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EUA caminham para transição energética independentemente de quem comandar a Casa Branca

Para analistas, os próprios governos estaduais e municipais podem tomar iniciativas como a redução da emissão de gás carbônico e metas para utilização de energia renovável, que não dependem do aval presidencial

Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2020 | 19h00

Os Estados Unidos caminham para uma transição energética, com a gradual substituição do uso de combustíveis fósseis por energias limpas, independentemente de quem estiver no comando da Casa Branca, avaliam analistas da S&P Global Platts. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Roman Kramarchuk e Rene Santos afirmam que os governos estaduais e locais podem tomar iniciativas, como metas de emissões de gás carbônico e para a utilização de energia renovável, que não dependem do presidente.

O setor privado também define suas próprias diretrizes de política e é influenciado por investidores e consumidores que entendem a importância de combater as mudanças climáticas, segundo os especialistas. "Também temos pressões ESG [compromissos ambientais, sociais e de governança] nas quais o próprio setor corporativo reconhece que deseja mostrar que toma medidas para lidar com os riscos climáticos", ressalta Kramarchuk.

A eleição americana de 3 de novembro, entretanto, terá influência, principalmente no que se refere ao ritmo dessa transformação nos setores de energia. No debate presidencial de 22 de outubro, o candidato do Partido Democrata, Joe Biden, defendeu a transição energética. "Porque a indústria do petróleo polui significativamente, tem que ser substituída por energia renovável ao longo do tempo. Eu pararia de contribuir para a indústria do petróleo. Eu pararia de dar a eles subsídios federais", declarou o ex-vice de Barack Obama, em resposta a uma pergunta do presidente Donald Trump.

Em seu plano de governo, Biden também propôs gastar mais de US$ 2 trilhões em projetos de infraestrutura com foco em energias limpas. Se o democrata for eleito, portanto, a transição energética será acelerada, mas isso também vai depender do controle do Senado, hoje na mão dos republicanos. "Trump seria o oposto. Ele continuará a permitir que as petroleiras perfurem [poços de petróleo] o quanto precisarem", afirma Santos.

Rene Santos é gerente de Análise de Oferta para América do Norte da S&P Global Platts. Roman Kramarchuk, por sua vez, é chefe de Análise de Energias do Futuro. Confira os principais trechos da entrevista:

A S&P Global Platts menciona, em relatório recente, que os EUA parecem estar indo rumo a um futuro de energia limpa, independentemente de quem esteja na Casa Branca. Por quê?

É a combinação de tecnologia, política, fundamentos de mercado e comportamentos. Temos muitas alavancas de política nas mãos de Estados e entidades locais não ditadas pelo governo federal. A Califórnia assumiu metas de emissões de gás carbônico extremamente agressivas de longo prazo. Há vários Estados que também adotaram metas de carbono zero para o setor de energia.

Também temos pressões ESG [compromissos ambientais, sociais e de governança] nas quais o próprio setor corporativo reconhece que deseja mostrar que toma medidas para lidar com os riscos climáticos. E isso está sendo impulsionado, por um lado, por investidores que querem entender os riscos. E, do outro lado, pelos novos consumidores que querem poder valorizar uma empresa que está abordando a questão climática. No lado privado, estamos vendo mais direção rumo à transição energética.

Quais são os outros fatores?

Se olharmos para as tecnologias, o custo dos carros elétricos está caindo porque o custo da bateria está caindo. Temos outras partes do mundo, como China e Europa, impulsionando a adoção de veículos elétricos. Portanto, essas tendências vão continuar. Você continuará a ver os custos diminuírem por causa do aprendizado, da prática e da aceitação. Outro fator é que a grande maioria de nossas usinas a carvão tem décadas e essas instalações mais antigas serão desativadas. Apenas a passagem do tempo fará com que a transição energética aconteça, mas também os custos mais baixos de tecnologia conduzirão a essa transição.

Então, a transição vai acontecer. Mas o governo federal poderia acelerar esse processo, certo?

Correto. Com certeza.

O que significaria um governo Biden para o setor de energia dos EUA e a transição energética?

