EUA correm para salvar Doha e não ficar com ônus do fracasso

A autoridade que pronunciou duas vezes o ?não?, levando ao colapso da Rodada Doha, recorre neste sábado a uma conversa informal com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em um hotel à beira da praia de Copacabana. Esse será o primeiro de uma série de diálogos que a representante dos Estados Unidos para o Comércio (USTR), Susan Schwab, travará até novembro para retomar as negociações, suspensas na segunda-feira, e evitar que o ônus do fracasso da rodada recaia sobre os ombros do presidente George W. Bush.Não fosse a alcunha de ?mrs. No? (senhora Não), Susan Schwab teria um fardo menos pesado pela frente. Titular do USTR desde 8 de junho, Susan recebeu de herança a conclusão de uma rodada para a qual poucos anteviam êxito. Em julho, nas duas últimas reuniões de ministros na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, a embaixadora negou a apresentação de uma nova oferta dos Estados Unidos sobre os cortes nos subsídios aos agropecuaristas.No primeiro encontro, concluído no dia 1º, Susan provocou um grave impasse. Desembarcou em Genebra com a clara instrução de Bush de não mover uma palha na oferta de corte de subsídios, considerada inaceitável por seus parceiros.Para a segunda reunião, contou com uma estreita margem de flexibilidade concedida pela Casa Branca. Mas, logo no início dos debates sobre as subvenções agrícolas, declarou que as contrapartidas nas ofertas da Índia e da União Européia sobre a abertura de seus mercados agrícolas eram insuficientes para alterar a oferta americana.Diante desse redondo ?não?, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, anunciou a suspensão das negociações. Analistas consideram que dificilmente a USTR receberá a instrução de dizer um ?sim? neste semestre de eleições parlamentares nos Estados Unidos. Afinal, aceitar um limite menor que US$ 20 bilhões para o pacote de subsídios seria desastroso para a composição de uma confortável maioria republicana no Congresso.Rígida e inflexívelAfável no contato pessoal, Susan comporta-se de maneira rígida e inflexível nas negociações, segundo relatam diplomatas. Embora tenha acentuado, durante sua sabatina na Comissão de Finanças do Senado, que é uma ?solucionadora de problemas? e a conclusão da Rodada Doha seria a sua prioridade, a embaixadora amarga uma situação política mais débil que a de seus antecessores no USTR e uma delicada intromissão da agenda eleitoral americana na sua atuação.Em Genebra, o estilo de Susan chegou a lembrar de duas de suas antecessoras no USTR. Charlene Barshefsky (1997-2001) era conhecida nos bastidores como ?Tootsie?, uma referência ao personagem de Dustin Hoffman, mas aterrorizava experientes negociadores. Carla Hills (1989-1993) ainda é recordada como ?um inferno? na mesa de negociações. ?Susan Schwab tem a personalidade difícil de Hills e Barshefsky, embora não tenha a margem de manobra política interna delas?, afirmou um negociador.Celebrada como uma especialista em comércio internacional, mas neófita como principal negociadora americana na Rodada Doha, Susan exercia desde novembro do ano passado a função de vice-USTR. Nesse cargo, concluiu as negociações dos acordos de livre comércio dos Estados Unidos com o Peru e a Colômbia, mas foi pouco vista nos debates diretos da Rodada Doha. Em abril, Bush decidiu reforçar seu meio-de-campo para as eleições parlamentares de novembro e deslocou seu amigo Rob Portman para o estratégico escritório que gerencia o Orçamento americano.A escolha da Casa Branca para o USTR pousou sobre um perfil mais burocrático, desprovido de apoios políticos substanciais no Congresso e sem contato direto e pessoal com o próprio presidente. Figura discreta, Schwab reside na cidade de Annapolis, na costa leste americana.Doutora em Administração Pública e Negócios Internacionais na Universidade George Washington, ela procurou o primeiro emprego, há 29 anos, justamente no USTR, onde ingressou na equipe de negociadores na área agrícola na Rodada Tóquio da OMC (1973-1979). "Agora, eu fechei o círculo?, disse ela, na sabatina no Senado.

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