EUA classificam como 'baixos' comentários de Amorim

Ministro chama estratégia de países ricos de 'nazista' e causa incidente diplomático com EUA e Europa

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

19 de julho de 2008 | 18h26

As declarações do chanceler brasileiro, Celso Amorim, comparando americanos e europeus às táticas usadas no nazismo causaram um incidente diplomático, em plena semana decisiva das negociações na Organização Mundial de Comércio (OMC). O governo dos Estados Unidos afirmou que os comentários eram "baixos" e que iam "além de qualquer imaginação". Pior, a representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, é filha de sobreviventes do Holocausto. Seus assessores afirmaram que ela ficou surpreendida com o ataque, considerado como "pessoal e baixo". Veja também:Amorim: países ricos adotam estratégia nazista na OMC Na declaração que gerou a polêmica, o chanceler lembrou que o chefe da propaganda no governo nazista, Joseph Göbbels, costumava dizer que se você repete uma mentira várias vezes, ela acaba se tornando uma verdade. "Sempre mostramos respeito ao Brasil, ao ministro Celso Amorim e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas esses comentários vão além do razoável", afirmou Sean Spicer, porta-voz de Schwab. "Isso e uma das coisas mais baixas que já vimos", disse, em nome do governo americano. "Esperamos que os comentários não afetem a Rodada", afirmou. O Itamaraty, ao saber dos antecedentes de Schwab, se apressou quase à meia-noite na Europa em pedir desculpas pelo incidente provocado pelos comentários de Amorim. "O ministro lamenta se Schwab ou qualquer um foi afetado por seus comentários sobre um fato histórico. Ele certamente não tinha a intenção de ferir o sentimento de ninguém e ele respeita profundamente Schwab", afirmou o porta-voz do Itamaraty, Ricardo Neiva Tavares. Ele lembra que Amorim foi cauteloso o suficiente para desclassificar o autor da frase. Ao citar Goebbels, o ministro pediu "desculpas" aos jornalistas. "Sua única intenção era de mostrar que as vezes falsas versões repetidas suficientemente podem superar fatos e a propaganda pode substituir a verdade", afirmou. Ainda assim, a Casa Branca hesitou ao saber do pedido de desculpas. "Ele (Amorim) é quem cuida da diplomacia do Brasil", disse Spicer. "Reação exagerada" Nos bastidores do governo, porém, a reação dos americanos foi considerada como exagerada e alguns alertam que a Casa Branca teria reagido de forma dura para tentar intimidar Amorim nas negociações. Isso porque, na substância do acordo, o governo americano continuou silenciando sobre a possibilidade de fazer concessões no corte de subsídios aos níveis pedidos pelos países emergentes. O chanceler Celso Amorim chegou a alertar que, se a Rodada Doha for adiada por mais quatro anos, quem se beneficiaria seriam os países emergentes, que poderiam se fortalecer até lá e ganhar ainda mais apoio da opinião pública mundial por um acordo que corrija as distorções no comércio.

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