EUA começam a sair da crise

Dois fatos contraditórios nos EUA, que, no entanto, revelam muito e dão sinais de que a crise financeira está sendo superada. Tudo leva a crer que poderá haver repiques isolados, mas, no geral, caminha-se para a normalidade. Nos dois últimos dias saíram mais indicadores econômicos negativos da economia dos EUA, mas a bolsa nem sentiu. Fechou em alta, sem sustos.Em agosto, as vendas de imóveis recuaram 4,9%, as encomendas de bens duráveis caíram quase 5%, em contraste com a alta de 6% no mês anterior, e o índice de confiança dos consumidores se retraiu.Em sondagem feita pela Agência Bloomberg, 64 economistas reduziram a previsão média de expansão anual do PIB, de 2,5% para 2%. A Morgan Stanley estima 2,2% no terceiro trimestre. Embora admitindo riscos, são poucos os que prevêem recessão. ''''A redução dos estoques deve criar clima para a retomada da produção'''', disse o economista-chefe da Morgan Stanley, em nota para clientes.É importante assinalar que essa conjuntura negativa, se ocorrida há duas semanas, teria feito despencar as bolsas. Por muito pouco menos, os índices afundaram nos EUA, na Europa e no Brasil.COMO EXPLICAR?Sem dúvida, o fato essencial foi ousada reação do Fed, que reduziu a taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual. O efeito principal foi imediato, mas outros desdobramentos positivos deverão vir nas próximas semanas. Outro fator é que Bernanke mudou o foco da inflação, que não passa de 2%, para o crescimento econômico e a sustentação do mercado financeiro. Ontem, era quase unânime a impressão dos economistas de que, diante dos resultados pouco animadores, uma nova redução de juros estaria a caminho.''''Diante da possibilidade de forte queda (do consumo), o Fed vai continuar a reduzir a taxa de juros, o que ajudará o mercado'''', disse, à Bloomberg, Charles Knott, que administra um fundo de US$ 1 bilhão na Pensilvânia.BOLSAS VÃO BEM, OBRIGADOEm Wall Street, o valor das ações manteve ontem sólido ganho, num clima de otimismo. ''''Agora, sabemos que o Fed é um aliado do mercado financeiro'''', diz o estrategista Douglas Peta, em Nova York. Ele ressalva que o mercado de crédito ainda está frágil. ''''Será que nós (nas bolsas) somos mais espertos que eles? Não sei.''''Larry Peruzzi, da Boston Company Asset Management, não esconde a surpresa: ''''É espantoso! A correção foi muito rápida. O mercado de crédito continua fraco e a única alteração é que o dinheiro está mais barato.'''' E, por enquanto, isso tem sido mais que suficiente. Se sustenta? Sim, se o Fed der mais sinais de que reduzirá a taxa de juros, se for preciso.BANCO EUROPEU ESPERAA única duvida está com o Banco Central Europeu, BCE, que resiste a agir. Vem deixando até de negar que não pretende aumentar o juro na reunião de outubro. E isso quando a inflação média está sob controle, 1,9%, e os institutos de pesquisa estimam que o PIB europeu não deverá crescer 2,3%, mas 2%. Pode retrair-se ainda mais em conseqüência da redução das exportações para o mercado americano, que representam 14% de todas as vendas externas européias.CRISE ESTÁ NA EUROPASim, a crise imobiliária já está na Europa e isso não só por causa do baque no mercado americano. O Financial Times de ontem mostra que o boom imobiliário também fascinou os europeus. Entre 2002 e 2006, a construção de imóveis na Espanha e na Irlanda foi responsável por nada menos que 26% do crescimento europeu! E em Londres, onde não se compra nada com menos de US$ 200 mil, os preços dos imóveis aumentaram muitíssimo mais que nos EUA, informa pesquisa do The Economist.MUNDO VAI BEMÉ este o novo cenário mundial que se desenha. Vai durar? Pode, sim, se os bancos centrais permanecerem vigilantes, afastando para longe os riscos de recessão. Na verdade, a economia mundial está absorvendo bem o aumento das exportações americanas e não há sinais de repique inflacionário, nem mesmo nos países emergentes que passarada ter um papel mais importante na economia mundial.E NÓS?Quanto a nós, essa crise mostrou que a economia brasileira saiu da adolescência do populismo imaturo para entrar na seriedade dos anos de maturação.Isso significa ajustes fiscais, redução de déficits, acumulação de reservas e, acima de tudo, uma integração corajosa à economia mundial, onde estamos pouco presentes; continuamos nos debatendo em conflitos infantis de concernia - abre ou não abre mais o mercado? Diminui ou não o enorme tamanho do Estado? - que os demais países já superaram há muito tempo.*E- mail:- at@attglobal.net

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