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EUA ameaçam barrar especulação no preço do petróleo

Senado americano estuda medidas para impedir que fundos hedge e de pensão invistam no mercado

Patrícia Campos Mello, correspondente de O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2008 | 23h58

Quatro anos atrás, o barril do petróleo custava US$ 40. Na sexta-feira, fechou em US$ 140,21. Muitos prevêem que chegará aos US$ 180 no fim do verão do Hemisfério Norte. Para muitos legisladores, só oferta e demanda não explicam esses preços recordes. Há algo de podre no mercado de papéis futuros de petróleo.   Veja também A evolução da cotação do petróleo no mundo   Na semana passada, o senador americano Joe Lieberman propôs uma série de medidas para acabar com a especulação no mercado de petróleo. O democrata Lieberman, assim como um número crescente de especialistas, acha que o aumento da demanda da China e da Índia, a queda do dólar, a falta de investimento e redução na produção não são os únicos culpados pelo preço recorde do petróleo, que se aproxima de US$ 150. Especulação no mercado futuro está por trás de grande parte da alta dos preços. Segundo alguns analistas, se os especuladores fossem banidos do mercado, o barril poderia cair para até US$ 60.   Em ano eleitoral, a alta nos combustíveis é um tema explosivo. O Congresso americano realizou mais de 50 audiências para investigar as causas da alta do petróleo. Só na semana passada, foram 16 audiências. Lieberman propõe banir os fundos de pensão e de hedge do mercado de petróleo. Esses fundos, que investiam pouco mais de US$ 15 bilhões em commodities até o ano 2000, hoje ultrapassam os US$ 250 bilhões.   Em seu programa de energia, o candidato democrata Barack Obama também promete fechar o cerco contra a especulação no mercado de petróleo. Ele propõe a eliminação da chamada "brecha Enron", que isenta vários investidores em energia de regulamentações. A Enron se beneficiou disso, daí o nome. Obama também prega uma maior transparência dos fundos que seguem índices de commodities e um aumento no porcentual da aplicação que os investidores precisam depositar, que é a margem.   Grande parte dos compradores de títulos futuros não é especulador: são as linhas aéreas, empresas de transportes e outros que adquirem papéis que permitem comprar petróleo a certo preço no futuro, para se proteger das oscilações de preços. Mas muitos fundos usam esses papéis para rechear seus portfólios de investimento e vêm aumentando muito suas compras, principalmente aqueles que apostam que o preço vai continuar subindo.   Michael Masters, dono do fundo hedge Masters Capital Management, diz que há um choque de demanda por causa desses novos participantes no mercado futuro de commodities, investidores institucionais como fundos de pensão, fundos hedge e fundos soberanos. Masters calcula que o aumento da demanda da China, de 920 milhões de barris por ano, é semelhante ao aumento da demanda desses fundos por papéis futuros de petróleo, equivalente a 848 milhões barris.   O órgão de supervisão desse mercado, a Comissão de Negociação de Papéis de Petróleo Futuro, afirma que a influência dos especuladores sobre os preços é mínima e a alta se deve a fatores de oferta e demanda.   Mas vários observadores acreditam que a influência dos especuladores sobre o preço é grande. "A especulação afeta cada vez mais o preço do petróleo", disse ao jornal Daily Telegraph o megainvestidor George Soros. "O preço segue uma trajetória característica de bolhas." Ali al-Naimi, ministro do Petróleo da Arábia Saudita, declarou que o boom nos preços é causado por investidores e não por falta de oferta. Em audiência no Senado, John Hofmeister, presidente da Shell, disse que o barril deveria custar entre US$ 35 e US$ 60.   "Nunca vimos tanto dinheiro fluindo para commodities. É é como se as commodities tivessem sido promovidas a grau de investimento. Antes, eram consideradas um investimento altamente arriscado, mas agora todos os fundos de pensão investem nisso", diz Charles Maxwell, pesquisador sênior da Weeden & Co que estuda petróleo há 50 anos.   Maxwell acredita que certamente essa migração de recursos influencia no preço. Mas, para ele, o maior combustível para a alta de preços é mesmo a falta de um amortecedor entre oferta e demanda. "Sempre tivemos uma oferta 10% acima da demanda; agora, se não incluirmos a capacidade de produção de petróleo de má qualidade, a sobra não chega a 0,25% da demanda", afirma. "Por isso, o preço não pára de subir. Sabemos que, caso haja qualquer problema, não existe capacidade ociosa para tapar o buraco." Ou seja, o mercado está à mercê de qualquer probleminha na Venezuela, Irã ou Rússia.   Para Daniel Yergin, diretor-gerente da Cambridge Energy e autor do best-seller O Prêmio, há uma combinação de fatores, além da dita especulação. A alta nos custos de pesquisa e desenvolvimento de novos campos, combinada com o crescimento de demanda em países emergentes, é um fator determinante. Muitos países com rápido crescimento de demanda, como a China, mantêm os preços domésticos do petróleo artificialmente baixos por causa de subsídios, então a demanda não cai como seria o natural em um ambiente de altos preços, embora a China tenha anunciado recentemente que vai cortar parte desses subsídios.   Muitos especialistas apontam para o perigo de fazer dos especuladores um bode expiatório dessa crise. Maxwell, da Weeden & Co, acha que o Congresso está exagerando e as medidas para coibir especulação vão afugentar investidores dos EUA. "Os investidores vão migrar para outras bolsas para aplicar em petróleo, os EUA vão perder esse dinheiro", diz.

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