Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Fed indica que juros vão subir mais este ano e pressão sobre o Brasil aumenta

Banco central americano apontou que taxa deve ter quatro altas em 2018, chegando em dezembro entre 2,25% e 2,50%

O Estado de S.Paulo

13 Junho 2018 | 15h39
Atualizado 13 Junho 2018 | 23h46

A principal origem da volatilidade do mercado financeiro nos últimos meses se concretizou nesta quarta-feira, 13, com a indicação do banco central americano de que a taxa de juros do país pode ter, ao todo, quatro altas em 2018. O Fed anunciou a segunda elevação do ano, para a faixa de 1,75% a 2%. Junto com o comunicado, a maioria dos dirigentes do banco indicou que a taxa deve chegar em dezembro entre 2,25% e 2,50% – mais do se esperava no início do ano. 

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A decisão aumenta a pressão sobre países emergentes, como Argentina, Turquia, Índia e Brasil – que já vinham sofrendo os efeitos colaterais com a expectativa de um aperto maior na política monetária americana. Com os juros mais altos por lá, os investidores tendem a transferir recursos de países onde o risco é maior para os Estados Unidos, desvalorizando moedas locais em relação ao dólar. No mês passado, a Argentina teve de recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) depois de uma intensa desvalorização do peso. Turquia e Índia elevaram a taxa de juros. No Brasil, com o agravante das incertezas em torno das eleições, o dólar, que estava cotado em R$ 3,25 em março, começou a caminhar em direção aos R$ 4. 

Após a reunião do Federal Reserve (Fed), o Banco Central precisou fazer três intervenções para conter a alta da moeda americana, despejando mais US$ 4,5 bilhões em dinheiro novo no mercado de câmbio. O dólar chegou a encostar em R$ 3,74, mas perdeu fôlego e encerrou o dia cotado a R$ 3,7155.

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No curto prazo, o fortalecimento do dólar pode provocar uma pressão inflacionária, já que muitos insumos no País são cotados pela moeda americana. Mais à frente, alguns analistas não descartam a possibilidade de um aumento da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, para conter a alta de preços e do dólar.

Mercado de trabalho. Um dos fatores que mais pesaram para o aumento da taxa de juros dos EUA é o mercado de trabalho local. Informações recebidas pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed entre a reunião de política monetária de maio e o encontro desta quarta-feira indicam que o mercado de trabalho continuou a se fortalecer e a atividade econômica tem se expandido a um ritmo "sólido", aponta o comunicado da instituição.

"Ganhos de empregos têm sido fortes, na média, em meses recentes, e a taxa de desemprego declinou", afirma o Fed. "Dados recentes sugerem que o crescimento de gastos das famílias acelerou, enquanto o investimento em capital fixo de empresas continuou a crescer fortemente."

A nota do BC americano comenta ainda que, na base de 12 meses, tanto a inflação nominal quanto a inflação excluindo alimentos e energia se aproximaram de 2%, ao passo que indicadores de expectativa de inflação de prazo mais longo mudaram pouco, na média.

Em seu comunicado, o Fed lembra de seu mandato de garantir máximo emprego, com estabilidade de preços. 

"O Comitê espera que mais elevações graduais na taxa para os fed funds sejam consistentes com a expansão sustentável da atividade econômica, condições fortes do mercado de trabalho e inflação próxima da meta simétrica de 2% do comitê no médio prazo", diz, acrescentando que os riscos à perspectiva econômica parecem em geral equilibrados.

Diante das condições atuais e das expectativas para o mercado de trabalho e a inflação, os dirigentes do Fed afirmam que decidiram elevar os juros para a faixa entre 1,75% e 2%, mas argumentam que isso não significa um endurecimento excessivo: "A postura da política monetária continua acomodatícia, portanto apoiando as condições fortes no mercado de trabalho e uma volta sustentável à inflação em 2%", diz.

O Fed afirma ainda que, ao determinar o cronograma e o tamanho de ajustes futuros da taxa de juros, avaliará as condições reais e as esperadas para a economia, tendo em vista seus objetivos para inflação em 2%, com máximo emprego. "Essa avaliação levará em conta uma série de informações, incluindo medidas das condições do mercado de trabalho, indicadores de pressão inflacionária e expectativas para a inflação e leituras dos acontecimentos financeiros e internacionais", diz o comunicado.

Mais duas altas. A maioria dos dirigentes do Fed prevê que os juros da economia americana chegarão ao final deste ano na faixa entre 2,25% e 2,50%, apontou o gráfico de pontos da instituição divulgado logo após a decisão de política monetária da instituição. 

De acordo com o gráfico, dois dirigentes veem os juros na faixa atual - entre 1,75% e 2,00% - até o fim deste ano. Já cinco dirigentes veem os juros entre 2,00% e 2,25% até 2018, o que equivaleria a mais uma elevação de 0,25 ponto porcentual. No comunicado da reunião de março, seis dirigentes previam que os juros chegariam ao fim do ano nessa faixa.

A principal mudança esteve no apontamento de que sete dirigentes veem os juros na faixa entre 2,25% e 2,50% no fim deste ano, o que equivaleria a mais duas elevações de 0,25 ponto porcentual, totalizando quatro altas em 2018. A mediana das projeções para a taxa dos Fed funds em 2018 subiu de 2,1% para 2,4%. O total de cinco altas no ano é endossado por apenas um dirigente, de acordo com o gráfico de pontos

Em relação a 2019, a mediana das projeções para a taxa dos Fed funds subiu de 2,9% para 3,1%. Entre os dirigentes, quatro acreditam que os juros chegarão ao fim do próximo ano na faixa entre 2,75% e 3,00%, enquanto outros quatro preveem que a taxa ficará entre 3,00% e 3,25%. Mais três dirigentes preveem que as taxas de juros ficarão na faixa entre 3,25% e 3,50% no fim do próximo ano.

Para 2020, a mediana das projeções para a taxa dos Fed funds se manteve em 3,4%, enquanto a mediana das estimativas para os juros no longo prazo permaneceu inalterada em 2,9%. 

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