EUA cobram definição de emergentes em negociação da OMC

O G-20 (grupo formado por Brasil, Índia e outros paísesemergentes) terá de definir até que ponto poderá abrir seus mercados agrícolas para que as negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) avancem. Essa é a avaliação de Susan Schwab, representante de Comércio dos Estados Unidos, que esteve em Genebra nesta sexta-feira para reuniões com o diretor da entidade, Pascal Lamy, na tentativa de estabelecer de que forma poderão relançar o processo, paralisado desde julho por falta de acordo entre as partes. O G-20 ainda não conta com uma posição comum sobre quais setores vai querer manter sob proteção. O Brasil e Argentina, diante de sua competitividade, não teriam problema com uma ampla abertura. Mas Índia, Indonésia e outros países do grupo insistem que não estão em uma negociação para abrir mercados de emergentes, mas para gerar desenvolvimento. Nos Estados Unidos, porém, os cálculos são outros. O corte nos subsídios agrícolas americanos que todos pedem somente seria aceitável se os produtores dos Estados Unidos ganhassem mercados em outros países para compensar a perda da ajuda estatal. Um desses mercados seria a Europa. Mas uma parte substantiva desses ganhos viria da abertura de mercados de países emergentes. Não por acaso, Schwab deixou claro nesta sexta que a definição do que será liberalizado nos países em desenvolvimento será "crítico" para o relançamento do processo. Nos próximos dias, o Itamaraty envia para Nova Délhi uma delegação para tentar aproximar as posições entre os dois países que formam o pilar do G-20. Mas diplomatas sabem que a tentativa de aproximar posições nessa questão tem o potencial de "desgastar" a aliança do G-20.Schwab reconheceu que "trabalhos técnicos" terão de ser realizados nessa área entre os países emergentes e deixou claro que espera que o Brasil atue para aproximar posições. "O Brasil será chave nesse processo", afirmou. DavosPressionada pelo presidente George W. Bush a fazer avançar o processo negociador, Schwab afirmou estar "otimista" com as negociações. Mas admitiu que "ainda há um longo caminho a percorrer" para que o processo seja relançado. Uma das esperanças é de que possa haver algum tipo de aproximação entre os países até o final do mês, quando ocorre a reunião do Fórum Econômico Mundial. Lá, o plano seria o de anunciar um calendário para a retomada do processo em fevereiro."Não há garantias ainda, mas as conversas entre os ministros estão sendo profundas", afirmou a americana, que esteve nos últimos dias com o chanceler Celso Amorim, com representantes europeus e japoneses. "Há diferenças legítimas entre os países. Mas precisamos pensar em pacotes", disse.A pressa por um relançamento ocorre diante do fim do mandato, em julho, dado pelo Congresso americano para que a Casa Branca negocie acordos comerciais. Mas a americana garante que não irá comprometer o conteúdo das negociações apenas para respeitar um calendário. "Não será o calendário que ditará o processo. Mas sim o conteúdo", garantiu. Segundo a representante de Bush, se os países conseguirem avançar nas negociações e colocarem sobre a mesa propostas atraentes, será mais fácil convencer o congresso americano a renovar a autorização para que a Casa Branca continue negociando.AlertasEnquanto Brasil, Estados Unidos, Europa, Índia e Japão multiplicam seus encontros, os países que estão sendo mantidos fora do processo começam a se preocupar. A Argentina, por exemplo, admite que está preocupada com a posição brasileira de tentar, a todo custo, fechar um acordo. Em Buenos Aires, um funcionário de alto escalão da diplomacia portenha afirmou que diferenças entre os dois sócios do Mercosul podem surgir nas negociações da OMC nos próximos meses se o Brasil "vender barato" a barganha entre a abertura agrícola dos países ricos e a liberalização de produtos industriais e de serviços na Rodada Doha. Depois de acertar a liberalização agrícola, a OMC passará a tratar dos temas de quedas de tarifas industriais. Será nesse assunto, portanto, que europeus e americanos "passarão a fatura" aos países em desenvolvimento e pedirão a abertura de seus mercados. Nesse caso, o governo argentino teria dificuldades em aceitar o mesmo nível de corte de impostos de importação que o Brasil concederia. "Estamos mais próximos da posição da Índia que do próprio Brasil nesse ponto", admite um funcionário da chancelaria Argentina. CoordenaçãoEntre os diplomatas latino-americanos, ainda cresce o temor de que Cuba, Venezuela e Bolívia tomem posições contrárias a qualquer tipo de abertura de seus mercados, deixando as negociações e o próprio G-20 em uma situação delicada e o próprio G-20. "Já tivemos reuniões em que Cuba, Venezuela e Bolívia falaram com uma só voz", afirmou um negociador. A coordenação entre Havana, La Paz e Caracas também vem chamando a atenção do próprio gabinete de Lamy. A missão da Venezuela em Genebra, porém, hesita em dar entrevistas sobre sua posição.

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