos que o Brasil também esteja. Os Estados Unidos e o Brasil seriam mais beneficiados se focarmos nossas energias em transformar essas negociações em um sucesso", afirmaram.Para o Brasil, a lógica é exatamente a inversa. Cansado de não ver resultados nas negociações há seis anos e sem uma demonstração americana de que poderiam reduzir de forma suficientes seus subsídios, o Itamaraty optou por ir aos tribunais. O caso que tenta ser aberto, portanto, serviria como uma pressão extra para que os americanos entendessem que seria mais benéfico a eles negociar um novo acordo na OMC que continuar a sofrer ataques nos tribunais.

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