Pode haver uma mudança significativa na política de petróleo e gás depois de 3 de novembro. Eles gostariam de interromper a perfuração [de poços de petróleo] em terras administradas pelo governo federal - não em terras privadas. A maioria dos arrendamentos de petróleo nos EUA é de terras privadas, mas há certas áreas que ainda possuem terras federais. Portanto, se você tiver licenças existentes agora, eles as honrarão. No ano que vem, se proibirem a perfuração com arrendamento federal, não será possível perfurar, obter licenças para novos poços. Isso teria um impacto significativo. Estimamos em cerca de 1,1 milhão de barris de petróleo até o final de 2024. Enquanto isso, muitos operadores sentem que algo vai acontecer. Então, eles aumentaram as licenças. Conseguiram muito mais licenças nos últimos meses. No ano, foram aprovados mais de 1.800 poços, 45% a mais em relação aos níveis de 2019.

E se o presidente Donald Trump se reeleger?

Trump seria o oposto. Ele continuará a permitir que as petroleiras perfurem [poços] o quanto precisarem. Ele continuará abrindo o Golfo do México e outras áreas para locação.

Que outras mudanças Biden poderia fazer no setor de energia?

Uma das regulações revertidas recentemente pelo presidente Trump são os novos limites de emissão de metano na produção de petróleo e gás. Uma das coisas que podem acontecer com uma mudança na eleição é que o Congresso, se for democrata, pode reverter essa regulamentação muito rapidamente. Mas levaria tempo para o governo Biden reverter as ações de Trump.

E com relação à demanda?

Uma das outras regulações importantes que Trump reverteu foi em torno da eficiência do combustível para veículos. O governo Obama propôs um aumento agressivo na eficiência dos veículos leves. O governo Trump tornou isso muito menos rigoroso. E poderíamos ver a administração Biden voltando aos padrões agressivos de economia de combustível para veículos leves. E isso é algo que impactaria a demanda por petróleo.

Na seara dos veículos elétricos, a plataforma de Biden também informa que eles vão adquirir veículos limpos para frotas federais.

Acho que uma parte importante da plataforma de Biden é o compromisso com um setor de energia livre de carbono até 2035 e uma meta de emissões líquidas zero até 2050. Isso é algo que eles precisarão da aprovação do Senado.

Biden tem uma proposta de gastar US$ 2 trilhões em infraestrutura com foco em energia limpa. Um Congresso dividido pode dificultar isso?

Certamente. O que acontece no Congresso é crucial. Há 23 republicanos candidatos à reeleição. Existe um potencial para o Senado mudar. Agora, outra coisa a ter em mente é que, por causa das regras do Senado, normalmente você precisa de 60 votos para promulgar a maior parte das leis. Será que os democratas vão conseguir 60 cadeiras? Não há ninguém prevendo nada perto disso. Uma outra questão é se os democratas vão mudar as regras do Senado para que seja necessária uma maioria simples para aprovar a legislação convencional. Este é um assunto muito polêmico.

O que Biden não seria capaz de fazer sem apoio suficiente no Congresso?

Existem coisas que ele pode fazer por decreto, outras por regulamentação. Mas há coisas que ele não pode fazer sem aval legislativo. Para coisas como alcançar um setor de energia descarbonizado até 2035, ele precisará de aprovação legislativa, e é aí que isso se tornará um desafio.

Como um governo democrata afetaria os contratos futuros de petróleo?

No lado dos EUA, haveria potencialmente menos produção de petróleo porque eles não permitiriam que as empresas perfurassem em terras federais. Isso não é bom para as petroleiras, mas sim para os preços. Menos oferta resulta em um preço mais alto. No entanto, do lado internacional, existem sanções contra Irã e Venezuela. Trump saiu do acordo com o Irã assinado por Obama. Biden deixou claro que provavelmente voltará ao acordo ou fará algo um pouco mais conciliatório. Portanto, é provável que o Irã eventualmente comece a produzir mais. A Venezuela é um pouco mais complexo. É difícil prever o que vai acontecer com Nicolás Maduro. É provável que o governo Biden seja um pouco mais brando, com um relaxamento das sanções, por causa do lado humanitário.

E se Trump ganhar, o que pode acontecer com os contratos de petróleo?

Basicamente, do lado dos EUA, ele não vai impor nenhuma restrição à perfuração, seria o mesmo que há agora. Do lado internacional, não acho que ele vá mudar muito a política em relação à Venezuela. Mas com o Irã, eventualmente, algo vai acontecer. Ou os iranianos vão começar a ceder. Trump adora se ver como um negociador e talvez tente chegar a algum tipo de acordo.

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